Joakim e sua jouissance musical

por Chico Cornejo

 Joakim (Divulgação/Facebook)

Joakim (Divulgação/Facebook)

É impossível não se deixar levar por tudo que Joakim expressa, desde sua sinceridade quase naïf ao travar um diálogo como o que deu origem a esta entrevista até a generosidade com que se dedica a cada uma de suas frentes criativas, absolutamente tudo é permeado por uma autenticidade muito intensa. Atualmente residindo em NY, mas ainda sendo aquele explorador francês que desconhece qualquer tipo de fronteira quando o tema é música, ele não esconde sua paixão por nossa herança musical e a empolgação por poder tocar aqui novamente. E, de fato, é reconfortante ver um artista tão comprometido com o que faz retornar com a inquietação que ele demonstra a cada vez que pontua sua admiração pelo Brasil.

Claro que essa estima encontra uma merecida reciprocidade por aqui, já que cada uma de suas aparições anteriores é tida como uma ocasião incomparável. Some-se a tudo isto o fato de que raramente seus anfitriões neste retorno repitam convidados, reservando este privilégio a alguns poucos DJs prediletos, e temos uma uma conjunção de fatores suficiente para gerar uma certa comoção.

Entre uma edição memorável da Gop Tun há alguns anos e esta próxima em que capitaneia a pista Supernova algum tempo se passou e muitas coisas certamente mudaram, mas o que permanece inabalável, como podemos ler aqui e certamente ouviremos em breve, é essa paixão que norteia tudo que ele se propõe a fazer.

Após tantos anos viajando pelo globo, presumimos que você já tenha ido a cada um de seus cantos até aqui. Ainda existe aquela empolgação de ir a locais ainda desconhecidos ou você prefere retornar a um lugar no qual já tenha a vantagem de ser estar familiarizado com o público? Qual sua postura com relação à vida na estrada, seus percalços, perigos e recompensas?
Acho que ambos estão certos. Por vezes me sinto ansioso para visitar um país novo, embora isso venha acontecendo cada vez menos agora que já percorri uma boa parte do globo. E muitas vezes fico feliz em regressar a um lugar familiar no qual tenho amizades e meus locais favoritos, como no Brasil ou no México. Eu diria que o pior incômodo atualmente é tanta viagem e espera, o que costumava ser divertido mas agora sinto como se estivesse perdendo tanto tempo “em trânsito”, em aeroportos, carros e hotéis quando estou em turnê. Realmente gostaria que o teletransporte existisse, assim seria teletransportado direto para o club da minha casa. Esse seria meu pedido se pudesse escolher um superpoder.
Acredito que essa vida intensa na estrada seja o principal motivo pelo qual tantos DJs acabam deprimidos, já que você vive numa bolha esquisita em que nenhum lugar é seu lar, você está constantemente em movimento, sempre cercado por pessoas diferentes e isto se transfere para seu estado mental, podendo facilmente fazer com que perca o contato com a realidade. Agora eu tenho me concentrado em trabalhar no estúdio cada vez mais, não apenas para mim, mas também mixando e produzindo para outras pessoas, para que não tenha que depender tanto dessa vida e consiga aproveitar esses finais de semana, nos quais posso ficar em casa e fazer coisas normais tipo almoçar com meus amigos, ir ao cinema ou apenas caminhar pela vizinhança.

Considerando que o Brasil já foi seu destino algumas dessas vezes e é amplamente sabido que elas têm um lugar especial em suas memórias, qual sua impressão dessa nossa energia e joie de vivre?
Para mim é quase como se fosse uma segunda casa. Eu consigo me conectar com o estado de espírito brasileiro e acho que há muito em comum com aquele dos franceses, mas provavelmente com uma atitude mais positiva com relação à vida e um elemento mais sensual -  estou ciente de que é um tanto clichê ao se falar sobre o Brasil. Os brasileiros também têm esta conexão bem única com a música que não encontrei em nenhuma outra parte do mundo, algo que é genuinamente parte essencial da cultura e dos estilos de vida. Isso você não encontra na França de jeito algum.


É impressionante como a dance music pode ser um meio tão rico de comunicação não-verbal. Seja pelos seus efeitos corporais ou seu potencial rítmico e melódico de carregar sentidos e sentimentos. Você sempre se destacou como um habilidoso contador de histórias, capaz de carregar a audiência através de jornadas musicais tão diversas quanto excitantes. Há uma abordagem ou uma visão de como um set deva ser que o guia por suas narrativas?
Não há uma visão específica, tudo depende do momento, como neste final de semana passado, para dar um exemplo. Eu estava tocando no PanoramaBar em Berlim das 7 às 10 da manhã no domingo e pensei em conduzir tudo numa pegada mais viajante, lenta e  quase baleárica. Mas, quando cheguei lá, a vibração e energia eram tão diferentes daquilo que imaginei que tive de mudar meus planos completamente. Ainda assim, é verdade que, para mim, seja essencial que um set te leve numa viagem e, não querendo soar muito “new age”, mas é quase como uma experiência espiritual e frequentemente penso nos DJs como um tipo de xamã moderno. É justamente aí que tudo se torna algo belo, quando você sente aquela ligação mágica com o público, quando todos estão na mesma frequência da música, compartilhando emoções coletivas, corpos se movendo em sincronia, transcendendo normas e classes sociais. Esta experiência coletiva é algo muito importante para os humanos, desde que costumavam ter suas vidas regradas pela religião, o que obviamente não se aplica mais à maior parte do mundo. Clubs e festas são os locais nos quais ainda se pode experimentar isso, se um bom DJ estiver tocando e você se deixar levar.

 Chico e Joakim  

Chico e Joakim  

Falando em narrativas, você sempre pareceu confortável dentro do tipo que apenas recentemente se tornou uma plataforma viável para artistas de música dançante/eletrônica se expressarem: o álbum. Ele é seu formato favorito? Se sim, por quê?
Cresci escutando álbuns e me acostumei à ideia da extensão deles. Sinto como se fosse a única maneira de expressar uma visão mais ampla e complexa da música e de criar uma jornada, como você mesmo disse anteriormente. Um álbum também tem de contar uma história. Você pode fazê-lo com uma música, mas pode criar narrativas muito mais complexas através desse formato.

E a TigerSushi? Já é sabido pelo mundo que ela deveria ter sido seu veículo de dominação mundial. Não que tenha falhado totalmente nesse quesito, mas se pudesse, teria feito algo diferente? O que, por exemplo?
Não há muito que eu mudaria de fato. Talvez pudesse ter sido mais radical em alguns momentos, mas é sempre fácil dizer isso posteriormente. E, para constar, ainda estamos trabalhando na questão da dominação mundial. Ouviu falar da Coreia do Norte? Da interferência russa? Das greves na França?

Além de sua relação duradoura com nosso país, qual o lugar da musicalidade brasileira em sua vida em geral como amante da música, colecionador e seletor musical ou propriamente como músico?
É simplesmente um dos tipos de música mais completos já feitos e, provavelmente, a mais sofisticada interpretação da música pop (considerando esta noção de uma forma bem ampla). A música brasileira consegue ser virtuosa, incrivelmente bem escrita e sensual ao mesmo tempo.

Já que mencionamos colecionismo, qual sua perspectiva acerca desse universo que é parte da cultura do DJ? Você a vê como um ofício autônomo e autêntico ou mais como um recurso que lhe permite contar suas histórias na pista?
Não acredito que você consiga contar bem uma história sem saber seu ofício, então é definitivamente os dois. Tocar é um talento em si e não creio que se possa tornar um bom DJ de um dia para o outro apenas porque você gosta de música. É algo que você aprende e desenvolve do seu próprio jeito. Eu era terrível quando comecei porque tocava apenas o que gostava para mim mesmo, não entendia a dinâmica de um set, como ler o público e tudo que isso envolve. A cada set eu sinto que aprendo algo novo.

Se houver algum conselho que você pudesse dar neste momento às novas gerações, qual seria ele?
Opa, como assim? Eu já estou tão velho? Bom, desse modo, crianças: Disco Sucks.

 

29789978_1783667095030022_7585468801822455360_n.jpg

Promo

Saiu o resultado da promo e o vencedor é: Erick Quezada de Castro (e acompanhante)
Apresentem seu RG na porta e boa festa!

 ̶A̶q̶u̶e̶l̶e̶ ̶d̶i̶a̶ ̶e̶m̶ ̶q̶u̶e̶ ̶e̶l̶e̶ ̶t̶o̶c̶o̶u̶ ̶n̶a̶ ̶G̶o̶p̶ ̶T̶u̶n̶ ̶p̶e̶l̶a̶ ̶p̶r̶i̶m̶e̶i̶r̶a̶ ̶v̶e̶z̶ ̶f̶o̶i̶ ̶l̶o̶c̶o̶.̶ ̶Q̶u̶e̶m̶ ̶e̶s̶t̶a̶v̶a̶ ̶l̶á̶?̶ ̶̶C̶o̶n̶t̶a̶ ̶p̶r̶a̶ ̶g̶e̶n̶t̶e̶ ̶e̶ ̶m̶a̶r̶q̶u̶e̶ ̶q̶u̶e̶m̶ ̶c̶u̶r̶t̶i̶u̶ ̶o̶u̶ ̶d̶e̶v̶e̶r̶i̶a̶ ̶t̶e̶r̶ ̶c̶u̶r̶t̶i̶d̶o̶ ̶c̶o̶m̶ ̶v̶o̶c̶ê̶ ̶a̶q̶u̶e̶l̶e̶ ̶d̶i̶a̶ ̶f̶a̶n̶t̶á̶s̶t̶i̶c̶o̶.̶ ̶V̶o̶c̶ê̶ ̶e̶ ̶s̶e̶u̶ ̶p̶a̶r̶ ̶p̶o̶d̶e̶m̶ ̶g̶a̶n̶h̶a̶r̶ ̶i̶n̶g̶r̶e̶s̶s̶o̶s̶ ̶p̶a̶r̶a̶ ̶c̶u̶r̶t̶i̶r̶e̶m̶ ̶j̶u̶n̶t̶o̶s̶ ̶-̶ ̶f̶i̶n̶a̶l̶m̶e̶n̶t̶e̶ ̶o̶u̶ ̶n̶o̶v̶a̶m̶e̶n̶t̶e̶ ̶-̶ ̶d̶e̶s̶t̶a̶ ̶v̶e̶z̶.̶ ̶A̶p̶e̶n̶a̶s̶ ̶o̶s̶ ̶p̶r̶i̶m̶e̶i̶r̶o̶s̶ ̶d̶o̶i̶s̶ ̶n̶o̶m̶e̶s̶ ̶l̶e̶v̶a̶m̶,̶ ̶c̶o̶n̶t̶a̶n̶t̶o̶ ̶q̶u̶e̶ ̶u̶m̶ ̶d̶e̶ ̶v̶o̶c̶ê̶s̶ ̶n̶o̶s̶ ̶d̶i̶g̶a̶ ̶o̶n̶d̶e̶ ̶o̶c̶o̶r̶r̶e̶u̶ ̶e̶s̶s̶a̶ ̶f̶e̶s̶t̶a̶ ̶i̶n̶e̶s̶q̶u̶e̶c̶í̶v̶e̶l̶,̶ ̶m̶a̶s̶ ̶g̶a̶r̶a̶n̶t̶i̶m̶o̶s̶ ̶q̶u̶e̶,̶ ̶a̶o̶ ̶f̶i̶n̶a̶l̶ ̶d̶a̶ ̶p̶r̶o̶m̶o̶,̶ ̶̶t̶o̶d̶o̶ ̶m̶u̶n̶d̶o̶ ̶v̶a̶i̶ ̶g̶a̶n̶h̶a̶r̶ ̶u̶m̶ ̶p̶r̶e̶s̶e̶n̶t̶ã̶o̶.̶ ̶
V̶a̶l̶e̶n̶d̶o̶:̶ ̶c̶o̶n̶t̶a̶t̶o̶@̶d̶e̶e̶p̶b̶e̶e̶p̶.̶c̶o̶m̶.̶b̶r̶