Prisma: DGTL Festival

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No mundo, nas redes sociais e aqui no deepbeep nem sempre temos a mesma opinião. E queremos expressar as nossa diferenças com educação e bons argumentos, por isso lançamos o Prisma. No Prisma, vamos trazer três (ou mais) convidados que tragam pontos de vista distintos sobre festas, eventos, lançamentos,... tudo o que quisermos discutir! 

Neste lançamento, convidamos Anderson Santiago, Flávio Ghidalevich, Marcelo Godoy e Stefanie Gaspar a dividir seu ponto de vista sobre o DGTL Festival

Em sua segunda edição no Brasil, o festival holandês DGTL repetiu no último sábado (dia 5 de maio) a fórmula que lhe rendeu boa fama em sua estreia: line-up com DJs consagrados, locação inusitada e organização afiada. Seguindo a premissa de ~ em time que está ganhando não se mexe~, o evento caminha para se consolidar no calendário de festivais da cidade após uma nova edição de sucesso com presença de mais de 12 mil pessoas, desta vez em uma outra antiga fábrica instalada no Jaguaré, zona oeste de São Paulo. Muito bem divididas em três palcos bem equipados e com espaço bom para requebrar à vontade, mais de 20 atrações cumpriram a promessa de levar música eletrônica underground da melhor estirpe para clubbers e simpatizantes dançarem até o amanhecer, diante de poucos percalços para um evento desse porte. 

Entre as atrações, não havia nenhuma grande surpresa, mas vale destacar o esforço da organização de reunir num só line-up a nata da nova música eletrônica brasileira (Pareto, Zopelar, Carrot Green etc.), alguns DJs mais hypados do momento (Honey Dijon, Job Jobse, Gerd Janson etc) e produtores consagrados que arrastam multidões (Dixon, Ben Klock).

Veja a seguir um pouco de nossas impressões sobre o que rolou no DGTL 2018.


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Por Anderson Santiago

- Red Axes
O live da dupla israelense é contagiante e poderoso, como já vimos em clubes como o D-Edge. No palco de um festival, constatamos que eles crescem ainda mais: deixam um pouco de lado o house melódico, aceleram o bpm e empoderam a voz do brasileiro Abrão. Escalado para tocar ainda cedo, como um ~ esquenta~ para a enxurrada de techno que tomaria o palco Modular depois, o duo provou que não estava ali para um warm-up qualquer. Como resposta, o público vibrou e curtiu muito. 

- Honey Dijon
Ver a apresentação de um DJ no auge de sua carreira é sempre um prazer. Ainda mais quando é uma mulher trans com o background de miss Dijon, nascida em Chicago e apadrinhada desde jovem por ˜local heroes˜ como Derrick Carter e Mark Farina. Menos de um ano após sua apresentação no festival Red Bull Music Academy, onde incendiou uma das pistas da Casa das Caldeiras, ela voltou ao Brasil desta vez com pinta de headliner, aclamada mundialmente -- não foi à toa que a pista Frequency ficou abarrotada e pequena para seu set. O house, claro, reinou soberano, com um set permeado por faixas próprias e hinos como ~ I Feel Love~, de Donna Summer. Histeria coletiva. 

- Prins Thomas & Gerd Janson
Se há uma dupla que não devia nunca se separar, ela se chama Prins Thomas & Gerd Janson. Os dois europeus cabeludos trouxeram ao Brasil o resultado de uma ótima parceria que dá pinta na pistas de grandes festivais há alguns anos, misturando com muita maestria house, disco, space disco e pitadas de techno. Em três horas de set, a dupla fez muitos quadris e ombrinhos balançarem, dando uma aula de música boa sem grandes barreiras de rótulos.

- Rodhad & Daniel Avery
O b2b da dupla acertou em cheio o coração dos clubbers de alma dark. O set foi marcado por um techno denso, quebrado vez ou outra por algum vocal abafado ou uma percussão intensa, presentes nas tracks do alemão Rodhad. O talentoso inglês Daniel Avery foi ainda mais fundo, costurando o set com faixas bem sombrias, de bpm constante. Houve quem disse que faltou química entre a dupla, mas quem estava na pista entrou de cabeça na sinfonia dura, seca e direta dos rapazes. 

- Job Jobse
Melhor escolha para encerrar a pista ao ar livre, Jobse fez um set chique e classudo. Enquanto o techno comia solto nos outros palcos, o holandês preferiu seguir uma linha mais solar, apostando em faixas de house viajantes, sempre cheias de camadas e nuances, passeando pela disco e pela italo disco (como quando tocou o hit clássico ˜The Ultimate Warlod˜, por exemplo). E deu muito certo: ao longo de todo o seu set, o público não arredou o pé, fazendo jus aos óculos escuros guardados a noite inteira no bolso. Se a ideia era espalhar good vibes e lavar a alma dos guerreiros que chegaram até o fim daquela maratona eletrônica com sol cinzento batendo na cara, o jovem DJ acertou em cheio.

- Dixon
Mestrão da Innervisions, Dixon é um seletor como poucos. E um de seus segredos nos pick-ups certamente é a capacidade de envolver o público aos poucos, com sets crescentes cheios de faixas que parecem feitas para tocar juntas. Há menos de um ano, o produtor alemão fez um long set na ODD, em São Paulo, no qual passeou por muuuita coisa do house ao techno, de clássicos aos hits de agora. Desta vez, em um set mais curto, preferiu apostar numa atmosfera mais deep, com muita viagem e vocais certeiros. Começou com o bpm lá embaixo e foi subindo aos poucos, como quem te segura na mão e te leva para uma viagem daquelas bem etéreas, garantindo muitos sorrisos na pista e --o mais importante-- ouvidos e corações acalentados. Que venha o DGTL 2019! 


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Por Flávio Ghidalevich

Sábado mais esperado de todos os tempos, esse que vos fala foi com a missão de cobrir um dos festivais mais interessantes do ano: o DGTL. Ansiedade e animação transbordando, afinal a responsabilidade de fazer a cobertura era uma novidade. 

Entrei por uma entrada exclusiva destinada a imprensa e, já começo a ouvir o som do Zopelar, que ecoa por todo o complexo da pista Generator. 23h (cedo pra mim) e a pista já está lotada e enérgica. Aliás, o lugar escolhido para o evento, e a decoração foram alguns dos pontos altos que criaram o clima perfeito.

Corro para a pista Modular, para ouvir o live do Red Axes feat. Abrão. Pista preocupada em se divertir, na mesma frequência. Márcio Vermelho tocou em seguida e já começou pesado, na medida certa. O grave bateu no estômago, não tem como dar errado. 

Mas, minha pista preferida foi a Frequency, pista ao ar livre com uma atmosfera color disparada por canhões de luzes criada pelo duo Modular Dreams. Uma surpresa bombástica foi o back-2-back do Prins Thomas & Gerd Jason, luxuoso, passearam pela disco, house, com uma técnica e seleção musical de um bom gosto singular. O ponto alto do set, com o público fervendo foi quando tocou o clássico ''Make my Day''. Criei raízes nessa pista, não consegui sair dela por muito tempo. 2h30 entra na cabine a atração mais esperada da noite: Honey Dijon! Tive o imenso prazer de tocar com ela há quase 10 anos, no famigerado Dama de Ferro (RJ). Neste momento o coração bateu mais forte. Honey começou animada e com a pista simplesmente l-o-t-a-d-a, e indo ao delírio já na primeira música. Ela tocou música eletrônica de vanguarda, do house ao disco. Rolou até a diva Donna Summer no meio do set. Tudo isso acompanhado de uma brilhante lua.

Do lado externo (a mesma pista onde criei raízes), quase 8 horas da manhã de domingo, um dia lindo nascendo, pluaralidade na pista e poder ver o sol nascer, me fez sentir emoções intensas, vivenciar esse momento de divindade. Todas essas percepções ao comando de Job Jobse, que passeou por hits atemporais de Smalltown Boy do Bronski à Depeche Mode, encerrando o festival com a grata supresa de Shout dos Tears for Fears. Que set espetacular! Épico. Técnica e feeling absurdo.

O legal também é que o evento proporcionou uma varidade de performances artísticas e instalações. A cenografia estava imponente e espetacular, oferecendo ao público descobertas. As pessoas foram pela música e pela experiência, não só 'dar close'. A diversidade pra mim é muito importante e necessária, além da música para todos os gostos e pés, que foram do house, techno pesado a disco music. O line-up com nomes clássicos e não óbvios ajudou bastante. Nos bares bom atendimento, sem confusão e público good vibes dominando o local. A minha impressão é que esse combo deixou a sensação de organização quase impecável.

Pela curadoria musical e cenográfica apresentada, o festival ainda tem uma longa vida. 


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Por Marcelo Godoy

A pista Frequency do festival holandês, DGTL, foi concebida para abrigar sonoridades mais voltadas à house music.

Neste ano, o palco contou com as seguintes atrações (em ordem de apresentações): Linda Green, Luiz Pareto, Gerd Janson b2b Prins Thomas, Honey Dijon, Davis e Job Jobse.

Localizado na área externa do local, uma pista com projeções e a oportunidade de dançar sob o luar e o sol.

Linda Green, de Brasília, veio super montada - quase irreconhecível. E, foi recebendo os primeiros dançarinos em sua pista com gostosas batidas mais leves, beirando a Disco, Balearic e um House colorido.
Logo depois chegou Luiz Pareto, que com toda sua maestria e experiência, fez a pista bombar. Entre suas misturas de House, Electro e Tech House, ele olhava pra nós que acompanhávamos seu set na parte de traz da cabine e dizia, todo feliz: "Essa track é minha!"; "Essa também é!". E a pista respondia com muita alegria ao seu som característico. Acredito que no set de Pareto, pelo menos umas 5 ou 6 tracks eram de sua autoria.
Após Luiz garantir a bombação da pista, vieram Prins Thomas e Gerd Janson. Gerd deu seu tom à la Panorama Bar e Thomas, velho conhecido de terras tupiniquins, explorou batuques e ritmos que conversam muito bem com nossa latinidade. Sucesso garantido, pista lotada, mãozinhas para o alto e muitos gritinhos.
Mas, acredito que a atração mais esperada da noite foi a Honey Dijon.
Honey, como era esperado, trouxe sua House music bem uplifting, pra cima. Costurada com linhas clássicas, hits conhecidos e hinos das pistas de diversas décadas. Em sua entrada e saída, do portão de chegada à cabine e vice-versa, era parada por fãs emocionadíssimos, dizendo que a amavam, que vieram para prestigiá-la e com muitos pedidos para fotos. Ela, mesmo estando cansada e viajando há dias, era super simpática e adorável com a galera.
Já amanhecendo, Davis assumiu a cabine e manteve a energia em alta. O DJ que já é herói local, também apostou em alguns clássicos da eletrônica e apresentou novidades do parceiro Zopelar (uma track não lançada, depois descobri que se chama "A Broca" - bomba!).
A Frequency foi um sucesso, pista lotada o tempo todo e com uma vibe muito boa. Nesse embalo, o dj escolhido para fechar essa área do festival foi Job Jobse.
Ele chegou super animado, junto com Ben Klock e Dixon, comeu um burger de cogumelo antes para energizar e era só sorrisos durante sua apresentação.
Também tocando clássicos da dance music, trouxe ainda mais cor para o já colorido palco. Passeou em nuances de synth pop e old school rave e deixou o público emocionado, cantando junto. Assim foi, até por volta das 8:30 da manhã quando se deu o horário limite.

Essa pista open-air foi muito bem acertada, trazendo um ar diferente e mais leve do que as outras duas áreas do festival, onde o som era mais Techno e com ares industriais.

Muito legal ver o país não só em sintonia com a agenda internacional, mas dando show em produção. Vale lembrar que é impossível agradar a todos, e que há discussões de diferentes visões nas redes sociais.

As principais demandas se deram por questões como respeito e integração ao público LGBT+ e aos performers, que disseram sentir alguma forma de discriminação por parte do público e organização. Sem nenhum intuito de polemizar, e simplesmente trazer à luz da discussão saudável, eu particularmente acho que já foi um passo muito bom do evento em si abrir espaço para tais apresentações - sendo a única edição do DGTL no mundo a ter performances em suas pistas. Outros assuntos tocados nas redes sociais, foram o preço da água, a higienização dos banheiros e o preço do convite.

Um festival que teve mais de 13 mil pessoas, e abriu a oportunidade para mostrar uma coexistência de estilos, espectro de gêneros e tudo mais - tem o seu valor. Essa foi a segunda edição que tem espaço sim para melhorias, mas que também precisa ser contextualizado em tamanho, acesso, região e tudo mais. Passo-a-passo a cena brasileira vai construindo seu posicionamento global e creio que toda empreitada que visa tal integração e evolução de awareness social deva ser exaltado e levado adiante.


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Por Stefanie Gaspar

Embora um festival gringo em geral foque em destaques internacionais para atrair um público pagante maior, principalmente com a tendência mainstream dos eventos de música eletrônica no Brasil, o DGTL conseguiu dar o destaque justo para a cena nacional que movimenta as pistas e é responsável pela popularização de gêneros considerados underground.

Cashu, Davis, Linda Green, Luiz Pareto, Vermelho, Zopelar e Carrot Green representaram bem os brasileiros no line-up, com a maioria dos artistas tocando em horários nobres e tendo o mesmo peso dos gringos na hora de definir o line-up. O mesmo, entretanto, não aconteceu com os performers chamados para se apresentar durante os sets e em espaços de convivência do festival, que receberam pouca divulgação e menos atenção do evento. Aisha Fikula, Alma Negrot, Elloanigena Onassis, Euvira, Ilunga Malanda, Loic Koutana, Marquesa Amapola, Roberta Uiop, Rodrag, Transalien, Valença Keity, Valentina, Vola e Yala Yala foram alguns dos destaques da performance do festival, misturando dança, consciência corporal e intervenções políticas.

Len Faki - Sem surpresas para os fãs do DJ e produtor alemão, que puderam ver um set repleto de miminal techno cuidadoso e bem pesquisado, que ecoou forte pelo palco no meio da madrugada. O palco Generator permaneceu lotado durante todo o evento, e bombou muito no horário de Faki, que tocou pouco antes do set incrível de Henrik Schwartz.
Residente do aclamado Berghain desde a abertura do clube, Faki manteve o mesmo padrão de seus longos sets em Berlim. Mesmo por vezes caindo em uma fórmula e se tornando previsível, seu set bem pesquisado e boas produções mantiveram tranquilamente o padrão da noite.

DVS1 - Logo em seguida, o produtor e DJ DVS1, também residente do Berghain e dono de um som similar ao de Faki, manteve o tom frito e pesado da pista, mesmo sofrendo com o esvaziamento da pista pelo início do set de Honey Dijon. Embora não tenha animado o público da mesma forma que Faki e mantido o mesmo padrão já esperado de um set de techno pesado, o artista comandou bem a pista e conseguiu criar um bom equilíbrio entre uma apresentação regular e momentos mais emocionados e inesperados. Sutileza foi a palavra, com mudanças mais tranquilas de BPM e frequências e menos drops na pista.

Henrik Schwarz  - Ao lado do set lindo de Honey Dijon, o berlinense Henrik fez uma das apresentações mais esperadas e elogiadas do festival, e não deixou nenhum clubber parado. É um clichê muito comum categorizar um set majoritariamente techno como previsível ou mesmo maçante, mas a apresentação longa do artista mostrou que é possível trazer inúmeras nuances ao gênero, com toques também de acid, house e sutis mudanças de BPM. Seu live foi impossível de prever e emocionou os fãs de música eletrônica autoral, mostrando que a pista é um ótimo lugar para criar e para se relacionar diretamente com o público, mesmo em um formato mais impessoal de festival e longe dos ambientes mais intimistas dos clubes. O artista foi uma escolha certeira do DGTL, que mostrou boa curadoria e capacidade de agradar diferentes gostos do público.


O QUE DEU CERTO
- A locação: um conjunto de galpão inédito para festas e festivais na cidade funcionou muito bem para abrigar o DGTL, com cenografia urbana e fabril já praticamente pronta e muito espaço para as pistas (uma delas ao ar livre, um grande acerto).
- O copo único para bebidas: polêmica de cara, a medida do festival em oferecer um copo único para se pegar todas as bebidas (exceto água) foi essencial para evitar lixo no chão. Era preciso pagar uma taxa de R$ 5 para adquirir o copo e, ao final, quem devolvesse inteiro, levava o dinheiro de volta (sem fila, o mais importante!).
- Soundsystem e instalações: o soundsystem das três pista estava impecável. Som alto, limpo e claro, como deve ser em todo festival eletrônico. Um dos destaques da cenografia foi a instalação do artista Muti Randolph, que atraia todo mundo para um clique (espero que nas próximas edições possam ter mais obras como aquela, de diversos artistas contemporâneos, espalhadas pelo espaço).

O QUE PODE MELHORAR
- Horário: muita gente reclamou do horário das atrações (algumas colocadas logo cedo, antes das 23h) e também de mudanças de última hora. Há quem particularmente goste de festivais começando mais cedo, mas teve muito clubber que chiou e reclamou de ir embora da festa antes das 10h da manhã de domingo.
- Preço da água: uma garrafinha por R$ 10 é abusivo. Existia a opção de comprar a seguinte por R$ 5, levando a embalagem vazia da anterior, mas água potável deveria ser um direito gratuito para todo mundo que pagou o ingresso. 
- Camarote atrás do DJ: em todos os palcos, o grande número de gente atrás do DJ (não sei se eram oriundos de camarotes ou convidados VIP) era realmente assustador. Nem um pouco bonito e legal para quem está dançando e quer ver somente a performance do DJ. Multidão atrás do DJ em festival é algo muito cafona, não dá.