O futuro promissor de Tha_guts

Por Alan Medeiros (Alataj)

Tha_guts é o projeto artístico do produtor musical gaúcho Augusto Pereira. Augusto é um profissional com boa experiência em diferentes frentes artísticas, mas deu início ao seu projeto voltado a eletrônica apenas em 2018. Após o lançamento do álbum Plastic Noise, Guto (como é carinhosamente chamado pelos mais próximos) iniciou um processo de aproximação da cena eletrônica e essa caminhada culminou no lançamento de seu novo EP.

Mirror foi oficialmente lançado no último dia 19 de Outubro pela Gop Tun, coletivo paulistano que é tido como referência absoluta dentro do cenário disco/house no Brasil. O EP é composto por 5 faixas originais e ao contrário do seu debut álbum, marcado por uma gama extensa de referência, esse trabalho flerta mais diretamente com a house music, sem deixar de lado o caráter experimental e indie presente nas produções deste promissor artista gaúcho.

Como Tha_guts não se trata de um projeto voltado a discotecagem, a produção de músicas próprias tem um significado especial em sua jornada musical. Talvez por isso ele tenha produzido e lançado um número significativo de faixas em um curto intervalo de tempo, algo que não é tão comum dentro do meio eletrônico. A nosso convite, Tha_guts falou um pouco mais sobre esse e outros assuntos importantes de sua carreira nesse bate-papo exclusivo com o deepbeep. Confira:

Olá, Guto! Tudo bem? Após o lançamento de Plastic Noise, que possuía uma roupagem mais indie/electronic/experimental/new pop, você flerta diretamente com a house music nesse EP pela Gop Tun. Quais foram as referências principais para composição desse trabalho?
O processo criativo em Plastic Noise se deu muito mais como uma soma de múltiplas referências, o que resultou no caráter híbrido do disco. Agora em Mirror, me senti mais confortável para direcionar as composições em uma proposta homogênea, direcionada ao house, mas ainda mantendo os elementos que permeiam o meu trabalho.

Sobre o processo criativo, quais foram os grandes aprendizados que você obteve ao trabalhar na criação dessas 5 faixas originais?
A forma como eu trabalho em estúdio quase sempre está relacionada com o que eu estou estudando na época. Nesse EP, diferente do primeiro lançamento, eu estava mais focado em encontrar tracks que tivessem potência na pista mas que também fizessem sentido fora dela. Encontrar um caminho que unisse ambas as propostas com certeza foi o maior aprendizado e talvez a maior característica do EP.

De um selo totalmente off do universo da música eletrônica para o casting de uma das gravadoras mais representativas do país. Pessoalmente e profissionalmente, o que representa lançar pela Gop Tun?
A Gop Tun como festa/núcleo criativo já é consistente e cada vez ganha mais espaço no cenário nacional, lançando trabalhos de nomes que vão desde artistas consolidados como Renato Cohen a revelações do cenário eletrônico como é o caso do produtor gaúcho Gabto. Agora, como artista, fazer parte do selo Gop Tun, acredito que esta oportunidade amplia e da credibilidade do meu trabalho. Pessoalmente, tem sido uma realização muito importante fazer parte deste catálogo.

Ao longo dessas 5 faixas do EP Mirror você flerta com a utilização de samples oriundos de diferentes movimentos musicais. Esse exercício de colagem e criação pode ser considerado um dos grandes destaques do seu trabalho?
Eu acredito que posso dizer que eu sou um cara das colagens e dos samples e me identifico com isso (risos). Sempre me interessou mover distintos elementos, sejam narrações ou instrumentais, do seu lugar de origem É como se eu conduzisse uma ressignificação desses componentes, saindo da zona de conforto e expondo assim para novas possibilidades. Então, sempre fico feliz quando destacam essa característica.

Após o lançamento desse EP pela Gop Tun, quais são os próximos passos da carreira do Tha_guts?
Agora penso que o primeiro passo é seguir trabalhando em cima desse lançamento com tour, clipe, podcasts, etc. Por outro lado, dificilmente me acomodo com os lançamentos. Para que o meu trabalho siga com essa característica orgânica o processo em estúdio é tão importante quanto ao live propriamente dito. Nesse sentido, uma proposta que sempre me prendeu foi uma vertente sonora e estética latino-americana. Muito se fala do House de Chicago ou do Techno de Detroit e de fato os representantes e produções destes cenários são incríveis. Porém, ainda sinto uma certa falta de identificação sonora mais voltado para um posicionamento latino americano nas minhas produções. Então logo virão mais lançamentos e novas possibilidades do projeto com certeza serão testadas.

Certamente você é o tipo de artista que está a todo momento procurando por novos sons e estilos. Nos últimos meses, o que tem captado mais sua atenção?
Tento exaustivamente acompanhar lançamentos de novos produtores emergindo do cenário eletrônico atual, principalmente aqui no Brasil. Me interessa muito artistas que se desafiam a produzir um trabalho não unicamente voltado para a pista (Four Tet, Bonobo, Kurup, Justice, Nicola Cruz, Suuns...). No momento é o que mais tenho escutado. Além é claro que eu nunca me restringi ouvir unicamente música eletrônica. Então nos meus fones de ouvidos estão sempre artistas de diferentes estilos como Gorillaz, GwaiLow, Mac Miller, entre outros.

Para fechar! O que inspirou você a começar a produzir música eletrônica? Esta chama se mantém acesa até os dias atuais?
A música eletrônica tecnicamente sempre vai ser uma comunicação não verbal que se sustenta como uma balança. De um lado precisa existir um riff poderoso que legitime como e por que a composição tem potência para se tornar uma track incrível e do outro existe toda instrumentalização e meios para contrabalançar e ser o suporte da track. De fato, um dos lados não existe sem o outro. Então a minha inspiração quase sempre vem desse equilíbrio e dessa particularidade humana no processo. E enquanto a mesma existir a chama continua acesa e a música vai continuar tocando.