Entre o som, as sensações e a solidão

por Francisco Cornejo

Dificilmente alguma escola filosófica abordou de maneira mais pungente e profunda a tragédia de nossa existência do que o (pasmem!) Existencialismo. Munido dos recursos analíticos da fenomenologia e de uma perspectiva bastante fatalista, uma tradição romântica genuinamente franco-germânica, seu intuito era desvelar os mecanismos interiores de nosso ser-no-mundo, essa aventura que tantas vezes é repleta de infortúnios e agruras, mas que mesmo quando é recheada de benesses e felicidade, pode ser extrema e desoladoramente solitária.

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Essa temática inspirou tantas músicas, e até mesmo subculturas, todas se nutrindo dos sentimentos comuns a essa condição, que seria um exercício fútil tentar relembrar das mais belas ou tristonhas. Mas e quando nem esse nosso mundo dançante aparentemente forrado de deleite e alegrias, pautado pela comunalidade e guiado pelo hedonismo, consegue nos manter distantes dessas emoções que nos consomem e podem acabar em situações letais?

Afinal, o escapismo é uma das fundações da club culture e a função dele é justamente nos dar alguma alívio das formas dolorosas com as quais lidamos com o mundo exterior e ele lida conosco. E, não surpreendentemente, são justamente aqueles que mais sofrem por conta das injustiças que perpassam nossas interações e instituições: negros, mulheres e pessoas cuja identidade desafia as convenções e opressões da sociedade, que criam algumas das coisas mais belas e inesquecíveis que nos agraciaram lírica, melódica ou ritmicamente.

É do sofrimento que tiramos muito do que somos de melhor, mas não precisamos viver nele ou para ele, ainda que para muitos de nós não haja muita escapatória ou alívio. Ele também pode ser uma parte de nós, mas não o todo, ou deixamos de enxergar aquele componente mais essencial de qualquer existência: sentido. Propósito é outra coisa, posterior, instrumental e não substancial ou fundamental, como diriam os humanistas alemães grosso modo.

Entretanto, a conjunção desses elementos, tanto internos como externos, que unem a tristeza ao sofrimento e ligam tudo à solidão, acaba por formar um combo pesado para qualquer um, até o mais radiante amante da vida e de todas os motivos que ela provê para que nos apeguemos a ela. E aqui vemos que é apenas uma questão de confluência para que tudo que temos de mais caro, para nós e para quem amamos, torne-se supérfluo.

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A última terça-feira marcou um dia dedicado à conscientização acerca do suicídio e setembro foi “colorizado” para tornar-se o mês no qual a saúde mental será colocada como pauta principal na esfera pública movimentada pela imprensa e pela publicidade. Mas é óbvio que o problema em questão ultrapassa qualquer campanha ou efeméride, pois ele é parte intrínseca às nossas vidas e deve ser tratado com a constância e seriedade devidas.

Aqueles três elementos são constitutivos da vida de todos, mas eles adquirem uma profundidade ainda maior para aqueles que trabalham na vida noturna ou que têm nela sua quase única fonte de oportunidades de socialização, o que os torna sensivelmente vulneráveis aos efeitos nefastos que eles podem carregar.

Esse é o principal motivo pelo qual vamos falar com vocês todos: na cabine, na pista, no bar, no banheiro ou em qualquer outro lugar no qual pode haver uma multidão, mas pode ser tão solitário quanto seu quarto, pode ser cheio de euforia, mas tão triste quanto sua vida cotidiana, ou mesmo formado pelas mais intensas sensações, mas tão forrado de sofrimento como o mundo lá fora.

Se na segunda a serotonina sequer existe e na terça a relação com a realidade ainda se arrasta dolorosamente, a quarta-feira está naquele meridiano esquisito e a quinta-feira prenuncia as desventuras do final da semana que podem ou não ser de prazer, a sexta está tão prenhe de possibilidades quanto de experiência para o futuro e, por isso mesmo, será o momento em que podemos olhar para o horizonte e vislumbrar o que nos espera, onde podemos aprender a amar a tristeza para entendê-la, gozar a solidão para usufruí-la e aceitar o sofrimento para poder superá-lo.

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Notar tudo isso já será muito, especialmente num mundo que parece sem esperança ou num momento que parece não ter saída. Na real, não importa para onde vamos, contanto que sigamos juntos.