Cobertura Dekmantel SP 2018

por Henrique Paiva

 Dekmantel Divulgação/Facebook

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Aqueles com os ouvidos abertos, dançando com os olhos fechados, ainda com fome de música, sem medo de suar ou desacelerar se deleitaram com mais uma edição do incrível Dekmantel Festival que ocorreu final de semana passado. Fruto de um movimento hedonista e fascinante, que reivindica a igualdade de todos na festa, a sedução e o prazer pela dança, foi  uma aula de música, inclusão e curadoria e confirma o que já se tornou o melhor, festival de música eletrônica do Brasil. Hoje, o Techno (Muitas vezes substituído pelo termo genérico de música eletrônica) aboliu as fronteiras entre os gêneros para embarcar em  experiências sonoras inusitadas. Incursões ao rock, ao pop, o rap, o jazz ou até mesmo às músicas populares tradicionais e foi seguindo esse conceito que o line up, vasto de artistas ousados e pioneiros,  abrangeu um leque enorme de gostos musicais.

O local escolhido facilitou a ida e o trajeto até o After, rolou desconto pra quem usava Cabify, bastava inserir o código promocional do evento e mesmo assim, dava pra ir a pé da estação Barra Funda do metrô até o antigo parque e houve até distribuição de capas de chuva durante o evento pra quem precisasse enfrentar a chuva. A estrutura foi bem planejada e a disposição das pistas (as quatro se encontravam na parte central do parque e o som delas era bem isolado) proporcionava fluidez e harmonia na circulação. Não havia aglomeração, cada uma das pistas tinha uma decoração especial e o equipamento de som e a iluminação delas foi de ponta, sendo a minha  a UFO. Nenhuma delas estava abarrotada e estavam bem climatizadas e equipadas com som claro e limpo. Haviam cinco bares, todos próximos as pistas e perto dos lugares de descanso, e não havia fila em nenhum, bem como para a retirada dos ingressos, sendo merecedor de destaque o bar dos belgas da Hoegaarden. Os banheiros foram dispostos de maneira ideal e contavam com torneira, álcool gel, toalha e pouca fila. A VOID store também foi muito procurada nos dois dias de festival. Super descolada, parecia uma extensão da loja localizada no Largo da Batata e esgotou seu estoque de roupas da Gop e do DKMNTL que foram os itens mais procurados. A equipe era atenciosa e simpática, atendendo com paciência e objetividade com exceção dos seguranças que foram grosseiros.

 Dekmantel Divulgação/Facebook

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Aqui vai uma breve descrição das pistas e da atmosfera que rolou por lá:

Main – O jogo de luzes refletido nos painéis de acrílico do espaço remetia a pista principal a do ano passado, em que haviam telões de LED. O espaço coberto e bem conectado às outras pistas impressionava quem chegava por lá, o acesso se dava pelos dois lados e parte de traz, facilitando o trânsito dos clubbers e permitindo que se dançasse com mais liberdade. Inúmeras apresentações foram memoráveis e fugiram do padrão de Techno apresentado em outros eventos nacionais, vale dizer aqui momentos que ensandeceram a pista e se tornaram memoráveis. Peggy Gou mostrou como se faz e com uma música deixou muito set no chinelo ao retornar às origens e tocar o remix criado pelo italiano Giorgio Moroder (ganhador de Oscar de Melhor Trilha Sonora Original com o filme Expresso da Meia-Noite) de I Feel Love da Donna Summer. Os berlirners do Modeselektor  fecharam a noite muito alto astral e simpático ao interagir com o público, chamou a responsa e tocou muito hits clássicos conhecidos pelos amantes do Techno e autorias próprias como Black Block, Four Tet foi além, apesar dos problemas elétricos causados devido à chuva, e fez com que enxergássemos a proposta da música eletrônica com outros olhos ao remixar a música pop da artista Selena Gomez. E de dia Nina Kraviz deu um show de dança, sob o luar e os jogos de luz coloridíssimos, mas foi no After que ela acabou com tudo onde tocou ao lado de Marcel Dettman e Kobosil.

UFO – A pista era uma estrutura semelhante ao main mas em proporções bem reduzidas. Também coberta e bem livre, apesar da quantidade enorme de gente, foi uma das mais hipnóticas, e onde ouvimos a maior parte de experimentações e techno industrial. Diferente da UFO do ano passado, a menor das quatro pistas, que era um quartinho escondido sem proteção contra o sol inclemente, pra se derreter mermo! Esse ano ela sofreu um upgrade e foi dedicado um espaço mais recluso e quase independente do parque, contando com enfermaria, bar e banheiros. A decoração foi super criativa e se baseava num simples jogo de luz e ventiladores e que rendeu um charme incrível e cinemático. Quem gostou bastante dela foi o Anthony Parasole que, enquanto soltava um som mais grave, agressivo e com poucos elementos, dançava e até arriscou um b2b no comecinho do set com Danny Daze, para o agrado da galera.

Gop Tun – Iluminar as estruturas de concreto ao lado da pista e suspender tecidos que lembravam edições passadas do dekmantel Holanda foi uma jogada de mestre que conferiu a pista destaque entre todas as outras. Nela pudemos ver o lema In Gop we Tun sendo levado a sério, a experiência sonora foi bem abrangente nos conduzindo do rock, blues, jazz, soul, eletrofunk e músicas populares ao hip hop, break, drum n’ bass e house. A pista enlouqueceu com Os Mulheres Negras dominando tudo com sua extravagância e presença de palco únicas, Marcos Valle dando uma aula de MPB tocando Garota de Ipanema, Azymuth & DJ Nuts pegando fogo no jazz, com londrino John Gómez que retornou depois do Red Bull Music Festival para detonar e fez muita gente sorrir e bailar como era esperado. Uma das melhores apresentações foi do jovem Palms Trax que começou seu set à luz da lua e com uma baita sequência franco-africana “houseadas” que confirmou o que seria um encerramento memorável como ela já havia cravado na edição passada, em que a galera “invadiu” a cabine para curtir sua seleção, também ao luar.

Selectors – Palco em harmonia com a natureza, era possível ver lâmpadas avermelhadas suspensas, colocadas entre as folhas das árvores, que criavam uma atmosfera elegante, se dançava em meio a ramos de árvores que ficavam dependurados. Próximo à um ambiente intimista que o bar criava, era possível curtir a performance enquanto tomava uma cerveja e descansava. O ambiente também devia seu charme ao caminho que ligava ele ao Main Stage, de onde rolavam várias fotos ótimas. No domingo o boss da Rush Hour, Antal, encerrou colocando a pista a baixo com seu disco criativo e seleto. O som fazia lembrar ao de outro dj que esteve presente na primeira edição no Brasil, o Hunee. Eram selecionadas preciosidades do mundo inteiro dificílimas de achar e até sobrou espaço para remixar “Olha a Pipa” do Jorge Ben, que colocou todo mundo em ritmo de carnaval e comemoração.

A Na Manteiga Rádio criou um dos espaços mais gostosos e agradáveis do festival. A rádio estava coberta de plantas e entre árvores que cresciam ao redor, próxima a uma área repleta de cadeiras e local de para dar um tempo e respirar um ar. Lá se ouviu de tudo, tudo muito suave e melódico, teve muito som instrumental rolando numa levada bem cadenciada e regada de jazz e ritmos tropicais e fez de lá o ponto de encontro perfeito pra quem queria pegar uma Hoegaarden, descansar e ouvir algo mais leve e menos agitado.

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