Abigail Adams: uma mulher da House. Em todos os melhores sentidos.

Por Georgia Kirilov

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Abigail Adams foi a mente por trás de uma das labels mais emblemáticas do House, a Movin’ Records, que começou em 1987 com o disco “Before the Storm” de Boyd Jarvis e acabou em 1994 após muitas mudanças na cena. Falar com Adams é precipitar-se em um momento mágico da história da dance music. Uma época definida pela comunidade LGBTQ - que se tornou legal após a série de protestos que ocorreram em 1969 devido à batida que a polícia fez em um bar conhecido por seus frequentadores gays chamado Stonewall - e também por diversos conflitos raciais nos Estados Unidos. Baladas como o Garage e Zanzibar foram essenciais para a integração de negros e gays no círculo social, além de desafiar o status quo da sociedade da época. O House foi criado por esses grupos marginalizados e floresceu com um espírito de liberdade propelido muito mais pelo amor, com um toque de extravagância, do que pela rebeldia anarco do Techno.

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A Movin’ Records lançou nomes como Kerri Chandler, Vicki Martin e LaChandra, mas engana-se quem pensa que Adams tinha um plano orquestrado. Muito pelo contrário. A evolução de uma loja de patins em Nova York para uma loja de discos em Nova Jersey e, eventualmente, um selo fonográfico ocorreu de forma orgânica. Adams é citada por Chandler como uma das melhores dançarinas da época e, após uma hora de conversa e quase uns 50 nomes de amigos citados, torna-se nítido que não era só na pista que ela brilhava. Essa combinação poderosa de extroversão, bom gosto e estar no lugar correto na hora certa, fizeram com que Adams levasse a Movin’ para lugares que nem ela mesma tivesse imaginado.

Neste momento, Adams está trabalhando em um documentário sobre esse momento na House Music e conversamos com ela sobre as peculiaridades da cena de Nova Jersey, suas visões sobre o panorama atual e as possíveis origens de tanta discrepância entre o passado e o presente.

Após assistir Paris is Burning, ler sobre os piers do Chelsea (local emblemático por extrema liberdade sexual homoafetiva, uso de drogas e muita arte), e considerar toda a transição desde de 69 com a legalização do relacionamento homoafetivo até a epidemia de AIDS nos anos 80, tenho a sensação de que a vitalidade presente na cena de NY/NJ naquela época simplesmente não existe mais. Você sente isso também? O que você acha da cena agora?Realmente não tem como comparar agora com aqueles tempos. Contudo, não posso dizer que estou presente na cena atual para, de fato, opinar sobre ela. Eu me mudei para Washington há 6 anos e, ocasionalmente, volto para NY para ir às 718 Sessions do Danny Krivit e à Body and Soul, mas não acho que essas sejam festas que componham a cena atual. Até porque DJs como François K, Joe Claussel e o Danny são daquela época especial que foram os oitenta. Você tem razão, era um tempo totalmente diferente em muitas maneiras. Existia um senso incrível de orgulho e liberdade que estava em erupção, principalmente nas comunidades marginalizadas - que são, é claro, as raízes da House. Após Stonewall, as leis estavam mudando, ser gay não era mais algo ilegal. Antes disso, as pessoas viviam no armário. De um lado, você tinha o fim da guerra do Vietnã e Woodstock, e em paralelo o house começou a sair do interior das cinzas da disco. Eu tinha uma loja de patins dentro do Roxy em NY e o Danny era DJ lá, foi ele que abriu meus olhos para essa música incrível que eventualmente me levou para a abertura da minha loja de discos no começo dos anos 80. Havia muitas baladas em NY, camarotes e table service não existiam (a maioria das baladas não tinha nem alvará para vender bebida). A grande maioria das pessoas encontrava sua comunidade na noite, na pista com a música enquanto eram levadas para uma jornada espiritual. Muitas baladas hoje em dia são comparadas ao Zanzibar e ao Garage, mas não se pode voltar no tempo… Até porque perdemos muitos dos nossos para a AIDS. Quando a epidemia chegou, não sabíamos o que estava acontecendo e muitas pessoas não queriam sair de casa.

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O Paradise Garage é uma das baladas mais emblemáticas da história da dance music. Eu liem algum lugar que o próprio Larry Levan te deu um cartão dourado para entrada direta no club. Isto procede? Conte-nos mais sobre isso.
Meu namorado e eu começamos a frequentar o Garage no início dos anos 80, eu tinha 23 aninhos. No começo era muito difícil para eu entrar, pois a visão do Mel Cheren e do Michael Brody - os criadores do clube - era criar um lugar onde todos os homens pudessem coexistir. Eles não estavam considerando mulheres necessariamente, mas então como podemos celebrar ser gay em todas as cores, tipos e formatos? Por causa do sound system, da música e da energia ali presente, muitas mulheres começaram a querer ir também. Então eles criaram as noites de sexta que eram conhecidas como as noites hétero, e era uma vibe totalmente diferente. Nos sábados era quando a magia realmente acontecia. Acabei conhecendo Larry por uma amiga e ele me ofereceu esse famigerado cartão dourado, o que significava que não importava meu gênero e nem que dia da semana eu decidisse ir: a entrada era garantida e sem fila. Eu até passei muito tempo na cabine do DJ!

Muitas pessoas descrevem o Zanzibar como um Garage menor, existia uma preocupação similar ali em criar um ambiente seguro para homens gays? Ou era mais aberto para mulheres?
Zanzibar não era conhecido como uma balada gay. O Garage era. E isso delimitava muito o público, afinal muitas pessoas decidiam não ir pois era uma balada gay. O Zanzibar não propunha muitas etiquetas além de ser uma balada incrível. O próprio Larry Levan tocava lá nas quartas feiras, isso sem falar de Larry Paterson, Hippie Torrales, e, é claro, Tony Humphries que foi quem realmente injetou personalidade naquele lugar.

Eu tive a sensação, ao ler sobre o Zanzibar, que se tratava de um ambiente sem firulas. Pessoas que realmente cruzavam a ponte até chegar em New Jersey ou já se encontravam lá para dançar e se encontrar com a música, não com pessoas. Por mais que a comparação com o Garage seja constante, até porque ambos tinham sistemas de som feitos pelo Richard Long, mas a impressão que tenho é que havia algo mais genuíno no Zanzibar, estou certa?
Ah, com toda a certeza! Não era nem um pouco pretensioso. Quer dizer… ainda tinha uma pessoa na porta que selecionava quem podia entrar. Essa pessoa era o Merlin Bobb, que acabou se tornando um executivo na Atlantic Records. A intenção não era escolher o tipo de pessoas, mas sim manter potenciais problemas fora daquela pista. Nova Jersey não era uma cidade segura àquela época e o Zanzibar estava localizado dentro de um abrigo para pessoas em situação de rua. Todos iam para dançar com roupas muito casuais e não era raro, em certo ponto da noite, reencontrar todo mundo com outras roupas, pois haviam suado demais e precisavam se trocar. Tudo era sobre o som, sobre dançar, sobre se perder na música.

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O Jersey Sound foi etiquetado como um sub-gênero do house na Inglaterra. Claro que ele se originou em NJ, mas a categoria em si foi nomeada por vocês ou pelos britânicos?
Os ingleses estavam categorizando tudo e o debate sobre como/onde/quando a House começou é profundo e intenso. Eu acho que a tecnologia da época permitiu que as todos criassem música facilmente, sem precisar estar em um estúdio, então começamos a ter muitos novos integrantes na cena. O Zanzibar começou a ficar muito popular nos anos 80, alguns de nós tinham gravadoras e estávamos criando nossas próprias histórias. Mas sempre parecia que éramos colocados no mesmo saco com o Garage. Então Shelton Hays, o gerente do Zanzibar, Tony Humphries e eu nos juntamos para criar uma festa chamada Jersey Sound no verão de 86, na qual colocamos todos nossos artistas e destacamos o som que era produzido aqui. Muitos talentos como Kevin Hedge, Josh Milan, Diva, Kenny Bobien e Ce Ce Rodgers saíram do culto, portanto sua música era mais soulful e com uma pegada gospel, além de existir uma preocupação maior com a criação de uma narrativa sonora. Antes que alguém nos categorizasse decidimos nos auto-etiquetar de Jersey Sound.

Hoje em dia nossa relação com a música é muito mais instantânea. Se gostamos de algo na balada basta clicar um botão no Shazam e descobrir qual a faixa. De certa forma com a evolução tecnológica as coisas se tornaram muito mais democráticas, porém também cada vez mais cíclicas. As vezes existe a sensação de se estar em um looping sonoro onde muitos produtores e DJs bebem da mesma fonte e tudo soa extremamente parecido, mesmo com todo esse acesso, ou talvez exatamente por causa dele… O que você acha?
Sim, com certeza. As coisas se tornaram tão brandas. Tenho certeza que existem diversos DJs e produtores atuais que são muito criativos, mas na minha época Shazam não existia e, mesmo se existisse, não serviria para nada, pois a grande maioria das tracks tocadas na pista não haviam sido lançadas por suas respectivas labels ainda. DJs como o Tony e o Larry eram realmente artistas que passavam dias pesquisando para criar uma história com a música. Nós costumávamos ir para a balada ver um único DJ tocar por 12 horas, você era trazido para cima, para baixo e virado do avesso. Em determinados momentos rolava até tempestade de chuva na balada para que todo mundo pudesse fumar um cigarro, ir ao banheiro ou pegar um drink. Se um DJ queria te expor à algo não era nem um pouco estranho ele/ela tocar a mesma track 10x, o Larry Levan as vezes levantava a agulha e voltava para o início da faixa sem nem mixar. Eu acho que hoje em dia em sets de 3, 4, ou 5 horas não existe mais uma conexão com a música, porque o ritmo é tão rápido que a ideia de deixar uma faixa desenvolver por completo é quase que absurda.

Como foi a transição de loja para selo?
Tudo ocorreu de maneira muito orgânica, nunca tive a intenção de transformer uma coisa na outra. Eu conhecia Boyd Jarvis muito bem e sabia que ele tinha centenas de tracks que precisavam de uma válvula de escape, por assim dizer. Então pensamos “bem, vamos lançar juntos”. Fizemos a arte e tinha uma fábrica de discos em Newark chamada Sun Plastics. Entreguei alguns discos para pessoas chave na cena, afinal era assim que você conseguia com que sua música fosse ouvida. Um lançamento levou ao outro, aí a Smack Production me trouxe o disco Park Ave de Tony Jenkins e depois Kevin Hedge, da Blaze, me trouxe o disco Phase 2, que é o que eu acho que realmente colocou a Movin’ no mapa - isso tudo ocorreu durante e invasão inglesa, pois tínhamos muita gente da Inglaterra indo ao Zanzibar para encontrar artistas e comprar os direitos para lançar suas faixas por lá. Eu conhecia muitas pessoas tanto produzindo música, quanto escrevendo sobre música e isso me ajudou muito. A loja também foi essencial no desenvolvimento da label, pois muitas pessoas passavam lá me entregar fitas cassete das suas produções e era assim que eu encontrava novos artistas.

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Estamos vendo uma ressurreição do vinil, você acha que lojas de discos podem voltar a ter a influência que tinham?
Eu não sei. É como as livrarias, eu acho que foram uma grande, grande perda. Eu estou trabalhando em um documentário no momento que fala sobre a comunidade, os clubes e as lojas de discos, e o imenso vazio que ficou para muitas pessoas. Existe gente que cruza comigo hoje em dia e me diz que minha loja os mantiveram fora da cadeia, fora do vício por crack, deu foco à eles, pois o verdadeiro vício era pela música. As pessoas costumavam ficar por lá por horas, esperando a próxima entrega de nova música. É como na livraria, você está ao lado de alguém que escolhe um livro e você pode já ter lido aquele então reage e rola uma troca espontânea. Eu acho que hoje em dia não existe mais tanto lucro nisso, pelo menos não nos Estados Unidos, não quando pessoas são tão instantâneas com uso do Beatport, iTunes, Pandora, Spotify… Não é mais sobre a experiência física. Para nós era sobre a arte na capa, o momento de abrir o plástico, puxar o disco e colocar a agulha.

Existiam outras mulheres na cena como Gladys Pizarro e Judy Russell. Me deixa muito feliz olhar para trás e ver que diversas mulheres contribuíram para esse momento incrível na história da música. Como era a dinâmica entre vocês? Vocês se conheciam, se ajudavam?
Nós éramos todas amigas. Judy Russell, que trabalhava na Vinyl Mania e era muito próxima de Larry Levan, acabou de mudando para NJ a meu convite para trabalhar comigo nos anos iniciais da Movin’. Logo após ela foi trabalhar com Frankie e Mendez na New Groove label, que era uma gravadora independente fantástica. Eu também lembro quando Gladys veio ao Zanzibar pela primeira vez, antes da Strictly Rhythm começar. Tinham poucas mulheres, ainda existem poucas mulheres. Acho que naquela época nós não nos víamos por essa lente, não tínhamos intenção alguma de representatividade ou luta conjunta, porém sempre fomos muito parceiras e nos ajudávamos quando podíamos.

Você lembrou há pouco que a House foi criado por minorias. Como você lidava (e ainda lida) com a constante contradição de se posicionar perante seu privilégio institucional como mulher branca? Essa preocupação era latente na época do mesmo modo como se põe (até certo ponto…) hoje?
Essa é uma pergunta muito interessante. Eu honestamente não pensava muito sobre isso. Fui introduzida à essa música ainda jovem e me fez sentir tão fantástica que realmente mergulhei nesse mundo. Lembro da primeira vez que entrei no Garage e eu estava vestida completamente errada com um macacão branco com listras rosas e salto alto preto. No minuto em que entrei no Crystal Room alguém que estava sentado virou e me disse: “quem você pensa que é? A Barbie?” Aquele foi um momento no qual percebi que era notada, que era diferente. Eu estava namorando um homem negro já fazia alguns anos e morava em Nova Jersey, então pessoas como a Queen Latifah, Naughty By Nature e Lauren Hill eram todos adolescentes do bairro e cresceram na minha loja. Eu exercia minha paixão, então quando pessoas novas entravam na loja e inicialmente ficavam confusas quando perguntavam algo para alguém e eram redirecionados para mim, eu só continuava fazendo meu trabalho de explorar música. Eventualmente isso me conquistou o respeito da comunidade. Minha loja ficava em um bairro um tanto quanto perigoso e eu nunca fui roubada nem senti medo, existia um verdadeiro apoio da comunidade. LL Cool J, Salt N Pepa, Mary J Blidge, todos estavam lá antes de se tornarem as lendas que são hoje. Naquela época LL Cool J se chamava Todd e me pedia para ligar para sua avó avisá-la que ele havia chegado em segurança na loja. Acho que hoje em dia precisamos ser muito mais cautelosos, pois estamos muito mais em alerta e cientes das injustiças do mundo, o que é bom. É realmente uma época totalmente diferente agora.