“A música me salvou nos dois momentos mais difíceis da minha vida”: um bate-papo com Rafael Melhem

Por Alan Medeiros (Alataj)

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Talento, segundo o dicionário, algo engenhoso, de habilidade ou capacidade incomuns. Dito isso, podemos cravar: Rafael Melhem é um talento nato. Criando seus beats de house music este talentoso DJ e produtor paulista superou alguns dos momentos mais complicados e difíceis de sua vida. Para os que acreditam no poder de salvação da música, Rafa é um exemplo vivo.

Melhem começou sua carreira produzindo sobre a alcunha The Soul Architect e dividindo sua rotina diária com os estudos de engenharia. Entretanto, em um determinado momento de sua jornada a música falou mais alto e hoje ela é muito mais que um passatempo ou hobby: virou profissão.

Além de seus trabalhos artísticos, agora lançados com seu nome de batismo, Rafa também compõe trilhas para marcas de moda que se comunicam com o estilo criado em Chicago. Seu último lançamento marcou o debut da gravadora Costaluz, Never Let It Go chegou as plataformas com duas faixas originais e um remix assinado pelo DJ e produtor islandês Intr0beatz. Aproveitamos a boa fase do brasileiro para um bate-papo exclusivo:

Olá, Rafa! Tudo bem? Podemos dizer que você é um cara apaixonado por house music, certo? Historicamente, quais foram as suas grandes influências dentro do estilo?
Tudo bem! Sim, a música eletrônica entrou faz muito tempo na minha vida, me influenciando por vários lados, desde a infância. Mas foi na vida adulta e na house music onde encontrei meu lugar. Como todo mundo, foram muitas influências, mas três me tocaram profundamente: Moodymann, Larry Heard e Kerri Chandler. Esse último mereceria um capítulo especial, pois foi por conta dele que comecei a estudar música.

Never Let It Go marca uma nova fase em sua jornada como produtor musical, que foi durante muito tempo representada pela alcunha The Soul Architect. Como você está se sentindo neste momento?
Pra explicar esse nome TSA e o momento atual, preciso voltar um pouco no tempo, quando comecei com esse pseudônimo. Eu era bem novo, fazendo faculdade e morando fora de casa, quando meu pai faleceu de câncer em 2007. A pesquisa musical virou minha válvula de escape. Morando sozinho, soul music e jazz eram as coisas que eu escutava nessa época. Eu me identificava muito com o estilo.

Em 2009, conheci Moodymann, totalmente por acaso. Por estar viciado em Marvin Gaye e vi que o Moodymann tinha feito uma música em homenagem a ele (The Day We Lost The Soul). Fiquei alucinado com aquilo. O caminho natural foi conhecer Theo Parrish. Nesse momento, em 2010, por conta da música ‘Paradise Architects’ e as influências de soul que tive anteriormente, surgiu o The Soul Architect. Eu já estava produzindo e discotecando. A minha primeira música usando esse nome foi tocada pelo Delano Smith, na Itália.


Nessa época o Soundcloud estava bombando, comecei a receber vários convites pra lançar música. Mas muitas coisas ainda estavam acontecendo na minha vida, por conta da faculdade e do trabalho que eu tinha com engenharia, eu acabei abandonando a música por um longo período. Eu já era pai e, quando terminei a graduação, fiquei desempregado, e isso me fez entrar numa crise existencial em 2014.

Tive constantemente síndrome do pânico e um monte de outros problemas de saúde. Nesse mesmo ano, eu ainda estava longe da música, mas sem querer ela me salvou novamente, porque muita gente estava tocando minhas tracks e meu nome estava correndo à margem. Depois de uma longa pausa, eu lancei um EP, com remix do L_cio e ele, na época, estava ficando cada vez mais conhecido.

Foi nesse momento que, talvez devido a uma certa exposição, inexplicavelmente minha vida mudou. Por ser produtor de house, recebi um convite para criar identidade musical de várias marcas de moda que usavam house music como lifestyle.

Desde então só tenho me dedicado a música. Hoje, pelo fato de o cenário estar totalmente diferente, em todos os aspectos, me sinto bem mais a vontade e inspirado pra usar meu próprio nome. Acredito ser uma nova etapa.

A respeito do processo criativo deste EP, o que você pode nos contar? Como foi possível viabilizar o remix do Intr0beatz?
A Never Let it Go foi uma música que eu fiz sem grandes pretensões, depois de ouvir um set do Detroit Swindle. Eu estava brincando no teclado, tocando uns acordes, de repente saiu aquela sequência meio ‘enérgica’ e aí a coisa toda foi desenrolando. Aí a ideia foi ter uma música animada, pra pista! Ela é diferente de tudo o que eu já fiz.

A Hope foi uma música que fiz porque saí muito inspirado de uma reunião. Tinha sido chamado para criar identidade musical para uma marca chamada Hope e aí quando você senta pra produzir música, estando inspirado, a coisa flui naturalmente.

O Intr0beatz é um produtor super talentoso, tá sendo tocado no mundo todo, lançando várias músicas com qualidade (inclusive em vinil) e fiquei muito feliz que ele aceitou a fazer o remix. Conheci ele em 2016 e, ao escutá-lo, você vê que ele resgata a alma da house music que é justamente o que me identifico.

Ao longo de sua jornada frente a música eletrônica, quais foram os acontecimentos mais marcantes/emocionantes que você já presenciou?
Olha, foram vários! Logo no início da minha carreira como produtor de house, tive uma enorme sorte de ver praticamente todos os meus DJs favoritos pedirem e tocarem minhas músicas. Particularmente foi algo que me motivava bastante, tendo em vista que aqui no interior de São Paulo as coisas são infinitamente mais complicadas e é difícil se destacar estando fora das capitais. Mas o ponto mais alto foi quando o Motor City Drum Ensemble, pediu uma música que eu tinha feito. Pra mim, na época, foi a comprovação de que eu estava no ‘caminho certo’, porque era meu DJ favorito. Outro momento que talvez seja de menor importância mas não menos interessante, foi quando em 2012, meu dj set foi um dos mais tocados do deepbeep naquele ano, e eu era totalmente desconhecido. Nessa estatística de mais tocados, eu figurava entre o Marky e Gui Boratto.

O que exatamente te mantém inspirado e motivado para produção musical?
A motivação é bem simples, amo música e ela é minha vida, então sempre estou motivado. Quanto a inspiração, não tem nada muito específico, pois acredito que ela seja análoga a tristeza ou a felicidade, dificilmente ela vai estar o tempo todo com você e é impossível forçar essa condição, ao meu ver. Mas ela pode vir desde uma conversa, viagem ou passeio com minha namorada ou um dia divertido com minha filha, minha inspiração sempre vem no dia-a-dia, alguma viagem que eu fiz, coisas do cotidiano, às vezes assistir algum DJ que gosto, isso ajuda bastante também.

Você é um cara que ainda costuma comprar discos? Se sim, qual seu método preferido no momento?
Sim, mas não sou um fanático, hoje em dia só tenho toca-discos em casa, mas minha coleção é bem humilde. Não tenho exatamente um método, mas acredito que no vinil tendo a ir pra músicas que sei que vou ouvir em 10 anos e vou continuar gostando. Gosto muito de coisas instrumentais e trilhas sonoras (Vangelis é um vício constante).

Para finalizar: qual é a grande mensagem que você busca transmitir com sua música?
A música me salvou nos dois momentos mais difíceis da minha vida e eu acredito com todas as minhas forças que ela também pode ajudar outras pessoas. Quando particularmente entendi isso, fiz uma música chamada ‘Never give up’, acho que era um auto-lembrete. Coloquei como missão de vida tentar transmitir essa mensagem pra outras pessoas.