Resenha: “Age Of”, Oneohtrix Point Never

Por Cleber Facchi (Miojo Indie)

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A grande beleza no trabalho de Daniel Lopatin como Oneohtrix Point Never está na completa imprevisibilidade de cada composição assinada pelo produtor. Em um território de pequenas incertezas, o artista nova-iorquino parece brincar com a interpretação do ouvinte, convidado a se perder em meio a fórmulas abstratas e rupturas estéticas que dialogam com diferentes campos da arte de forma autoral, sempre provocativa. Um contínuo desvendar da própria identidade artística, cuidado que se reflete na ambientação torta de Age Of (2018, Warp).

Trabalho mais audacioso musicalmente de toda a carreira de Lopatin, o registro de 13 faixas parte sempre de uma estrutura linear para, lentamente, se perder um universo de ruídos e corrupções estéticas. Exemplo disso está na autointitulada faixa de abertura do disco. Concebida em meio a pianolas medievais, a canção parece flutuar entre passado e presente, costurando mais de cinco séculos de música de forma tão sensível quanto anárquica, proposta reforçada na solução ruidosa e manipulação de samples da compositora inglesa Jocelyn Pook nos instantes finais da canção.

Quarta faixa do disco, The Station é outra que brinca de forma curiosa com a mesma desconstrução das formas instrumentais. Guiada pelo canto eletrônico de Lopatin, elemento de destaque durante toda a execução da obra, cada nota ou ruído sintético espalhado pela canção parece transportar o ouvinte para um território completamente novo, mesmo que próximo do restante da obra. Um ziguezaguear de ideias que ganha ainda mais destaque na letra inspirada pelo clássico O Enigma de Outro Mundo (1982), de John Carpenter — “Quero ver dentro do alienígena / Quero sentir seus órgãos do avesso“.

Livre do som turbulento testado por Lopatin em Garden of Delete (2015), Age Of faz de cada composição, mesmo a menor delas, um objeto de merecido destaque. Difícil não se perder pelas camadas de ruídos sobrepostos e ambientações detalhadas em myriad.industries e Manifold, ambas com menos de dois minutos de duração. Surgem ainda preciosidades como Black Snow, música que sintetiza de forma expressiva a completa versatilidade do álbum. Da letra pós-apocalíptica que busca inspiração em conceitos filosóficos da Cybernetic Culture Research Unit (Ccru), ao clipe delirante dirigido pelo próprio produtor, décadas de referências (e pesquisas) se revelam ao público de forma essencialmente instável.

São experimentações eletrônicas em que Lopatin, mais uma vez, reconstrói a música ambiente de forma particular, vide Warning; passagens breves pelo R&B, como na colaboração com ANOHNI, em Still Stuff That Doesn’t Happen, e até mesmo a trilha imaginaria para uma possível sequência do filme A Revolta dos Brinquedos (1992), em Toys 2. Pequenas fugas conceituais que tornam a experiência do ouvinte propositadamente incerta, proposta que vem sendo aprimorada pelo artista desde amadurecer criativo em Replica (2011). Até a capa do disco parece “ocultar” segredos. Trata-se de uma adaptação do designer David Rudnick para o trabalho do artista plástico Jim Shaw.

Pensado como um complemento à performance MYRIAD, espetáculo conceitual em que Lopatin busca inspiração no filme 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968), Age Of talvez seja o trabalho em que o produtor nova-iorquino explora com maior naturalidade os domínios da própria obra, pensando em todas as extensões do trabalho. Não por acaso, trata-se do registro com o maior número de colaboradores. Além de ANOHNI, com quem havia trabalhado no álbum Hopelessness (2016), nomes como Prurient, Kelsey Lu, Eli Keszler e James Blake surgem em momentos estratégicos do disco, forçando um permanente regresso do ouvinte a fim de que todas as camadas do registro sejam atentamente exploradas.