Apta, plena e ávida

por Chico Cornejo

 Divulgação/Facebook

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Apta é uma paulistana nata e isto oferece privilégios e desafios na mesma medida. Afinal, crescer e se tornar artista em meio à turbulenta e estimulante realidade urbana que São Paulo apresenta pode muito bem atrofiar aquele ímpeto exploratório tão essencial à criatividade artística, especialmente de um DJ, e acabar estancando as potencialidades de qualquer um. Em vez disso, ela usa amplamente a enxurrada de estímulos que cidade oferece para elaborar trajetórias musicais tão ricas em texturas como cativantes em enredo.

Já estabelecendo um merecido renome entre os eventos que alicerçam o underground da cidade, ela retorna à ODD já com a bagagem de apresentações memoráveis nos últimos meses entre os demais eventos do calendário e querida entre os frequentadores e curadores do coletivo. Tanto que ela assina o último episódio do ODDcast e inaugura a pista da primeira edição da festa no ano de 2018. Então, oportunidades não faltam para provar um pouco do que ela preparou aqui para nós e do que vai servir no sábado ao lado de Vermelho, Davis, Octo Octa e Zopelar.  

Eu sei que você gosta de cozinhar e, num papo que bati com o Laurent, comparei a arte de tocar com a gastronomia, já que ambas guardam muitas semelhanças. Você também as vê próximas?
Com certeza! Para cozinhar você precisa pensar para o que e quem você vai cozinhar, precisa pensar numa receita, escolher os ingredientes, cada alimento ali vai ter um tempo de preparo, você precisa respeitar esse tempo e saber combinar esses alimentos e claro, depois que o prato fica pronto, é muito gratificante ver as pessoas se deliciando com a sua comida. Para tocar é mais ou menos isso, pensar que festa é essa que vou tocar, escolher as músicas, cada música tem um tempo certo para virar, combinar essas músicas e o resultado são as pessoas na pista, ali, dançando. Sábio Laurent Garnier! 

Sei também que seu gosto é eclético e passeia por inúmeras paisagens musicais, trafegando numa variedade saudável de referências e influências como as desta coleção de faixas. Mas mesmo essa navegação ousada exige um norte, um eixo para que a narrativa se desenrole, como você encontra o seu?
Acho que esse norte é extremamente complexo. Uma das características dos meus sets é exatamente essa variedade de influências que vão desde o drum'n'bass até o techno, passando pelo acid, house, trance,  passando por músicas extremamente atmosféricas, outras praticamente sem melodia alguma, mas acho que o que me dá o norte é pensar que tipo de experiência eu quero contar dentro desse set. Eu gosto de pensar que o DJ conta histórias através da música. Quem faz isso majestosamente para mim é o Daniel Um,  os sets deles são extremamente nítidos nessa coisa de história, acho fabuloso. O cara que tá ali no palco tá te contando um lance. Então, o meu eixo é essa história que quero contar. Vai ter uma introdução assim, vai ter um ápice assim, vai ter um desfecho assim. Essas histórias que conto nos sets são reflexos do momento que estou vivendo, porque a música pra mim é isso, ela anda de mãos dadas com as experiências da vida. 

E qual seu porto de partida? Como foi que começou a aventura da Sofia na música e, consequentemente, da Apta?
A música sempre fez parte da minha vida. Minha mãe é minha grande influência, ela que me mostrou Steve Reich e Underworld, Fleetwood Mac e Kruder & Dorfmeister, Laurent Garnier e New Order. Ela é a culpada por tanta mistureba nos meus sets hahaha.
Mas foi na adolescência que me integrei de fato em uma cena musical. Eu ia muito em shows de hardcore e punk, a atmosfera dos shows me comovia, aquele monte de gente suada, cantando junto as músicas, pogando, achava um máximo e hoje consigo ver claramente a similaridade dessa sensação que tinha com a pista de dança. 
Minha aventura na música eletrônica começou porque eu comecei a fazer uma série de mixtapes com coisas que ouvia na semana, um belo dia resolvi mandar uma delas pro Thomash Haferlach (Vooodoohop) e um dia depois ele me convidou para tocar em uma Voodoohop. Eu nunca na vida tinha pensando em tocar numa festa, mas na época eu namorava um cara que era DJ e ele com muito carinho e paciência me ensinou. A primeira festa que toquei foi uma Voodoohop, na época o lugar era um puteiro onde é hoje o Zig Club. A Apta surgiu três anos depois, quando fui criando mais consistência nos meus sets, quem "me deu" esse nome foi o Akin, e consequentemente ela surgiu num momento horrível da minha vida. Gosto de pensar que a Apta é uma entidade que me ajudou a descobrir minha força e quem eu sou. A música e o transe coletivo da pista tem disso né? Curar feridas. 

E você disse que demorou para compor esta lista pois sempre lembrava de incluir mais uma música. Este dilema é parte das nossas vidas atualmente, não? Como você lida na hora de tocar com uma infinidade de possibilidades tão grande que paralisa até o mais experiente seletor?
É a pista que me dá limites. Como disse ali em cima, meu set é uma narrativa que vai se alterando conforme o que a pista me trás de volta. Não adianta nada eu contar uma história e sentir que a pista não está se identificando com ela, a gente precisa dançar conforme a música né? Então eu vou escolhendo elementos diferentes para compor essa narrativa a partir do feeling da pista, é isso que vai me dando um norte para eu não me perder no mar das possibilidades.

E, contando esta aprsentação na ODD, o que se encontra no seu horizonte próximo?
Nem ideia! Nunca criei muita expectativa nessa coisa de tocar, é sempre tudo muito fluido até porque não sou DJ em tempo integral, mas esse ano eu coloquei uma meta que é aprender a tocar na CDJ e claro, continuar minha pesquisa infinita de músicas...