Simples e sincero: uma entrevista com VAntonio sobre seu debut álbum, Humano

por Marllon Gauche

“A capacidade de realizar as perspectivas referentes ao aumento singular dos processos cognitivos, promovem radicalmente a incoerência necessária para viver de maneira inusitada, flutuando dessa forma, ironicamente através da proeminência racional da vida”. Essa é uma frase que um dia li pela internet, de Arnaldo Joaquim, que pode ser encaixada perfeitamente neste contexto para introduzir o perfil de Vinicius Antônio aka VAntônio, que estará lançando seu debut álbum, Humano, no início de outubro pela D-EDGE Records Black, sublabel da D-EDGE Records.

Vini é um amante não só da música eletrônica, mas da arte em geral. Fotografia, cinema, culinária… Ama criar explorando texturas, descobrindo ruídos e testando novos sabores, até mesmo aqueles que ele nunca havia provado até então. É através destes pilares que ele constrói um trabalho estético bastante singular, com forte identidade musical, cujo principal fator é a sinestesia. O VAntonio se apresenta sábado (12) no D-EDGE, tocando o álbum dele na íntegra no formato live.

Na entrevista abaixo tudo isso fica ainda mais claro. Depois que li e reli nosso bate-papo, confesso que fiquei ligeiramente mais ansioso para conferir o álbum na íntegra. Confira:

Olá, Vini. É um prazer falar com você! Humano: um nome simples, profundo, marcante e sincero. Essas são características presentes no seu álbum? Que outros elementos e sensações você buscou colocar nas faixas?
Olá, pessoal! Legal demais conversar com vocês. Vamos lá:  marcante e profundo? Bem, vai depender da “leitura” e relação de cada um com meu trabalho, e não me “atreveria” a definir isso. Claro que “tocar” de forma marcante e profunda é o desejo que rodeia o meu ser e acredito que o trabalho de todo artista. Agora interessante você falar “simples e sincero” — aqui foi onde eu mais “apanhei” e, sinceramente (rs), não sei se consegui ou vou conseguir um dia. 

De certa forma, o que inspira o nome e o trabalho do álbum foi esta busca ao espontâneo, natural, simples e sincero. E como “ser humano”, é logo ser social, que se relaciona e se influencia de tudo quanto é coisa, fica muito difícil ser realmente simples ou ter a sensibilidade de não ultrapassar limites sem uma necessidade sincera. De forma mais prática: é questionar se realmente um instrumento, sample ou qualquer elemento é necessário. 

Outro  exemplo no arranjo é questionar se você está fazendo um “break” para agradar um padrão. Diante de uma situação desta, você pode simplesmente não ter break, posicionar ele de forma “errada” ou ainda  fazer um “break infinito” que seria “um pedaço de silêncio”, como John Cage fez em 4’33.

Você já lançou alguns singles e remixes e agora chega com um álbum super completo. O que ele possui de diferenças e semelhanças em relação as faixas já produzidas anteriormente?
Sim, é uma abordagem totalmente diferente (e eu não sabia). Quando comecei o Humano no final de 2017 estava em um fase de criação musical, principalmente para o meu live quase que em linha de produção industrial. Chegava a produzir mais de uma faixa por semana testadas na pista e “funcionavam”. Isto talvez “solto” em um single também funcione e na minha cabeça o álbum seria “fácil“. Tanto é que em um pouco mais de dois meses eu dizia para os mais próximos que “já estava pronto”. 

Mas na verdade era um monte de faixas soltas ou no máximo enfileiradas. Aí tive minha primeira frustração e questionamento. Juntou-se à isso questões pessoais na minha vida que me levaram ao isolamento e um período de quase dois anos revisando este trabalho. Sendo que neste período fiquei quase 4 meses, sem ouvir música nenhuma, sem celular, sem rede social. Foi um período reflexivo, um silêncio dentro deste período de produção do álbum onde paradoxalmente eu mais “produzi”, mesmo que sem efetivamente tocar em nada.

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Você consideraria que a estética dele é mais criativa, experimentalista, ou há um equilíbrio entre as duas frentes? 

Há um equilíbrio. Não é e nem se pretende ser como um trabalho disruptivo, porém ao mesmo tempo é algo que você gostando ou não — não tem um estilo, uma linha ou uma referência única e fácil de identificar. Isto se junta com a sua primeira pergunta de ser simples e sincero: algo que sempre busco (com dificuldade) nos meus trabalhos e naturalmente traz uma identidade. É um exercício que convidaria outros artistas a fazerem.

Soubemos que a mix do álbum foi realizada por Hannes Bieger, um verdadeiro mestre na área. Quais os principais aprendizados desse período que você passou com Hannes em Berlim?
Ficamos uma semana no estúdio dele trabalhando totalmente dedicados ao álbum. Como consequência claro, foi uma oportunidade única de aprendizado técnico, porém o principal — foi o tanto que é importante a acessibilidade e humildade. Apesar  do Hannes ter uma experiência muito maior que a minha, trabalhar com artistas consagrados e que inclusive são referência para mim, era também ao mesmo tempo estar com um amigo (sendo que foi nosso primeiro contato), livre para questionar e ser questionado.

Almoçamos juntos, conversávamos de tudo, de cinema à política, o que me fez “sentir em casa” e reforçar a importância que há pouca distância entre nós, independente de onde e em que momento da vida estamos. A última faixa do álbum, Humanós, “fala” disso.

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Além da música, culinária e fotografia também são duas paixões suas, certo? Há alguma referência disso em algum ponto do álbum? Quais outras referências/influências pessoais estão presentes no disco?
Sim, tenho muitas paixões, mas não existe nenhuma referência direta à elas neste trabalho. Neste álbum busquei ter o mínimo de referências externas, apesar de ser inevitável que tudo indiretamente tenha alguma influência.

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Você passou por períodos sabáticos antes de mergulhar definitivamente na música. Quais as melhores conclusões que você tirou durante este tempo de novas experiências?
Que precisamos de mais hiatos, de parar mais e que “dar um tempo”  é sempre necessário e faz bem. Provável que não consiga um isolamento tão intenso como este último, que envolveu diversos fatores (inclusive negativos), imprevistos e que não foi nada planejado.

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Para finalizar: quais são os planos pós lançamento do álbum? No que exatamente você pretende focar? Trabalho de estúdio, live performances ou projetos educacionais? Obrigado pela conversa!
Um álbum de remixes para primeiro semestre de 2020, “sair da toca” e voltar a tocar. O MIDITerapia sempre andou junto com meu trabalho, estou retomando agora de uma forma diferente, com foco no Norte e Nordeste do país. Estou fazendo tudo com calma, sem perder a intensidade e principalmente conseguindo começar e terminar. Eu que agradeço a conversa!