João Pinaud vai do baleárico ao jazz em “Telephunk”

Por Stefanie Gaspar

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Em 2013, o músico João Pinaud foi para o estúdio com uma sonoridade: beats old-school, guitarras acústicas e uma pegada mais orgânica e abstrata, em músicas gravadas ao lado do produtor Felipe Castro na Tomba Records, em Niterói. As cinco faixas, ainda inacabadas, foram deixadas de lado e ficaram na gaveta até 2018, quando Pinaud enviou o material para Érica Alves, da Baphyphyna Records. O que parecia uma mixtape então se tornou um EP, com pegada mais jazz/pop e elementos de chill-out, baleárico e uma herança forte da música negra.

Pinaud retornou ao estúdio ao lado de Érica e acrescentou novos elementos sonoros para a edição final, como as flautas de Felipe Pinaud, as guitarras de Gilber T e os vocais de Érica em "Love Story". O resultado final, o EP "Telephunk", vai em direção ao pop e funciona tanto nas pistas quanto para uma audição mais intimista.

Conversamos com o músico sobre o lançamento do EP, o processo de gravação, suas influências e o que o futuro aponta para sua produção autoral. Além de seu trabalho como músico, Pinaud é DJ residente das festas Manga Rosa e Barco do Amor, ambas no Rio de Janeiro.


Me conta como foi a origem das faixas do EP, vi que o material base está pronto desde 2013 e que era pensado mais como trilha sonora. Achei que o resultado final continua com essa base mais chill-out, mas se voltou um pouco mais para a pista e para uma cena mais pop. 
A origem do Telephunk se deu em várias sessões no estúdio da Tomba Records, em Niterói. Eu chegava com algumas ideias de samples, gravava baixo, guitarra e o Felipe Castro ia fazendo as Beats. Foi um processo muito natural no sentido de que toda trilha podia ter algo abstrato e experimental a ser absorvido. Na segunda fase, por mais que tenha uma pretensão pop, o 'groove' é a receita principal desse disco.

Como o material se transformou com o início do trabalhado na Baphyphyna?
Érica: A princípio eu queria lançar o material no estado que João havia deixado - inacabado mesmo. Me interesso muito por work-in-progress, e aquele trabalho ali, parado em 2013 me fascinou pela possibilidade de se literalmente congelar o tempo numa obra sonora. 

Quando surgi com um prazo para lançar agora em 2018, João prontamente se agilizou para finalizar da forma que ele visualizava. Senti um pouco de pena por perder o aspecto original, mas o resultado final superou qualquer expectativa. Eu editei a Breathing Sound, eliminando sobras de gravação e valorizando seu aspecto mais radiofônico. Gravei os vocais de Love Story. Acompanhei a sessão de estúdio na Tomba Records esse ano quando Felipe Pinaud chegou lá e gravou as flautas maravilhosas em Rolando. Também editei algumas das guitarras que Gilber T fez. Coisas foram acrescentadas, mas não retiradas.E contamos com a maestria de Bruno Marcos na mixagem dos overdubs e masterização. De uma simples beat tape para uma obra prima - eu tenho muito orgulho disso ter saído finalmente e ter dado o incentivo para que acontecesse de fato. Vida longa!

Essa é sua estreia como produtor. Como foi para você esse processo de acrescentar outra profissão ao seu já conhecido trampo como DJ? 
Na verdade, eu sempre tive bandas desde os 16 anos. Meu primeiro instrumento foi a guitarra, sucessivamente o baixo e só depois os toca-discos. Meu sonho sempre foi unir essa experiência orgânica das bandas com os timbres eletrônicos que aprecio.

Por que jazz? As pessoas que te conhecem provavelmente esperavam algo mais voltado para a música eletrônica.
Nesse EP dei prioridade às minhas primeiras ambições como produtor, acho interessante respeitar essa ordem cronológica do processo criativo. Eu penso em jazz como um significado amplo da palavra, no sentido de que a música é negra e universal. Então dentro desse termo encontramos o soul, funk, R&B e trip hop.

Quais suas influências na hora de compor música autoral?
Ainda estou nesse processo de busca de identidade. Ainda não estou decidido quanto a isso. É uma utopia! Eu sempre fui um bom parceiro para acrescentar com ideias algo já começado. Era o que eu sempre fazia com os riffs de guitarra ou linhas de baixo das minhas bandas. O Telephunk vem como um divisor de águas entre o que eu fazia e o que eu quero fazer.  Uma forma de pensar e refletir o meu trabalho. Achei muito importante dar um ponto final às faixas para poder tocar os outros projetos em progresso. Nesse EP as maiores influências foram Guru Jazzmataz, Massive Attack, Thievery Corporation, Portishead e Gotan Project.

Seu disco é 100% fruto de trabalho de artistas da cena de Niterói. Como é a sua relação com a cidade e com a cena local?
A cidade das águas escondidas sempre vai ser a inspiração. Foi em Niterói que nasci e tive contato com essa área cultural. Terra de músicos incríveis, inclusive da família, que tive o prazer de compartilhar e criar essas faixas.

Por quê o nome Telephunk?
Funk pra mim é como uma ideologia: eu levo isso tanto para os instrumentos quanto para o DJ set.

Você pensa em gravar um álbum, em novos rumos para sua carreira autoral? Quais os planos para os próximos meses, tanto como DJ quanto como produtor?
Eu estou no processo de desenvolvimento do meu Live e já em prática o duo Pinaud & Érica. tenho também algumas tracks originais e remixes prontos para lançar numa pegada mais eletrônica e pista. Como esse EP tá bem orgânico, a ideia subsequente ao lançamento é de fazer um Telephunk remixes com meus amigos DJs e produtores.