A boa vida segundo DMX Krew

Por Chico Cornejo

03.jpg

Ed Upton é um bicho raro no mundo da eletrônica contemporânea e vai se tornando cada vez mais uma anomalia à medida que entramos em mais um ciclo de renovação de meios e talentos, ainda que nem tanto de sons e ideias, no fazer artístico que nos embala nas pistas. Oriundo de um vilarejo que até hoje mantém um clima bicho-grilo e despojado próximo a Londres, este centrado e sereno pai de família faz c que quaisquer de nossas preconcepções relacionadas à possível fonte de tantas produções de extrema virulência rítmica fiquem na porta assim que entramos no seu mundo, no qual as esferas criativas e domésticas vivem em plena harmonia.

Já há mais de duas décadas tocando a alcunha DMX Krew que o colocou ao lado de figuras mitológicas da inovação musical como Richard D James e Mike Paradinas, ele agora encontra um lugar invejável entre uma nova geração de ouvintes que o descobre e outra que o respeita. Entre o fascínio da primeira e a reverência da segunda, ele vem para a próxima edição da Gop Tun justamente como um representante dos mais férteis de tudo que o coletivo vem se esforçando para promover musicalmente: junção entre passado e futuro num presente que toma forma e ganha vida na pista.

6.jpg

Mesmo que alguém não esteja ciente da origem do seu nome artístico, é bem óbvio que máquinas são uma parte essencial do que você faz como artista. Qual sua relação com elas? Elas servem propósitos específicos, como a busca por um som ou efeito únicos, ou elas acabaram ocupando um lugar totalmente diferente na sua vida criativa do que meras ferramentas?
Elas são principalmente coisas que possuo há muito tempo ou antiguidades que adquiri mais recentemente que me fazem sentir bem. Gosto de tocar teclado, Aprecio sentir a vibração, escutar, não curto olhar para uma tela. Música é algo feito de emoções e o modo que sinto olhando para um computador é completamente diferente daquele que me arrebata quando toco um sintetizador velho com meus olhos fechados. Você pode até trocar essas máquinas específicas por outras e a música continuaria soando como eu… não e o som que sai delas, é o que elas me fazem sentir e como interajo com elas.

Qual é o processo habitual que está por trás de uma faixa do DMX Krew? Ser profícuo é algo que parece trivial para você atualmente, mas qual sua relação com cada estágio: criar sons, compor, gravar, mixar e assim por diante?
Tudo rola de uma vez só para falar a verdade, normalmente eu brinco com um som, encontro alguns acordes ou algo assim e começo a improvisar, sequenciar, intercalar camadas. Eu costumava apenas mixar e gravar direto da mesa para estéreo, sem multitrack, mas recentemente comecei a adicionar cada vez mais overdubs aos elementos. Deve ser porque tenho menos tempo livre hoje em dia, então ao invés de ser capaz de passar quarenta horas numa faixa e deixá-la perfeita para gravá-la ao vivo em estéreo, agora tenho de trabalhar em períodos mais curtos. Assim, agora eu gravo uma ideia básica e aí vou overdubbing em sessões posteriores. Porém, basicamente todas as etapas que você mencionou ocorrem ao mesmo tempo e aí eu acabo voltando após alguns dias e alterar uma coisa ou outra na equalização.

Uma pergunta um tanto capciosa, mas qual sua definição de um “groove”?
Cada nota importa. É como as partes distintas se encaixam. Um bom groove é como um relógio suíço com todas as partes trabalhando perfeitamente juntas e jamais conflitando. Você precisa pensar na temporização e acento de tudo que toca. 

Se considerarmos todas os percursos tomados pelo Electro até aqui, do Kraftwerk e das origens do Hip Hop até como acabou se tornando a trilha sonora para toda uma geração de jovens britânicos, é certamente impressionante notar onde ele se encontra agora. Como você vê sua trajetória no interior dessa tradição?
Foi um  salto arriscado quando decidi dar quando comecei a fazer música nos noventa. Para mim foi um modo de me tornar um peixe maior numa lagoa ao invés de um peixinho nos mares do Techno. Hoje em dia eu não ouço mais tanta música eletrônica e evito ao máximo os gêneros assim como soar genérico: quero criar meu próprio som. Claro que muitas vezes não posso evitar as recaídas em minhas influências que incluem Kraftwerk e Electro, mas também House e Techno, além de bastante Pop, Funk e Soul, até mesmo um tiquinho de Jazz, Fusion e Reggae. 

Ainda num tema próximo: você já pensou em fazer música com aqueles que te influenciam ou inspiram de alguma forma?
Eles estão todos muito acima de mim, por que então eu gastaria seu tempo? Mesmo porque muitos deles já de foram James Brown, George Duke, Prince... Aphex Twin e Chick Corea não precisam de ajuda alguma minha. 

Ainda assim, colaborações não têm sido algo usual para você. Há alguma razão específica para isso?
Sou antisocial e mandão; Quero que tudo soe do jeito que quero e não gosto de fazer concessões. Não há muitas pessoas que vêem as coisas do mesmo jeito que eu: geralmente acho que produtores de música eletrônica possuem um gênero ou público-alvo que procuram atingir e pensar ser o “certo” enquanto eu sempre quis romper, torcer e transcender essas certezas. Então vai haver conflito! Eu gosto de improvisar com amigos de brincadeira mas normalmente o que sai dali nem vale a pena ser lançado. Eu coloquei várias faixas com meu amigo Dave que gosto de verdade sob o pseudônimo Ike N Mike no meu selo Fresh Up. Ele é um guitarrista excelente. Eu sou mais a fim de trabalhar com músicos e intérpretes para tocar de um modo mais humano juntos do que trabalhar com mais gente da eletrônica ou dos sintetizadores.

Como um homem de família e artista que enfrentou a maior parte das grandes mudanças no jogo da música durante a virada do século, há algum segredo para manter esse equilíbrio delicado entre os deveres profissionais e pessoais?
Eu procuro fazer  o mínimo possível de shows que me permite pagar as contas para poder ficar em casa nos interstícios e ajudar a cuidar das crianças, assim como ficar perto das pessoas que amo. Minha fantástica esposa faz de tudo para me ajudar a  aproveitar isso o máximo possível e, esperamos, as coisas tendem a ficar um pouco mais fáceis à medida que as crianças ficarem mais velhas.

É evidente que hoje vemos uma infinidade de tios que ainda tocam e, de alguma maneira, aproveitam a vida na estrada, mas para alguém que é primordialmente um artista de estúdio essa rotina parece ser um tanto mais extenuante, certo?
Eu voltei a tocar na maioria dos finais de semana atualmente após dar um uma desacelerada há um ou dois anos, mas sempre toco apenas uma vez e volto para casa entre cada apresentação. Não bebo ou tomo drogas e ter duas crianças pequenas em casa significa que consigo dormir muito mais quando estou fora de qualquer jeito!

Já que o tema ofício/artesanato foi citado e você é um profícuo fazedor de músicas, poderia dividir conosco algumas minúcias do seu processo? Claro que amadurecer deve ter feito alguma diferença na eficiência e provavelmente hoje você leva menos tempo ´para chegar exatamente onde quer. Então, existe alguma disciplina que tenha sido cultivada no decorrer dos anos ou ainda há espaço para alguns momentos de descoberta do mesmo modo que havia quando você começou? 
Creio que aprender a tocar é um pouco é importante, caso queira fazer música baseada na escala tradicional ocidental de doze notas. Sabendo como soam cada tecla e seus intervalos economiza muito tempo. Obviamente a produção de música eletrônica é muito baseada em gosto, então se consegue ouvir quando soa certo, não importa muito o quanto erra ou o quão tortuoso seja para você chegar ao resultado final.... Exceto que faz uma diferença, porque quando você consegue tocar um pouco e ouvir os intervalos na sua cabeça, aí já dá para tocar exatamente o que quer na primeira tentativa e daí progredir, mantendo sua vibe sem se frustrar. O mesmo vale para a programação de som, mixagem etc. O ímpeto é importante. E, tendo dito isso, trabalhar com peças como a 808 me deu uma bela noção do que cada subdivisão da décima-sexta barra significa sem ter de aprender a tocar bateria! Mixar e coisas afins vai se tornando mais fácil e rápido com o tempo. Boas salas e caixas de monitoramento ajudam bastante e ter trabalhado como engenheiro de masterização por um tempo realmente me ajudou a aprimorar minha escuta e pensar muito mais nas minhas escolhas na mixagem. Adquirir equipamentos pode ser inspirador, mas eu não faço muitos rolos esses dias. O que acaba me inspirando mais são sons e coisas, na verdade. Uma das minhas máximas de estúdio vem da Oblique Strategies: “Honre teus equívocos como se fossem conquistas.” Outro dia, meu filho de um aninho entrou e começou a brincar com o Korg MS10 que estava no chão. Soou muito bom, melhor do que aquilo que eu vinha fazendo. Ele também programou tudo, foi surpreendente!

E, por último, mas não menos importante: há alguma espécie de pacto entre ex-artistas da Rephlex, como você Richard James e Mike Paradinas, para manter suas madeixas longas ou esse picumã longo é mera coincidência?
HAHAHAHAHAHA. Eu mal falo com qualquer um eles. Meu cabelo vai ficar assim até que comece a cair de verdade e aí eu torço para que alguém me faça raspá-lo.