Carlos Valdes: resistência pela consistência

Por Francisco Cornejo

Uma divertida e profícua personagem da populosa cena de sua cidade natal, Carlos Valdes é um daqueles talentos cuja popularidade é estranhamente desproporcional a sua centralidade na construção da reputação de que Amsterdam goza como um bastião de qualidade musical e diversão noturna. Exibindo uma atuação que recobre praticamente tudo que se pode fazer nesse amplo universo criativo, ele se destacou como um dos mais animados agitadores culturais a dedicar seus esforços à preservação daquele vínculo seminal entre música eletrônica dançante e a comunidade LGBTQ+.

Aqui ele discorre longamente sobre sua vida, sua terra, suas vontade e feitos que agora culminam em seu retorno ao Brasil para tocar na próxima ODD, onde ele brilha ao lado de um time parrudo de convidados que conta Tolouse Low Trax, Elena Colombi, Dreams, além dos estelares residentes.

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Bom, já que a música é uma das formas mais sinceras e universais de expressão humana, ela demanda um comprometimento verdadeiro de qualquer um que dedique uma carreira ou vida a ela. Para você particularmente como ela se tornou parte da sua?
Música fez parte da minha vida desde os momentos que consigo recordar de minha infância.  Eu me lembro claramente das músicas tocando no rádio. Meus acharam que seria bom para meu desenvolvimento infantil que aprendesse algum instrumento, então me perguntaram qual eu preferia, ao que respondi "piano!" sem pestanejar. Além disso, também queria cantar e assim tive aulas de canto. Creio que isso foi ao redor dos quatro anos e, aos oito, fiz uma audição para um coral infantil nacional e passei, o que me fez permanecer bastante  ativo neste campo até o ensino médio.

Após isso eu continuei cantando em diferentes corais mas infelizmente não persegui nenhuma carreira nisso ou pode-se mesmo dizer que nunca mais cantei a partir desse momento. Nessa época eu comprava muito R&B e Hip Hop para tocar em festas de aniversário, sem nem saber que seguiria fazendo isso num estágio muito posterior de minha vida. A primeira vez que comprei discos de música eletrônica foi aos dezesseis anos, em 1999.

Muitos coletivos holandeses já vieram ao Brasil, do Trouw passando pela Rush Hour até o Dekmantel ou mesmo os seminais Eevo Lute e DJax décadas atrás, agora temos LET e …Is Burning chegando com você. Poderia Esmiuçar um mais melhor os conceitos e trajetórias por trás desses seus projetos?
LET vem de Les Enfants Terribles, uma festa criada por Jp Enfant. Seu management me pediu para unir-me a eles e me convidou para tocar num de seus primeiros eventos. Isto foi exatamente quando minha carreira não estava indo tão bem. Eu mal tocava em Amsterdam, poucas vezes na vizinhança e algumas outras em Berlim. Foi um descenso agudo que se seguiu a uma época de bonança que se estendeu do começo dos 2000 até a crise chegar. Foi por volta de 2010 que me convidaram para me juntar a eles como residente e artista representado.

A LET teve um papel muito importante para mim como DJ assim como no âmbito pessoal. Comecei a acreditar em mim novamente e a me sentir estimado, já que a LET provia um espaço para artistas de House e Techno como eu para desenvolverem seus talentos num dos lugares mais legais que se podia conceber, o Trouw. Eles me deram a oportunidade de tocar com amigos, respeitaram minha opinião e me deram feedback constantemente. Daí comecei a tocar com mais frequência fora de Amsterdam e na Holanda como um todo.

Sandrien é uma de minhas melhores amigas e neste ano faz 20 anos que nos conhecemos. Somos ambos queer e naquele tempo em que lançamos a ...Is Burning não havia muita coisa rolando para o público LGBTQ que quisesse ouvir boa música sem estarem cercados de pessoas cisgênero ou serem soterrados por sonoridades do Top 40. Ela me convidou para criarmos uma festa gay com ela, sendo uma das residentes do TrouwAmsterdam. Começamos a trabalhar juntos num conceito para esse evento LGBTQ e pesquisar sobre essa cultura, o que nos levou a assistir muitos documentários, entre eles um recomendando por um amigo: "Paris Is Burning". Isso me inspirou a usar o termo ... Is Burning para nosso projeto porque você consegue usá-lo de tantas maneiras e faz referência a um filme sobre uma época em que nossos irmãos e irmãs se reuniam para serem livres, num espaço que não existia fora da Disco/Ballroom. Isso era algo lindo para nós e assim escolhemos o nome.

A festa começou no último ano de existência do Trouw e agora, cinco anos depois, tem sido uma senhora jornada fazê-la. E olha que fiz muitas festas em meados dos 2000, mais de 400 em toda minha vida, mas esta é minha favorita, pois tem um significado e um objetivo. Ela surgiu num momento em que havia uma enorme carência de eventos desse tipo em Amsterdam, uma cidade que deveria ser uma capital gay e que acabou por perder esta comunidade logo após os noventa, com o fechamento dos lendários RoXy e It Club. Isto marcou uma queda na gay club culture local e que coincidiu com o início de uma comercialização predatória da música eletrônica.

Eu nunca curti essa vibe de açougue que por vezes caracteriza a cena gay e para mim o foco sempre foi a música. O fato de que haja ou não gays no recinto é secundária, ainda que muito importante. Ainda bem que agora há muito mais eventos para nós em que a música seja boa. E com a ajuda de iniciativas como o Milkshake Festival Amsterdam, a cidade retornou ao mapa de uma cena internacional na qual muitas festas apareceram e tantas outras ressurgiram gloriosamente.

O Studio Soulrock é uma empreitada sua relativamente mais conhecida e que lançou muitas iguarias musicais em sua primeira década de funcionamento. Foi demais manter o selo funcionando tão bem e cuidando para que tivesse a mesma consistência que o levou a colocá-lo em dormência. Há planos para que volte a funcionar eventualmente?
Eu costumava tocar uma agência com muitos artistas, entre eles Steffi, Baaz, Dimi Angelis, Esther Duyn, Boris Werner, ItaloJohnson, Robin Kampschoer, Dekmantel Soundystem antes mesmo de se tornarem o Dekmantel Soundsystem e criei o selo como uma plataforma para o talento que representávamos. Soulrock era meu nome pronunciado ao contrário foneticamente (se você forçar sua imaginação). Pensando nele agora, não curto mais tanto, mas lancei o nome em 2000 quando fundei minha empresa como promoter, antes mesmo de começar a tocar. Eu entregava flyers em clubs, lojas e bares para divulgar eventos e naqueles tempos o nome me agradava. Aí pensei: por que não dá-lo também ao selo?

Lançamos predominantemente material dos artistas que nem estavam em nosso roster ou sequer eram conhecidos então. Talvez estivéssemos um pouquinho adiante da época com faixas de gente como Genius of Time, Axel Boman e San Proper quando ainda não tinham lançado seus trabalhos mais famosos. Steffi até fez seu primeiro remix para nosso selo, que era muito mais um esforço coletivo de amigos no qual todos contribuíam para mantê-lo musicalmente ativo.

Minha vida então virou do avesso, fechamos a agência e não vi mais motivo para continuar lançando música que não representasse o talento que tínhamos nela. Foi um período criativo que quis encerrar e agora o enxergo como uma escola em que aprendi muito, com a única diferença que não retirei informação alguma de um livro. Apenas segui meu coração e minha intuição, fazendo tudo que pude dentro indústria musical para finalmente perceber que, depois de todos esse anos, queria de fato devotar meu tempo à música e ao DJing mais que qualquer outra coisa no mundo.

Agora passados quase dez anos de nosso último lançamento, tocando em lugares fantásticos pelo mundo afora e fazendo minha festa favorita, a … Is Burning, sinto que poderia criar outro selo. Lentamente estou buscando material de artistas próximos a nossa festa, então pode ser que algo novo apareça muito em breve.

Algo que sempre me fascinou foi a capacidade única dos Países Baixos de oferecerem uma vasta diversidade musical que recobre campos tão diversos que recobrem Rush Hour e Armada, Gabba e Disco, Tiesto e San Proper… qual o segredo por trás desse colorido cenário na sua opinião, além de uma cultura musical bastante entranhada?
Acredito que tudo isso tenha muito a ver com o cadinho cultural histórico que se formou em Amsterdam devido à localização ideal que ocupa no mapa mundial, o que fomentou um certo multiculturalismo e ensejou maior diversidade social. Pelo fato de nossa cidade ser tradicionalmente um porto comercial, imagino que seja conhecida por fazer e tornar produtos acessíveis a todos. As rotas de exportação e distribuição sempre estiveram presentes, desde o início, o mesmo vale para o comércio de vinil e qualquer outro formato musical, até os digitais. A Holanda também é um dos primeiros países a profissionalizar a indústria da Dance Music, então é uma questão de sempre ter talentos em ascensão, a capacidade de exibi-los para o mundo de modos muito mais eficazes que num país em que essa cultura musical não seja tão popular.

Não posso afirmar que estes sejam os fatores definitivos, mas posso dizer que essas podem ser as razões em suma. É uma pergunta fascinante e não sei se sou a melhor pessoa para responder….

E quanto à diversidade num sentido mais amplo? Sinto um pouco por minhas experiências de pista em Amsterdam terem se dado durante o ADE até aqui e sei que a cidade é transformada completamente por sua força gravitacional e pelo influxo maciço de pessoas que ali chegam para o evento, mas ela sempre me pareceu inclusiva ou ao menos equilibradamente setorizada em termos étnicos e sexuais. Minha amostra é muito enviesada ou essa paisagem se mantém durante o resto do ano?
Olha, eu não sei até que ponto o ADE pode ser considerado um bom exemplo da vida noturna de Amsterdam ou mesmo holandesa. Eu diria que é uma melhor representação do que está rolando globalmente e não é fácil de comparar a nenhuma outra coisa, ao menos que eu conheça. A cidade oferece uma vida noturna vibrante e tudo vem e vai em ondas no que se refere à música e à inclusão. Para obter uma perspectiva mais matizada a respeito disso eu teria de perguntar para mais gente, já que minha visão acerca dela muda o tempo todo.

Quando descobri a noite da cidade, era uma criança que apenas observava os mais velhos, fossem eles negros ou brancos, gays ou não. Isso foi nos anos dourados quando havia menos regulamentos e restrições, o mesmo período em que a indústria da Dance Music chegava a seu ápice e no qual tudo se profissionalizou. A quantidade de novas agências, promoters e festivais cresceu de forma assustadora e, assim, nosso país se tornou aquele que mais abriga esse tipo de evento no mundo, mesmo sendo tão pequeno. Eu arriscaria dizer que os holandeses inventaram a profissionalização da Dance Music, mas meu conhecimento não me permite afirmar isso com toda certeza, pois não viajava tanto naquela época.

Retornando a sua pergunta, quando esse pico começou também se dava uma mudança de gerações. Eu era parte da seguinte e as pessoas que começaram a sair no início dos oitenta estavam ficando velhas e não tão ativas quanto antes e acho que as raves ilegais cobraram um preço alto delas.

Tivemos muitas cenas distintas nos anos posteriores, mas acredito que tudo agora se funde. Quando fui a uma festa pela primeira vez fiquei tão impressionado com a gentileza e a união que senti na pista que sequer pensei nessas categorias porque estava muito ocupado apreciando a música e dançando. Talvez quando eu notei que me interessava mais por meninos tenha me tornado mais consciente dessas distinções. Acho que o cenário de Amsterdam muda constantemente e que nos encontramos num lugar muito bom neste momento com muitas mudanças para melhor.

Basta de falar de origens, falemos de seu destino. Qual sua relação com nossa música, se houve alguma até hoje? Ela teve um papel crucial na sua formação como artista ou aficionado?
Meus pais são chilenos, então sempre tive contato com muitos latino-americanos durante minha vida e escutei muito dessa musicalidade regional através deles. Confesso que não curtia tanto, mas lembro que um dos amigos mais próximos de minha mãe era do Brasil e estava sempre em casa, daí tive uma ótima impressão da vibração de vocês, muito hospitaleiros, amigáveis e afáveis. Houve um tempo no começo dos 2000 em que o Baile Funk se tornou muito popular em Amsterdam e, mesmo que eu nunca tenha tocado, é algo que sem dúvida me interessa e que sei que teria amigos brasileiros dispostos a ajudar a me aprofundar mais.  Há pouco descobri esta coletânea lançada por um selo holandês que eu amo:

Agora retornando à sua pergunta, acredito que todas as experiências de vida te moldam como ser humano. Mesmo que não vá me ouvir tocando Baile Funk tão cedo, se me mostrar um produtor brasileiro muito bom ou uma faixa que me faça dançar e é isso que conta, certo? Quem sabe eu não vá fazer música com meu novo namorado brasileiro ou crie uma parceria com uma banda ou vocalista do Brasil? Espero encontrar um monte de gente que me apresente sua riqueza musical, pois conheço muito pouco.

E quanto a nossas pistas? Creio que nossa reputação festeira ainda se sustente por aí. Ela lhe ajudou a criar algumas expectativas sobre sua visita?
Tive a sorte de conhecer muitos brasileiros e amo a energia que compartilham com outros países latino-americanos, seja pela alegria ou pelo simples amor pela música. Eu toquei no D-Edge há uns dez anos a convite de Oscar Bueno e Jollan na festa Paradise e também no Dama de Ferro do Rio quando ainda existia, além de ter tocado na Amazônia, que foi uma experiência um tanto bizarra e completamente diversa das outras cidades. Para ser sincero, São Paulo roubou meu coração naquela ocasião e estou muito feliz de poder voltar tocando na ODD. Ouvi só histórias fabulosas até hoje!