Resenha: “Knock Knock”, DJ Koze

Por Cleber Facchi (Miojo Indie)

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Knock Knock (2018, Pampa) é uma viagem. Do momento em que tem início, na etérea Club der Ewigkeiten, até alcançar a derradeira Drone Me Up, Flashy, cada fragmento do terceiro álbum de inéditas do produtor germânico Stefan Kozalla, o DJ Koze, parece transportar o ouvinte para um território completamente novo, mágico. São colagens atmosféricas, samples, batidas e vozes que flutuam por entre décadas de referências e pequenas variações rítmicas, tornando a experiência do ouvinte sempre inusitada.

Sequência ao material entregue pelo produtor em Amygdala (2013), além, claro, da bem-sucedida colaboração na série DJ-Kicks, lançada em 2015, Knock Knock brinca de forma propositada com a estranheza das formas e arranjos instrumentais. Um misto de delírio lisérgico (Music on My Teeth, Seen Aliens) e iluminação religiosa (Lord Knows, Jesus) que se reflete na lenta desconstrução de cada elemento ou ritmo detalhado pelo artista, como um passeio musical pela mente insana de Kozalla .

Exemplo disso está na curiosa montagem de Bonfires, terceira faixa do disco. Utilizando de trechos de Calgary, do norte-americano Bon Iver, DJ Koze não apenas transforma o canto melancólico de Justin Vernon na base da canção, como ainda costura pequenas variações e distorções sutis que ampliam os limites da música, convidando o ouvinte a se perder em um labirinto de sensações. Surgem ainda interferências sutis, como vozes e ruídos paralelos, interrupções aleatórias que borbulham durante toda a execução da obra.

Da mesma forma que o antecessor, Knock Knock cresce como uma obra de essência plural, musicalmente diversa. De flerte com o R&B/Hip-Hop em Colors of Autumn, passando pela música disco em Pick Up; do diálogo com a eletrônica dos anos 1990, em Illumination, parceria com a cantora Róisín Murphy, ao som atmosférico de Muddy Funster, melancólica colaboração com o veterano Kurt Wagner (Lambchop), faixa após faixa, Kozalla se concentra em bagunçar a experiência do ouvinte. Um ziguezaguear de ideias que faz da incerteza a única garantia do disco.

Dentro desse ambiente guiado pelas possibilidades, curioso perceber nos atos de maior recolhimento o ponto de grande destaque da obra. São músicas como a psicodélica Music on My Teeth, delicada parceria com o sueco José González que poderia facilmente ser encontrada no último álbum do The Avalanches, Wildflower (2016). A mesma leveza e ambientação cósmica se reflete nas duas canções em que Koze divide com a conterrânea Sophia Kennedy, This Is My Rock e Drone Me Up, Flashy. Respiros e melodias brandas que servem de passagem e estímulo para os instantes maior intensidade do disco.

Louco, como tudo aquilo que DJ Koze vem produzido desde os primeiros registros autorais, Knock Knock vai da euforia ao breve silenciamento sem necessariamente fazer disso o princípio para uma obra confusa. Do minimalismo apurado na construção das batidas ao uso de vozes picotadas que ecoam durante toda a execução do disco, perceba como Kozalla costura uma série de elementos que refletem a identidade musical o trabalho. Uma clara tentativa do artista em garantir ordem dentro de um cenário guiado em essência pelo caos.