"Fui criado a entender que a música é a base para tudo": falamos com Stanccione

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Por Alan Medeiros (Alataj)

É gostoso observar como artistas que criam com amor entregam resultados apaixonantes. Longe daquele extremo "trabalhe com o que você ama e você não irá precisar trabalhar nenhum dia", a rotina desses profissionais é pautada por muita luta, superação e entrega, mas com adversidades devidamente recompensadas nos detalhes, pequenas conquistas e grandes triunfos.

Caio Stanccione ou simplesmente Stanccione é um desses artistas que se declara apaixonado pela forma como a arte entrou em sua vida. Dono de um extenso background musical oriundo de sua família, Caio não escolheu a música, ela o escolheu. Sua profunda e contundente pesquisa musical dá vida a um artista que não se contenta com os caminhos mais óbvios e está sempre em busca de jóias raras perdidas ou novidades que empolgam.

Seu recente release é o EP Quintana, que ao longo de três faixas originais traz uma verdadeira master class de utilização de samples e reafirma o potencial de Stanccione enquanto DJ e produtor. No embalo do lançamento pela Costaluz, nova gravadora de house brasileira, convidamos Caio para esse bate-papo exclusiva. Se liga no resultado do encontro:


Oi, Caio! Tudo bem? Sua relação com a música eletrônica parece ser algo bem verdadeiro e emocional. Conta pra gente como isso tudo se desenvolveu?
Oi, Alan! Tudo, e você? Olha, minhas primeiras lembranças com a música eletrônica remetem aos anos 90, como eu era muito novo pra sair e não tínhamos a internet como conhecemos hoje, meu único canal de acesso era a TV. Uma lembrança muito marcante foi quando assisti pela primeira vez ao clipe de Breathe do Prodigy no Disk MTV de 1996, se não me falha a memória. Quando tive acesso a internet em torno de 1999/2000, as coisas mudaram, minha adaptação foi rápida e logo entendi como conseguir o que eu queria, lia os threads do Rraulr por exemplo, até então descobrir que eu poderia comprar os discos que eu quisesse através da internet. Eu era muito novo e não tinha relacionamento com os vendedores para conseguir as músicas que queria nas lojas que frequentava. Minha primeira compra em uma loja online foi em 2004 através da Juno e nunca mais parei.


Quando exatamente você percebeu que a música poderia ser mais que um hobby?
Perceba que aqui eu não me refiro apenas a uma questão profissional, mas também a uma forma de conexão com outras pessoas. A música para mim nunca foi um hobby, fui criado a entender que a música é a base para tudo. Meu pai é músico, baixista em uma banda que vem de sua adolescência e perdura até os dias de hoje, meu irmão também é músico instrumentista e compositor, onde você andar em nossa casa achará um instrumento, um amplificador, um pedestal. nada mais comum aqui do que eu estar no meu estúdio enquanto meu irmão está escrevendo alguma partitura no teclado em seu quarto e meu pai está na cozinha tomando vinho com minha mãe e tocando algum rock dos anos 70/80. Meu contato com a música foi estimulado desde os primeiros dias de vida e eu sinceramente não me lembro de encarar a música como hobby, me empolgo demais com ela pra ser um passatempo somente.

De que forma o perfil cosmopolita e intenso de São Paulo impacta na sua música? De uma forma geral, você é um artista aberto as interferências que o cotidiano proporciona?
São Paulo me influência de todas as formas possíveis. Faço questão e vou atrás disso. Arquitetura, fatos históricos, gastronomia ou um andar de metrô, o trânsito da marginal, um por do sol laranja por conta da poluição... definitivamente tudo ao meu redor pode me inspirar e eu absorvo tudo isso pra depois canalizar na execução de uma música.

Quintana, Spen e Roxy são faixas com vibes diferentes, mas que se encontram em determinados momentos. O que cada uma delas representa pra você? Em quais momentos da sua vida e carreira elas foram produzidas?
Pois é, acho que isso de cada música ter uma cara é uma característica minha na hora de compor, na hora de discotecar também, acho muito fácil, previsível e até preguiçoso quem acha a "receita do bolo" e fica presa a ela. Minha ligação emocional com as faixas que componho varia muito. Spen e Roxy são tracks com o sentimento de "4 to the Floor", fiz pensando no que eu gostaria de ouvir enquanto estivesse na pista, e como pra mim a pista necessita de moods diferentes em vários momentos em que se está lá, elas também soam/passam energias diferentes, porém dançantes. Quintana foi mais uma experiência, eu queria fazer uma música que usasse instrumentos brasileiros, podemos ouvir cuíca fazendo papel de synth stab, um surdo fazendo linha de sub grave e um pequeno trecho percussivo de um disco do Luiz Gonzaga que sampleei dentro de Quintana.

Quando finalizei o arranjo, vi que caberia um vocal e seguindo o mesmo pensamento, decidi colocar um em português. A ideia de samplear o Abujamra recitando Tempo de Mario Quintana no som foi quase que automática, lembrei que voz dele estaria em tom com a música, e logo na primeira tentativa de colocar o poema no arranjo musical eu já tive certeza do casamento entre eles. As 3 faixas que compõem o EP da Costaluz foram feitas entre fevereiro e março deste ano.

Na sua opinião, quais são as principais características do Stanccione DJ? E o que você destacaria no Stanccione produtor?
Tanto produzindo quanto discotecando, uma coisa que eu gosto muito é de não ser um cara amarrado a um gênero/subgênero. Tem dia que acordo e sinto a necessidade de fazer música ambient ou drum and bass, por exemplo. O mesmo se aplica quando saio pra tocar. Tem dias que o repertório é avant-garde e tem dias que será clássico. Ainda há outros dias que vai ser tudo misturado. A graça (e o segredo) pra mim tá no impulso, tocar o que me vem a cabeça observando a reação do público na pista. Colocar um instrumento pouco provável em música que estou fazendo, por aí vai...

Outra característica que gosto de destacar é a de ser um pesquisador incansável. Para ambas faces, é um trabalho diário e de muitos anos já, tentar consumir toda informação/música/conceito novo que apareça ou mais antigo e que eu tenha deixado passar, principalmente com música. Gosto até de brincar que a música só fica boa mesmo depois de alguns anos que foi lançada.

A cena brasileira tem crescido bastante nos últimos anos e cada vez mais o público está disposto a conhecer artistas de qualidade. Qual sua opinião sobre o atual momento da dance music por aqui? Pra você, o futuro é preocupante ou animador?
Olha, a cena brasileira é mais rica e bacana que eu conheço, em outros países é comum ter um estilo mais dominante, como o DNB/Jungle na Inglaterra ou Techno na Alemanha. Aqui nós temos definitivamente todos os gêneros possíveis acontecendo há pelo menos 20 anos. Eu acho isso magnífico e essencial. O momento atual é de revelação de novos artistas, novas tendências aparecem como o lo-fi house e outras retornam reformuladas como o minimal que vem ganhando bastante espaço. Eu particularmente tenho adorado o momento atual da música de pista por aqui, flerto e muito com o que está sendo evidenciado se levarmos em conta momentos anteriores mais recentes. Eu tenho boas expectativas sobre o futuro da nossa cultura de pista por aqui. O EDM não é mais titular como porta de entrada para a club culture, papel que o Techno tem hoje em dia. O que isso quer  dizer? Quer dizer que as pessoas iniciam a busca cultural em algo menos comercial como EDM. Sendo assim, maior a chance de termos pistas mais exigentes e preparadas para uma sonoridade madura. Já se pode observar isso tranquilamente por aqui, em especial no sudeste-sul do país.

Para finalizar! Qual a principal mensagem que você busca passar com a sua música?
Felicidade. É pra isso que todos estamos no dancefloor não? Ter bons momentos, então, felicidade.