Entrevista: Laurent Garnier

por Chico Cornejo

 (Foto: Divulgação/Facebook)

(Foto: Divulgação/Facebook)

It Is What It Is. É o que é. Um nome tão direto e contundente, chegando até a soar arrogante de tão hermético, para batizar um projeto é algo reservado a quem tem muita certeza do que faz, assim como Derrick May já demonstrava quando deu ao mundo a beleza de um clássico homônimo. O que distingue esta segurança da petulância, como sabemos, é algo que apenas a vivência de um veterano consegue garantir e que Laurent Garnier já vem granjeando há boas três décadas. Tanto que este é o nome de seu programa numa radio que também carrega um nome grandiloquente, Worldwide, e é fruto do apetite musical insaciável de Gilles Peterson, ele mesmo alguém em quem o próprio Lolo se inspira e espelha ao traçar os itinerários de suas aventuras musicais.

Há muito mais elementos que ligam essas duas figuras icônicas do ofício além do ecletismo que beira o iconoclasmo e o que os uniu nesse projeto, além de mantê-los próximos através de tantos aliados comuns, como Marky, DJ Cam, DJ Deep, Gilb'r e tantos outros que, com eles, possuem essa paixão inquebrantável por música de toda espécie, mas o principal fator que os liga é a generosidade. Foi ela que o trouxe para o Brasil quando nossa cena ainda se situava em seus estágios mais primevos; foi ela que o levou a convidar Mau Mau a tocar no exterior pela primeira vez; foi ela que o estimulou a compartilhar todos os seus hits com ávidos fãs de toda parte do mundo desde o início; foi ela que o fez dropar Funk carioca e "Smells Like Teen Spirit" do Nirvana em meio a um set massacrante de música eletrônica no Lov.e; foi ela que o estimulou a dividir a cabine com Marky no Lov.e; foi ela que o impeliu a dividir suas memórias numa das primeiras biografias escritas por um DJ; foi ela que o levou a fundar um selo que nos legou de Saint Germain, Llorca e Jori Hulkkonen a Scan X, Mr Oizo e Alexkid...

E foi essa mesma generosidade, a vontade de compartilhar uma vida de experiências e vivências conosco, que nos trouxe a esta conversa franca em todos os sentidos. E, com ela, o retorno de um lugar tão querido a todos aqueles que, como ele, vivem a música e sabem que ela só faz sentido quando dividida.

 (Foto: Divulgação/Facebook)

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Sua relação com o Brasil não é algo novo e tampouco um segredo, é algo profundo, intenso e, principalmente, recíproco. Como é estar de volta depois desse longo hiato?
É revigorante! Eu nem fazia ideia do quanto sentia falta deste lugar até pôr os pés aqui, muito curioso isso... Desde a primeira vez, minha conexão com o Brasil e os brasileiros sempre foi algo sólido, forte, quase visceral.

Há algum motivo especial para isso? Qual sua relação com a cultura brasileira além da profissional?
Eu cresci embebido em música brasileira. Ouvia diariamente, a toda ocasião que podia, já que ela era onipresente, sendo que quase todas as rádios tocavam. Era bem a época da disseminação da MPB pelo mundo, tida como algo sofisticado e exótico. O que de fato era, mas eu sempre me senti atraído pela riqueza rítmica e o refino melódico da Bossa Nova e depois os excessos da Tropicália, sempre fascinado com o quão profunda e envolvente a música sempre conseguia ser.

E essa familiaridade chegou a ser um fator negativo em algum momento, em termos de expectativas e estima?
Olha, em algumas ocasiões eu não estava muito conectado com a pista, ao menos não do jeito que gosto de me relacionar com o público. E isso me incomodava, porque ambos os pólos são muito sensíveis e sinceros, eu na cabine e os brasileiros na pista para mim sempre implicou em gerar alguma energia, alguma reação explosiva, ao ponto de nos tornarmos um só. Eu sou experiente e sei bem que essas oportunidades não são corriqueiras, por isso mesmo que eu as valorizo muito, ainda que as tenha encontrado com certa frequência no Brasil. Sei lá... expectativas acabam sendo inevitáveis até para um velhaco como eu, então procuro mantê-las sob controle, por mais que esteja ansioso por tocar em alguma parte, por mais querida ou familiar que seja.

Dá para entender porque sua reputação se consolidou como um DJ que desafia seu público, já que isso implica uma certa cumplicidade, não é?
Absolutamente! Isso é claro, eu dependo dessa proximidade para poder ir além e trazer a pista comigo. Você não convida um estranho para ir a lugar desconhecido com você do nada, esse convite exige uma certa dose de confiança mútua.

Isso também norteia outros âmbitos da sua carreira, pelo que pode se notar. Seja com produtores, clubs ou outros DJs, suas colaborações são longevas. Isto poderia ser chamado de uma ética de trabalho?
Eu gosto de forjar essas relações porque quando você está em toda parte, tocando pelo mundo e expondo algo muito pessoal para tanta gente, essa proximidade e a previsibilidade que ela traz consigo se torna algo fundamental. Para poder inovar, você precisa de uma boa base e esses parceiros constantes me dão isso, por isso procuro sempre mantê-los por perto. O Stéphane (Dri, também conhecido como Scan X) é um engenheiro fantástico e um amigo de longa data que estou tentando convencer a se mudar para perto de mim.

Mas essa familiaridade não pode também pode se tornar perigosa, já que pode virar uma zona de conforto demasiado atrativa?
Passei minha vida toda fugindo desse lugar e não seria agora que iria me acomodar. Evidentemente que há toda a fadiga de ter passado por tantas coisas na cena, o que pode torná-lo um pouco blasé, mas evitar essa armadilhas é o que me manteve onde estou até hoje e acho que é um lugar bem confortável, ainda que jamais previsível.

Foi justamente o que me veio à mente quando ouvi seu último álbum. Fazia algum tempo que não víamos um projeto autoral seu dessa envergadura. O que motivou seu surgimento?
O álbum, para ser sincero, foi absolutamente acidental. Cada faixa foi surgindo, fruto de inspirações erráticas e tentativas certeiras, e me vi com uma sólida coleção delas. A ideia original que tive durante umas pirações com Éric (co-fundador ao lado de Laurent do selo F Communications) era fazer algo inédito e original: lançar vários EPs em selos com os quais tenha afinidade ou construído uma história e depois compilar todos em um álbum só. Mas então vimos que seria muito trabalho tentar coordenar tudo isso, ainda mais nu  mercado tão saturado como o atual e decidimos lançá-lo de uma maneira mais tradicional. O resultado foi esse que chegou ao mundo.

 Capa do álbum La Home Box

Capa do álbum La Home Box

Uma ideia arrojada, sem dúvida. Ela tinha sido aventada antes, à época em que a F Comm ainda existia, por exemplo?
O impulso seminal foi imaginar com quem trabalharia, sendo que nosso selo não existe mais. Quem são as pessoas e labels fazendo o que pretendíamos fazer com aquela plataforma? O F Comm era algo muito especial e que marcou uma parte muito profunda e querida de minha vida e carreira. Ali nos esforçávamos em desenvolver talentos, nutri-los e fomentá-los, algo que vejo como algo cada vez menos frequente no cenário atual, com raras e excelentes exceções. Há muitos selos hoje em dia, talvez demais...

Ainda que, falando em cultivar talento de uma forma mais ampla, você nunca tenha se limitado à música eletrônica seja no selo, em seus sets, em seus remixes.... Isto também é o exercício de uma forma de não se manter entediado, ou pior ainda, estagnado?
Esse temor de ficar inerte não é algo consciente para mim, como você disse acertadamente, eu me entedio muito rapidamente e a sendo a música uma parte tão intrínseca à minha vida. Se eu a mantiver na mesmice vou fenecer, minha criatividade vai se dissipar, por isso me mantenho sempre em movimento entre diferentes musicalidades em todos os âmbitos das minhas atividades.

Isso se expressa de forma mais claro no seu radio show It Is What Is, não é?
Obviamente! É ali que posso exercer toda minha liberdade e me conectar com os ouvintes o que temos em comum: somos todos amantes de música e, assim, precisamos de algo rico, diverso e imprevisível para nos surpreender. Afinal, isto é algo fundamental na apreciação de qualquer coisa que excite nossos sentidos. Mas não para por aí, meu último remix foi para uma banda de Perpignan de quem gosto bastante, os Limiñanas. E, hoje em dia posso me dar ao luxo de escolher bem o que vou retrabalhar, então apenas faço isso com trabalhos que realmente me agradem.

Creio que o paralelo mais próximo que pode ser estabelecido com a música é a gastronomia. Há uma ordem a ser seguida, uma certa educação a ser enfrentada, mas as recompensas são inestimáveis...
Sem dúvida alguma há muitas semelhanças. E eu mesmo tenho planos de fazer um festival que una o paladar e a audição, são coisas muito próximas em termos do prazer que nos proporcionam e do esforço que exigem para serem apreciadas da melhor maneira. E também é se desafiando que se mantém um gosto afiado, apurado para dialogar com qualquer público.

E, depois de todo esse percurso e tantas experiências, se pudesse dar um conselho aos DJs que entram agora nessa arena que você já conquistou e até ajudou moldar, qual seria?
Nunca se entregue e sempre respeite seu público, toque para todos e os faça dançar, isso é crucial. E, a partir disto você vê os fundamentos: este é um jogo em que observação, timing e uma boa compreensão da energia que está rolando no ambiente são fundamentais. Você está ali para criar um laço que se estende além da sua presença na cabine como seletor, você é um deles e ao mesmo tempo não é, já que pode guiar os humores da noite e definir os destinos de tantas pessoas. É uma responsabilidade imensa, mas se você está ali, presente, de corpo e alma, ela se torna parte de você e do que faz.