Entrevista: Mr Thing

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por Francisco Cornejo

A grandeza de um ofício é definida por diversos fatores, mas os principais sempre envolvem a habilidade e o produto final que resulta do seu encontro com a matéria-prima, qualquer que ela seja. Isso se aplica desde a marcenaria até essa atividade tão idolatrada e mal-compreendida que é o DJing. Ainda assim, Mr Thing é um daqueles caras que possuem um talento raro, conseguindo exibir uma autenticidade e devoção ímpares em tudo que apresentam ao público, suficientes para solapar qualquer ambiguidade.

Seja como membro do revolucionário grupo de turntablists Scratch Perverts ou em sua profícua trajetória individual, ele consegue conjugar seriedade e espontaneidade de uma maneira única. E o que temos é um equilíbrio fino entre a valorização da técnica e da pista, entre rebuscamento e despojamento, entre artesão e animador… ou seja, tudo que faz de um simples DJ set algo monumental e, provavelmente, inesquecível. E também tudo que ele traz para esta primeira edição do Jazzy Fest que rola hoje e ainda traz diversos talentos como Leandro Cabral, Jonathan Ferr e Nômade Orquestra.

Vamos começar com aquela forma de arte bem específica à qual devotou sua carreira e habilidades: turntablism. Se tivesse de defini-la para iniciantes que jamais ouviram falar disso (acredite, existem…) como a descreveria?
Eu diria que é a arte de fazer música ou algum estilo dela a partir de algo que já exista mas usando os toca-discos ao invés de um sampler ou outro equipamento eletrônico. Espero que não tenha confundido mais que explicado!

Então, como um dos vários aspectos que compõem o DJing, ela também enfrentou algumas das profundas mudanças que chegaram a transformar a atividade quase que por inteiro no decorrer destes últimos anos?
Sem dúvida muita coisa mudou desde que comecei com um equipo bem básico. Houve um momento em que estava em casa analisando o campeonato do DMC e sequer conseguia entender por quê os DJs usavam algo ou para qual finalidade aquilo era usado, coisas assim. Eu realmente achava que carregaria discos comigo pelo resto da vida e, de certa forma, eu ainda os levo comigo quando faço sets com vinil na minha terra.  Levei muito tempo para me habituar ao Serato e meu primo, que também toca (DJ Tang - finalista do DMC que hoje vive em Cingapura) mostrou-o para mim e, assim que o adotei, percebi que poderia fazer muito mais com esse recurso. Mas ainda não me enveredei pela seara de usar pencas de controladoras e periféricos com o meu, já que curto continuar descobrindo o que consigo fazer com ele e a cada dia descubro algo novo.

Você já chegou a se envolver naquele velho debate sobre os tipos de plataforma e seus papéis na fruição/produção/promoção musicais?
Eu realmente tento evitar discussões ou entrar nelas com outros DJs acerca dos formatos que eles usam. Eu fui um DJ de vinil por tanto tempo e o Serato é tão prático para viajar, além de que ainda toco com discos eventualmente também. Já tentei usar CDJs, controladoras e todo tipo de geringonça. Ademais, já vi DJs como EZ tocarem nelas e arrebentarem tudo em festas, enquanto outros DJs repletos de recursos não conseguiam mixar uma música com a outra. Então creio que estou tentando dizer é que, como ouvinte, só quero poder curtir o que está sendo tocado.

Sempre me pareceu estranho que em algo que historicamente sempre se apresentou como uma empreitada individual (daí as competições, duelos e coisas assim) abundassem as equipes de som e de batalha nessa cena à qual você pertence, mas não tanto nos tipos de performance mais orientados pela pista, nos quais podemos ver no máximo duplas. Pessoalmente, o que você percebe como distinguindo uma da outra? Seria possível demarcar as causas para essa curiosidade na sua opinião, por exemplo?
Claro que há uma certa vibração que surge quando você toca numa equipe ou mesmo numa formação de dupla. Quando comecei a tocar, sempre praticava na casa de amigos, isso te impele a melhorar. E nos meus inícios com First Rate, logo antes dos Scratch Perverts realmente estourarem, tocávamos em festas juntos e rolava uma conexão imediata entre o que queríamos tocar e como tudo se concatenava.

Depois, quando ainda mantínhamos essa formação e nos encontrávamos para treinar e compartilhar sacadas, novos truques e métodos que criávamos, sempre era divertido. Assim, isso acaba sendo um bom preparo para quando você eventualmente embarca numa carreira solo.

Outro aspecto fundamental disso tudo é o garimpo de discos. Qual sua visão pessoal sobre ele e o quão importante é em sua vida? 
Eu amo a empolgação de encontrar discos ou coisas que estou buscando, isso sempre foi uma parte essencial da minha carreira desde que era um adolescente. Eu ainda fuço na coleção dos outros quando visito alguém! Muitas das coisas que descobri inicialmente me foram apresentadas pelas coletâneas Ultimate Beats & Breaks e revistas como Blues & Soul e Soul Underground que regularmente te mostravam o que estava rolando - ou mesmo como eram as capas dos discos! Onde cresci não havia muita música negra a ser encontrada, então eu procurava por qualquer coisa que me interessasse e ainda bem que uns tios meus tinham coleções imensas que me permitiram aprender desde cedo.

A série que lançou pela BBE é muito bem feita, até para os padrões elevados do selo. Isso enseja a pergunta: como ela veio a tornar-se realidade?
As compilações pela BBE surgiram de uma série de CDs mixados que fiz e distribuí apenas entre amigos contendo vários samples de discos de Hip Hop e coisas obscuras, algo que devo subir no meu Mixcloud algum dia… Tudo influenciado por Kon & Amir, ConMen (Supreme & Jake One), DJ Shame, Soulman e gente desse naipe. Um desses CDs foi parar na mão do Pete, cabeça da BBE, enquanto eu também vendia discos para ele e daí ele me pediu para compilar um lançamento que acabou por se tornar uma coleção, algo que nem consigo acreditar até hoje! No momento ainda estamos no processo de liberação de faixas para o quarto volume que, com sorte, sairá em breve.

Quão importante é o ecletismo para você, como DJ e aficionado por música? Ultimamente o "seletor" tem ganhado certa popularidade nos círculos mais amplos de amantes da música e festeiros, mas isso sempre foi uma parte fundamental do que é ser DJ - ainda que consideremos como o Hip Hop conseguiu se distanciar da Disco através dos anos - e parece que esses desenvolvimentos apontam para uma certa volta às origens, não acha? Como você vê/sente/vive esse fenômeno?
Aprecio tocar sets variados hoje em dia muito mais do que antes. Muita gente só me conhece como um DJ de Hip Hop, principalmente por meu trabalho fonográfico e pelas competições, e eu ainda adoro fazer sets só disso. Porém, sempre me interessei por um ampla gama de sons e por isso gosto de tocar o que for, se o público estiver a fim. Acho sempre bom mostrar esse lado mais diversificado, justamente porque o próprio HIp Hop foi germinado dentro de uma variedade de musicalidades e culturas.

Já que entramos nesse assunto, devo perguntar: qual sua relação pessoal ou profissional com nossa herança musical? A música brasileira teve algum lugar na sua formação artística? 
Eu estou aprendendo de verdade sobre a música brasileira e devo admitir que meu conhecimento dela é de fato bastante limitado, mesmo tendo muitos discos que amo de paixão! Mal posso esperar para conhecer mais ainda e descobrir muitas coisas enquanto estiver no Brasil!

Agora vamos em direção à economia ocupacional e a cultura de festivais que hoje em dia predomina no cenário musical como um todo. Essa proeminência transformou o que você faz e como o faz de forma significativa? Se tivesse de escolher, você preferiria a energia de um festival ou o aconchego de uma casa menor?
Definitivamente mudou um bocado. Eu tocava regularmente umas duas ou três vezes por semana, mas me mudei para fora de Londres e não toco nem perto disso hoje em dia, algo que foi motivado por razões pessoais depois de tanto tempo. Eu prefiro tocar num club menor com pessoas que amem a música, mas também tive excelentes experiências em festivais. Mesmo assim, prefiro as gigs menores com toda certeza.

Para finalizar: se pudesse voltar no tempo e encontrar o jovem Mr. Thing, o que diria para ele? Seria um conselho, uma bronca, um discurso motivacional, algumas dicas…?
Eu nunca tive pressa de fazer coisa alguma, sempre deixei as coisas acontecerem com toda naturalidade, então eu me diria que não é uma corrida em busca de todas essas coisas que te vendem. Eu jamais teria imaginado que viria ao Brasil pela primeira vez aos 46 anos ou mesmo que ainda estaria tocando nessa idade!

E quanto à novas gerações? O que diria para elas?
Eu diria para qualquer um que esteja interessado em ser DJ ou numa carreira musical: ache algo que ama e faça isso pondo toda sua energia e entusiasmo, não importando se as pessoas entenderem, você vai encontrar o seu som, o seu estilo, e elas vão vir até você!

http://www.djmrthing.com/about.html