Resenha: “2012 – 2017”, A.A.L (Against All Logic)

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Em outubro de 2016, enquanto comentava o processo de produção do elogiado Sirens, segundo álbum em carreira solo, Nicolas Jaar disse em uma extensa entrevista à Crack Magazine se divertir com a repercussão da mídia em torno de cada novo invento autoral assinado pelo produtor nova-iorquino. “Eu sempre acho graça quando as publicações dizem coisas como ‘o primeiro single de Nicolas Jaar em três anos’, quando eu lanço diversos trabalhos com diferentes nomes“, respondeu enquanto citava algumas de suas principais criações.

De fato, em um intervalo de uma década, quando começou a se apresentar profissionalmente, o que não faltam são composições espalhadas em uma variedade de projetos paralelos. Ainda que o trabalho como Darkside, projeto assinado em parceria com o multi-instrumentista Dave Harrington, tenha recebido maior destaque por parte da imprensa, vide a boa repercussão do álbum Psychic(2013), sobram experimentações e diálogos com diferentes artistas, como a frequente contribuiçãopara o trabalho da cantora Sasha Spielberg, filha do cineasta Steven Spielberg.

 (Divulgação/Facebook)

(Divulgação/Facebook)

Curioso perceber que o projeto no qual Jaar mais tem se dedicado nos últimos anos seja justamente o de menor repercussão por parte do público. Pelo menos até agora. Sob o título de A.A.L (Against All Logic), o produtor de ascendência chilena passou os últimos cinco anos se revezando em uma série de composições inéditas. Fragmentos lançados de forma esporádica pelo selo Other People, do qual é dono, ou mesmo a partir de seleções piratas montadas pelo próprio público, como a mixtape que surgiu no YouTube em meados de 2016.

Sem grandes anúncios, passando quase despercebido, Jaar decidiu compilar todo esse material em um concentrado que resumiu como o primeiro álbum sob o título de A.A.L: 2012 – 2017 (2018, Other Music). São 11 composições, parte expressiva delas já conhecidas, porém, sutilmente finalizadas e espalhadas em um intervalo de quase 70 minutos de duração. Uma clara homenagem do artista nova-iorquino ao universo musical que floresceu no final dos anos 1980 e início da década seguinte, com a explosão e fortalecimento da House Music.

Centrado na explícita desconstrução de uma série de elementos há muito consolidados dentro da EDM, 2012 – 2017, assim como os dois últimos trabalhos de Jaar, Space Is Only Noise (2011), e principalmente Sirens, reflete a identidade musical do produtor mesmo nos instantes menos significativos. Enquanto resgata uma série de clássicos do soul/funk dos anos 1970 como base para as canções, ruídos, quebras e pequenas interferências eletrônicas distanciam o ouvinte de uma obra previsível. O resultado está na composição de faixas que mesmo dançantes, como I Never Dream, Some Kind of Game e Know You, a todo instante parecem brincar com a interpretação do ouvinte.

Claramente pensado para as apresentações ao vivo do produtor, a estreia do Against All Logic reforça de forma criativa uma série de conceitos originalmente testados em faixas como Three Sides of Nazareth e Coin in Nine Hands, ampliando a relação de Jaar com a produção de um material tão acessível quanto complexo. Da abertura do disco, em This Old House Is All I Have, passando pela inusitada inserção de I Am a God, do rapper Kanye West, em Such a Bad Way, cada fragmento do disco parece transportar o ouvinte para um novo território, porém, sempre preservando a essência dançante que segue de maneira explícita até a derradeira Rave on U.

(Conteúdo originalmente publicado no Miojo Indie)