Ed Davenport: contra a corrente e ao sabor do vento

Por Chico Cornejo

 Ed Davenport (Divulgação)

Ed Davenport (Divulgação)

Espirituoso e extremamente expressivo, Ed Davenport parece ter conseguido amalgamar o melhor dos mundos germânico e britânico e articular um idioma muito peculiar no qual o humor e a franqueza, o torque e a leveza, a eficiência e a clareza se coadunam harmonicamente. E aqui falamos tanto de linguagem verbal quanto musical, ambas nas quais ele é extremamente versátil e amplamente versado, uma qualidade singular mesmo para tantos outros que, como ele, trocaram as brumas do Tâmisa pelos ventos do Spree.

Além disso, seu selo Counterchange tem, como o próprio nome enseja, oferecido alternativas bastante originais de sonoridade dentro do cânone do Techno e da House Music nos últimos tempos. E também sua parceria com uma das figuras centrais do Techno dos últimos vinte anos, o conterrâneo Function, no comando da Infrastructure serve como um aval dos mais sólidos da qualidade de seu trabalho e profundidade se sua devoção.

Às vésperas de sua apresentação na debutante festa Heimatlos ao lado de outra berlinense típica, a eclética e acidamente divertida Paramida, Ed divide conosco suas perspectivas acerca do passado de seu percurso, do presente de sua cidade natal e do futuro de sua música num intercâmbio descontraído de ideias, lembranças e conselhos. 

 Ed Davenport (Divulgação)

Ed Davenport (Divulgação)

Considerando que impressões e expectativas  podem ser traiçoeiras ou mesmo enganosas, quais são as suas com relação ao Brasil até aqui? A nossa música chegou a fazer parte de seu aprendizado ou de seus interesses sônicos correntes?
Só estive no Brasil uma vez, fui a São Paulo para tocar no D-Edge. Eu amei a experiência e o público, mas minha estadia foi muito curta. Claro que sou um fã dos ritmos e da percussão do Samba (a mãe polirrítmica do Techno) e gosto um pouco de Bossa Nova, ainda que não seja um perito. Mas minha mãe chegou a tocar numa banda de Samba no Reino Unido!

Ser um expatriado britânico na Alemanha hoje em dia parece algo frequente ou mesmo trivial, mas como alguém que já está lá há uma década, como você testemunhou todas as mudanças sofridas pela cidade?
As transformações são rápidas e constantes. Moro em Berlim por dez anos já e ela realmente está crescendo. Dito isto, algumas instituições ainda permanecem e ainda é uma cidade calma e acessível para se viver. A maior mudança que notei em anos recentes é que tudo está lotado hoje em dia. De fato não era assim quando vim para cá em 2008.

Dificilmente você pode ser considerado um novato a estas alturas e sua discografia exibe uma diversidade impressionante de selos que cobrem uma vasta gama de gêneros. Como definiria sua abordagem acerca de seu próprio fazer musical, no passado e agora? Creio que rótulos, mesmo sendo um (mau) hábito profundamente entranhado na imprensa musical (principalmente britânica), raramente foram uma preocupação para você, correto?
Eu recebo bem qualquer discussão a respeito de gêneros sobre minha música, mas para mim o que mais importa é que ela tenha alma possa ser atemporal. Também acho que seja muito interessante trafegar ao redor da linha que se encontra entre audiências, pistas e cenas distintas. De outra forma seria muito chato e fácil! Necessito de desafios novos constantemente, enquanto procuro permanecer leal aos meus (será que ouso dizer característicos?) ideais sonoros.

Falando de transformações e itinerários, como seu set up foi evoluindo no decorrer desses anos? A curva em termos aprimoramento dos recursos foi acentuada na última década, mas como isto afetou a forma como você faz e apresenta sua música?
No decurso de mais de 17 anos dedicados a gravar música, fui de apenas um PC lerdo com softwares em versão demo a um estúdio plenamente funciona com vários sintetizadores analógicos e outros itens divertidos. Embora a vibração e o sentimento sejam os mesmos… Me perder numa faixa até que ela me pareça pronta, tocá-la para amigos ou em clubs, decidir se ainda gosto dela… Daí, se rolar, lançar e me dedicar a algo totalmente novo!

A “onda” atual que circunda o Techno em muitos aspectos se assemelha àquela que acabou carregando o “Deep House” como uma tempestade há alguns anos. Como você sente essas vagas de gosto e hype como um artistas, especialmente um que exibe uma trajetória tão eclética e longeva?
A estas alturas eu não me interesso por tendências. Em meu caso, o que posso dizer é que amo música e amo o que faço. Sempre tenho esse desejo de fazer e gravar algo musical. Não tenho certeza se será música para clubs para sempre ou mesmo se será eletrônica, mas apenas posso almejar estar fazendo isso até minha quando me for.

Se fosse possível, há algo que o Ed Davenport de hoje diria para seu eu mais jovem? E quanto às gerações futuras, algumas palavras de sabedoria ou simples conselho que lhe pareçam adequados aqui e agora?
Eu diria minha versão mais jovem: “Acorde mais cedo - dormir até tarde é para otários!”. Para a nova geração eu falaria para tentar dar passo diários em direção a seus sonhos e objetivos. Mesmo os menores contam. Façam listas, escrevam suas ideias, se mantenham ocupados! Ah, e nas palavras do meu tio favorito: mantenha sempre o sorriso! :)