Entrevista com Pyetra Salles, fotógrafa da cena alternativa de POA

Vivemos na geração da insônia e da ansiedade, em que redes sociais dominam nossas vidas, experiências são imediatas e o desejo de capturar momentos é mais urgente do que o de viver eles.

Pyetra Salles, fotógrafa documental da cena alternativa underground de Porto Alegre, vive essa realidade, registrando tudo, ajudando até quem não lembra de nada.

Você começou a fotografar cedo, com 14 anos, e já sabia que era a profissão que queria seguir. Os teus pais te apoiaram nessa escolha?
Meus pais me apoiam muito, mas consideravam a fotografia um hobbie. Quando notaram que eu queria levar a arte como principal foco da minha vida, não se sentiram muito confortáveis, por saberem que é uma área super pouco valorizada e muito difícil de se destacar. O problema foi quando comecei a fotografar a cena noturna. Eles não suportam essa idéia.

Quão importante foi o apoio, e quanto essa falta de apoio, que é mais recente, te afeta?
Eles me ajudaram muito em termos financeiros, principalmente, já que equipamento fotográfico, curso etc são caros. Mas confesso que me chateia ver eles enxergando a “vida noturna” tão estereotipada como algo “promíscuo”, mesmo assim “sigo o baile” fazendo o que gosto.

Em que momento você enxergou a fotografia como algo que te interessava?
Meu pai é surfista e eu ia com ele assistir ele surfar. Em praias com boas ondas sempre tem fotógrafos com super câmeras, fotografando os surfistas. Um dia cheguei pra ver as fotos de um desses fotógrafos e achei incrível que a imagem feita por ele era muito mais bonita do que eu enxergava na “vida real” talvez por ele saber capturar o momento certo, que passa despercebido pelo espectadores da cena. Eu tinha uns 12 anos. A partir daí fui notando outros momentos que se tornariam mais interessantes se estivessem enquadrados e/ou estáticos.

Quais foram seus primeiros trabalhos fotografando? Em que momento você começou a fotografar a vida noturna de Porto Alegre? Já era uma área que te chamava atenção?
Meus primeiros trabalhos como fotógrafa foram formaturas, o que me deixou muito frustrada com a fotografia. Eu odiava a ideia de fazer fotos comerciais, pousadas e corretíssimas. Depois virei fotógrafa de espetáculo. Eu ia credenciada em shows, fotografava, e mandava essas fotos para jornais, revistas e blogs de Porto Alegre. Nessa fase comecei a gostar de fotografar pessoas, momentos espontâneos, brincar com a luz e tudo mais. Fui me permitindo criar.

A fotografia de festa surgiu como uma maneira de ganhar dinheiro, não foi planejado e nem era uma vontade, no início. Eu imaginava a mesma dinâmica da foto de formatura, pousada e sorrindo. E muitas são isso mesmo hahah mas eu fotografava o que me pediam, e entre as fotos clichês eu criava e documentava a festa com o meu olhar não comercial, visando projeto autoral mesmo.

 Pyetra por Pyetra

Pyetra por Pyetra

Qual teu tipo de festa favorito pra curtir? E o favorito pra fotografar?
Acho que os mesmos. Eu to sempre com a câmera e por eu gostar de fotografar momentos bem sinceros, e de registrar momentos que eu to vivendo, as melhores festas são as que eu tô me divertindo. Além disso, a cena alternativa me permite criar no espaço festa. Se eu entregar uma foto que não ta no padrão comercial, e muitas vezes pode até ser considerada “incorreta” (em termos de luz, por exemplo) talvez agrade mais ainda o público que, assim como eu, gosta do diferente.

Como é trabalhar num ambiente em que normalmente se vai só para curtir? Você consegue manter um foco no trabalho que está fazendo? Não é muito cansativo?
É bom demais hahah É cansativo mas o resultado me faz muito feliz. Sobre a concentração, eu costumo observar tudo o que acontece ao meu redor. Sempre gostei de prestar atenção no ambiente em que eu to, como se eu não fizesse parte dele. Eu gosto de fotografar pessoas espontâneas, vivendo, e numa festa é o ambiente em que elas estão mais propícias à isso.

Pra terminar, talvez a pergunta mais difícil. O ambiente da fotografia é praticamente dominado por homens. Como é ser uma fotógrafa mulher? E conta um pouco sobre a Histérica!
Não só o ambiente da fotografia, mas quase todas as áreas da arte. Nesse meio que fotografo, eu noto que as mulheres DJs sofrem muito com isso também, e é uma prova de resistência constante. A desigualdade tá aí, enraizada, e ainda tem muito machista dominando cargos e áreas importantes na arte e no mundo em geral. A gente tem é que não baixar a cabeça e, apesar das dificuldades da nossa realidade, seguir crescendo e batendo de frente com os boy hahah

A Histérica é um grupo de mulheres fotógrafas e da área do audiovisual que surgiu por conta da gritante diferença entre homens e mulheres no mercado da fotografia e vídeo. O grupo é composto pela Giulia Muller, Natasha Valenzuela e Eu.