Mark Broom enters the room...

Por Chico Cornejo

Em tempos de Techno em voga, é sempre reconfortante ter a oportunidade de ver uma figura que teve papel fundamental em estabelecer os fundamentos da cena em sua terra natal exibir o vigor que Mark Broom consegue a cada uma de suas aparições, mesmo que elas não sejam nem um pouco raras. Considerando o quanto ele já contribuiu e o tanto que já percorreu o mundo tendo o gênero como lingua franca, é notável como sua postura ainda permaneça muito próxima  daquela que o apresentou ao mundo há mais de duas décadas. 

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E, no decorrer de todos esses anos, não restam muito poucas frentes nesse amplo campo do fazer e promover musicais nas quais ele não tenha se envolvido: da promoção de alguns dos eventos seminais do Techno londrino à fundação de um dos núcleos mais importantes de disseminação dos produtos dessa cena naqueles momentos seminais, a distribuidora/loja Pure Plastic. Esforços imbuídos daquele senso de missão que é uma característica das mais centrais naquele panteão britânico do Techno no qual encontramos Steve Bicknell, James Ruskin, Paula Temple, Kirk DeGiorgio e tantas outras figuras heróicas.

Ele foi uma das principais atrações desta edição do D-Edge Festival no Canindé que celebrou a maioridade do club brasileiro mais célebre e respeitado neste vasto mundo da eletrônica global, ao lado de veteranos tão tarimbados como ele, entre eles o duo escocês Slam, DJ 3000, Der Dritte Raum, e levou os presentes num daqueles estirões rítmicos que são parte central de sua pegada. Aqui ele troca uma ideia rápida sobre esses 25 anos de carreira, alguns feitos, algumas dicas e o privilégio de retornar ao Brasil depois de um longo período longe de nossas pistas.

"Instituição". Certamente esta palavra é empregada ocasionalmente quando mencionam seu lugar na história do Techno britânico. Como você lida com ela, considerando o quão incansável você tem se mantido e o quão monolíticas costumam ser as coisas que esse termo é usado para definir?

É sempre bom ser reconhecido como parte da história do Techno no Reino Unido e tenho orgulho do quão longe chegamos desde aqueles inícios . Eu procuro não ser seduzido pelo hype e tendo a concentrar minha energia em minhas produções, sempre buscando trazer algo novo de Broom para a mesa.

Olhando par trás nestes 22 anos que nos separam do lançamento de "Angie Is A Shoplifter", você teria algo a dizer para aquele jovem Mark se pudesse?
Que legal que você lembrou de 'Angie', pois esse álbum me colocou no mapa do Techno daqueles dias. Quanto a conselhos para o jovem Mark não creio que mudaria algo acerca do meu desenvolvimento como artista e estou bastante satisfeito com o modo pelo qual as coisas se desenrolaram.

Você já esteve no Brasil antes (honestamente, num contexto profundamente distinto). Havia alguma expectativa para esta ocasião ou mesmo alguma memória que tenha marcado seu retorno a nosso território? 
Minha última visita foi há muito tempo e as lembranças são um pouco turvas, por isso e vi esta oportunidade de tocar no festival como uma oferta irrecusável e estava muito ansioso em saber como minha música iria agir sobre os festeiros ali. Mas, obviamente, toda expectativa é feita para ser superada.

Falando nisso, como alguém que já está no jogo há tanto tempo e deve ter uma perspectiva muito especial sobre o tema, com o que é mais difícil de lidar: suas próprias expectativas ou as do público?
Ao fim e ao cabo estamos aqui para nos divertirmos e colocar todo mundo para dançar, para que todo mundo saia com boas memórias daquilo tudo, então eu não costumo me estressar muito e deixo tudo fluir através da noite.

E quanto ao tão comentado "retorno" do Techno? Sendo um veterano que já surfou muitas dessas ondas de modismos, qual sua opinião particular acerca desse fenômeno recente?Ninguém me visou que o Techno tinha ido embora!

Mesmo que alguns de seus conterrâneos tenham decidido se mudar para outros países, você permaneceu no Reino Unido (outro fator que ajuda a consolidar o papel "institucional" a que nos referimos antes). Há razões particulares para tal, além do apego natural a sua terra natal? 
Sou bem feliz em meu lar em Norfolk e sequer planejo sair do Reino Unido neste momento, e eu o fizer, será para algum lugar bem ensolarado e quente, já que nosso clima chega a ser um pouco deprimente por aqui.

Seu apreço pelo vinil é bem conhecido, mas ele corre em paralelo com suas necessidades como DJ (como itens para um colecionador) ou sua principal razão de ser é alimentá-la (como ferramentas para um seletor)?|
Eu sou e sempre serei um colecionador de vinil, mas no mundo da música eletrônica não é mais tão vital para mim. Eu raramente toco com vinil em clubs hoje em dia, já que o pen drive tornou fácil para os DJs carregarem uma seleção imensa de música num espaço reduzido.
 
E, para terminar, qual é sua relação com a música brasileira até aqui? Ela teve algum papel na sua trajetória ou evolução como artista?
Honestamente, eu não tive muito contato com a música do Brasil, mas quem sabe depois deste final de semana isto possa ter mudado, não é?