Um bate-papo com o DJ Apoena, um mestre da cultura do vinil brasileira

Por Alan Medeiros (Alataj)

Um dos ícones da música eletrônica ligada a cultura do vinil, Henrique Casanova aka DJ Apoena, faz aquele perfil de artista no estilo old school clássico. Consciente do papel que pode exercer na vida das pessoas através da música, ele deixa o glamour de lado e por vezes até é um tanto quanto breve ao falar da complexidade que envolve seu trabalho, tanto no DJing, quanto a frente da Allnite Music.

Henrique foi tocado pela cultura do vinil nos anos 90 e desde então se jogou de cabeça nesse universo, por vezes como um mero entusiasta, outras vezes como um player importante deste cenário. Sua gravadora é um sucesso de vendas na Juno Records e até aqui, todos os releases lançados por Apoena na Allnite tiveram sold out confirmado. Um novo capítulo dessa história está sendo contado com o EP Nebulosa, lançado recentemente na Juno.

Logo após o lançamento, o disco chegou a figurar entre os mais vendidos da plataforma. Composto por 3 faixas originais. Nebulosa apresenta um Apoena absolutamente certeiro para o dance floor, provando que seu feeling de DJ está constantemente afiado. Nesse bate-papo exclusivo, Henrique fala de forma profunda sobre alguns dos principais pontos de sua jornada na música:

Olá, Henrique! Tudo bem? Obrigado por nos atender. O mercado do vinil tem algumas particularidades interessantes e bem diferentes do que acontece nas plataformas digitais, por exemplo. Entender esses detalhes foi decisivo para jornada de sucesso da Allnite Music?
Sem dúvida que sim. Definir uma logística que faça o processo todo ocorrer como deve, dentro da distribuição da indústria internacional do vinil, foi algo que só consegui fazer depois de anos acumulando informações e conhecimento sobre o assunto. Principalmente por que a Allnite Music é sustentável, ela se mantém. Não é como um investimento ou cartão de visitas. Os custos retornam. É uma missão muito difícil por que além da logística o disco tem que ir bem.

Na sua visão, quais fatores podem ser apontados como denominadores da boa reputação da Allnite neste meio? Você possui bons resultados desde o seu primeiro lançamento em vinil?
Eu acho que, mais importante do que o conhecimento sobre a logística, a chave para a vitalidade da Allnite Music é meu conhecimento estético da indústria. Sou entusiasta desse mundo desde 1999, sei bem quais as linhas de House e Techno que nós, dessa indústria, gostamos, sei a que tradições ela se agarra. É bem diferente da indústria digital, ela tem uma cara própria. Quem consome nessa indústria há anos entende isso. Tem uma pegada old school, as coisas boas de cada período se perpetuam e a influência lá dos anos 90 nunca foi perdida. A Allnite fala exatamente sobre isso.

No outro lado da linha quando o DJ que tem essas mesmas culturas escuta ele saca que esse é o som dele. Honestamente nunca almejei ter uma relação tão simbiótica com a indústria. Eu só queria fazer parte, mas tantos anos vivendo isso com tanta dedicação estão trazendo agora essa realidade. Cada disco que sai vai bem. Dos 7 lançamentos da Allnite apenas um deles não vendeu o necessário. Mas isso é muito incerto, o disco não é pior que os outros. Mas se não chama atenção no início, não escala as listas e desaparece.

A maior parte dos lançamentos da Allnite são assinados por você mesmo. Há uma razão específica pra isso? Você gostaria de trabalhar com mais artistas lançando na gravadora?
Tem duas razões básicas. Primeiro por que a logística é demorada e eu não consigo lançar mais de 2 discos por ano, 3 no máximo. Já considero isso um ritmo lento pra expor minha produção. O que tenho lançado é só a ponta do iceberg de tudo que eu tenho pronto. O segundo motivo é mais delicado: eu preciso acreditar muito em cada disco por que sendo brasileiro, pagando o processo em libras esterlinas, não posso errar. Já aprendi na prática que vinil não é lugar pra tentar alavancar alguém ou fazer mídia com outros artistas. Não funciona. O som tem que ter muita maturidade pra escalar as listas e não tem a ver com a track ser comercial ou under.

Toda a nossa indústria é Under, então isso tem a ver com responsa mesmo, difícil explicar. Pra lançar um EP na Allnite o mínimo que eu espero do produtor é que ele tenha seu próprio caminho trilhado na indústria do vinil, com discos fodas. O Allnite 002 é um bom exemplo disso. Fiz um split EP com o Alex Agore, alemão que pra mim é um dos maiores nomes do House. Eu sei a qualidade do cara, eu toco os discos dele. Ouvi as demos tracks dele e peguei duas que são das melhores coisas que ele fez na vida. Eu dei sangue para manter o nível no lado B. Fizemos um disco lindo (Basement Jam EP) que esgotou em 2 meses. Mas é difícil um cara tão bom estar disponível para um projeto assim.

Nebulosa EP, seu novo disco, possui estética e construção bem voltada ao dancefloor, certo? É possível dizer que este é um release pensado de um DJ para outros DJs?
Pra mim sempre é. Eu amo tocar, mixar. Pitch pra mim é a alma de tudo. Sempre que eu faço uma track eu me preocupo com estrutura. Mesmo as mais deeps, faço pra tocar. Então a estrutura sempre está lá nas minhas produções. O lance com esse disco é que ele é mais Tech House mesmo - no bom sentido do termo. Está na faixa de transição entre o House e o Techno. Muitas vezes meu som é mais deep, esse dá pra tocar em momentos um pouco mais quentes.

Pelo segundo lançamento consecutivo a Juno inseriu seu próprio review na descrição do disco. O que isso representa exatamente pra você?
Isso já tinha acontecido em outros também. O primeiro disco que eu lancei na vida foi o “Falando Sério EP” por um selo inglês em 2010. Eu lembro que no fim daquele ano saíram as listas da Juno de melhores do ano por estilo e ele estava em 14º. Achei maluco por que na época eu tinha apenas realizado um sonho de muito tempo, mas nem sabia se lançaria mais alguma coisa. Aquele disco entrou em chart também, Delano Smith, Luke Hess, Agoria, Burnski e outros.

O dono do selo na época me disse que a equipe da Juno tinha gostado e perguntaram coisas pra ele tal. Desde então, quando sai disco meu lá volta e meia eles fazem review. Uma vez foi assinado, mas eu não lembro se guardei aquele nome anotado em algum lugar. Agora não assinam mais. É uma questão mais de ego pra mim saber que alguém reconhece e lembra da trajetória, cita outros artistas, comparando referências que eu realmente tenho e tal. Mas, claro que também é uma coisa profissional deles. Provavelmente faz parte do trabalho de alguém escrever sobre alguns discos toda semana.

Cada DJ possui um perfil artístico diferente. Alguns se destacam por uma pesquisa contemporânea, outros pelos clássicos. Há também aqueles que discotecam 100% em vinil ou ainda os que buscam misturar diversos movimentos musicais em seus sets. Como tem sido sua busca em relação à construção desse perfil sonoro que é tão importante a longo prazo?
Nesse sentido eu mudei com o tempo. Perdi a coisa de ser 100% em vinil e acho que tomei a decisão certa, misturando CDJ e vinil. Até porque, DJ brasileiro não consegue comprar tanto disco quanto gostaria, pagando 4 pra 1. Meu segredo não está exatamente na mídia de tocar e sim onde eu procuro meu som. Meu universo de pesquisa são as lojas de disco e isso, como eu disse antes, define estética musical. Não é só questão de mídia.

Como DJ e produtor ativo desde os anos 90, certamente você possui uma visão privilegiada sobre o crescimento da dance music nas últimas décadas. Pra você, como foi analisar o movimento que tirou house/techno do profundo underground e o colocou à disposição de milhares de pessoas em palcos de grandes festivais e super clubs?
Pô que pergunta difícil hein. Melhorou ou piorou? Olha, eu tenho saudade sim do tempo que Techno era música de maluco, de freak. O tempo que o perfil do público era galera GLS, muitas vezes de periferia. Mas é legal também o mercado ter crescido e existirem tantas festas grandes. Mas, sendo sincero, o meu microuniverso mesmo não é muito contemplado por esse novo mercado. Vem DJ com nome grande mas que eu nunca vi nas minhas pesquisas, sei lá por que são grandes, enquanto a maioria dos meus favoritos mesmo nunca toca por aqui.

O que eu gostaria de ver é a cena menos polarizada. Tipo, tem a festa hétero camarote e a festa gay de rua. E uma parece não gosta da outra - o que também traduz bem o momento histórico do Brasil. Tento mostrar como eu gostaria que as coisas fossem com a minha festa, a Cosmic em Porto Alegre. Tem a estrutura mínima necessária, é barata e focada no som. Lidamos com o público diretamente sem estrelismo, tentando ter sempre um ambiente de tolerância. Evito agências grandes, trago DJs que eu sei que são foda, muitos com décadas de trajetória e que o mercado mais formal não valoriza. Nos nossos flyers não tem nome grande e nome pequeno. Não somos reféns disso.