XAMA 2019: incandescente e independente

Texto Francisco Cornejo
Fotos Francisco Costa, Eduardo Magalhães, Lucas Carneiro Neves

xama%2B5.jpg

Difícil explicar um fenômeno em sua primeira aparição assim como é extremamente complexo definir um evento em sua primeira ocasião. E aqui o desafio que se põe é o de resenhar um festival bastante inovador em sua proposta e autêntico em seu formato. Pois, convenhamos, festividades de final de ano abundam, especialmente com esse longo e lindo litoral do qual dispomos para qualquer atividade hedonista. Contudo, isso também faz com que as ideias gerais que informam esses eventos tendam a ser muito parecidas e o panorama mais amplo acabe ficando um tanto homogêneo.

Em meio a esse cenário, não deixa de ser digno de nota o fato de que o XAMA 2019 conseguiu executar algo bastante original em sua primeira edição e, com isso, capturar as expectativas e preferências do público até mesmo antes de acontecer. Muitas das festas que compunham o intenso calendário já se encontravam com ingressos previamente esgotados e o burburinho ao redor de como tudo iria se desenrolar na véspera era de inconfundível euforia.

Moretz

Moretz

Obviamente o fator de ineditismo conta a favor de qualquer iniciativa desse tipo, mas aqui ele foi habilmente usado para que o mote curatorial principal tivesse a ênfase merecida: DJs de diversas regiões do país reunidos através de seus coletivos formando um exuberante quadro da rica musicalidade dançante brasileira contemporânea. Uma proposta sedutora para o público e desafiadora para os organizadores em diferentes medidas que acabou por cumprir seu papel e atraiu festeiros animados, munidos da disposição necessária para aproveitar tudo que lhes era oferecido da melhor maneira possível.

Isto, vale lembrar, não é um feito banal, pois a resistência, indiferença ou o simples ceticismo que usualmente acompanha escalações que se sustentam em talento estritamente doméstico são alguns dos mais nocivos elementos característicos a uma cena periférica como a nossa. Aqui, no entanto, todos os nomes e seus respectivos repertórios se somaram para criar um mosaico sonoro que agradou a todos de diversos modos e nos mais variados momentos.

Barbara Boeing

Barbara Boeing

Os primeiros movimentos se deram no XAMA Bar, o epicentro das atividades que ocupou o Tikal como ponto de encontro geral, abrigando as festas gratuitas que rechearam praticamente todos os dias do festival os locais de partida dos traslados para as demais que nos levaram a belos destinos no interior da península. Muito adequadamente, o pontapé inicial foi dado pelos coletivos anfitriões, representados por Caio T da Gop Tun e Trepanado da Selvagem, acompanhados por Barbara Boeing da Alter Disco de Curitiba e gravado pelo do canal musical Na Manteiga diretamente de seu delicioso recanto no lago. Assim, mesmo quem não quis ou pôde se aventurar desde o começo em terras baianas teve a oportunidade de apreciar sets que marcaram um auspicioso e inclusivo início para o evento que terminou numa sublime noite enluarada cuja exótica trilha foi costurada por um colorido time sudestino formado pelo carioca Pedro Zuim, o paulistano Pedro Bertho e o belorizontino Rache.

A manhã do dia seguinte nos recordou da intensidade da programação e da impossibilidade de conferir tudo que um festival tem a oferecer, mesmo um tão cuidadosamente dimensionado. Mas a nau das seletoras era indubitavelmente a pedida do dia e a escuna nos levou rio adentro por belíssimas paisagens numa ensolarada tarde de quarta, propelida por sets que nos foram ainda mais longe em termos musicais. Moretz, a jovem estrela da trupe belorizontina 101Ø singrou por vertentes da House e Disco e preparou uma pista fervente, cujas temperaturas foram deliciosamente trabalhadas por Barbara Boeing durante as partes mais ardentes de uma tarde que desaguou num set eclético e exuberante de Valesuchi, um dos pontos altos de todo o percurso.

Em terra firme, a programação do XAMA Bar provia qualquer coisa menos descanso para os presentes, em sua maioria recém-chegados que já eram apresentados ao ritmo de atrações e surpresas que pontuaria toda a jornada. Aqui, todos os DJs trouxeram algo de particular para a mistura, desde a envolvente progressão temática e rítmica que um experiente inaugurador de palcos como Nascii apresenta com inabalável consistência até as fabulosas excursões lideradas pelos demais embaixadores da Alter Disco, Rotunno e Phil Mill e a finalização certeira do chanceler carioca-curitibano da Discoteca Odara, Dani Souto. Mas a grande surpresa da noite que nos deu foi TYV com um live set em que exibiu uma persona artística totalmente nova e nos guiou por uma viagem através de sua criatividade e sensibilidade por meandros até aqui desconhecidos mas igualmente fascinantes.

Apenas dois dias de festividades já haviam deixado claro o recado: cada momento a ser vivido naquele local idílico repleto de deleites aurais. E, à medida que o XAMA Bar cumpria sua função como ponto focal das atividades pelas mãos dos gaúchos Cevallos, JP e PH da NEUE, a elasticidade do tempo se tornava mais evidente. A primeira festa de maior porte nos trouxe a uma colina localizada exatamente entre a Praia de Algodões, onde se situa o Tikal, e Taipu de Fora, onde as piscinas naturais formadas pela oscilações das marés são um dos mais preciosos tesouros naturais do estado.

A visão geral da península de uma perspectiva privilegiada e um nascer do sol esplendoroso formaram o cenário ideal não somente para que os talentos dos DJs brilhassem, como também o genial trabalho do estúdio 28Room. O “hangar cromático” que criaram proveu abrigo e estímulo para os corpos que eram movidos ininterruptamente pela imensidão de sons que nos era revelada a cada instante. O time composto por Gigios da Climão do Rio, o francês Craig Ouar da DOMPly, Barbara Boeing e a dupla da Selvagem fez ressoar por aquele vasto horizonte ritmos tão diversificados que iam da hipnose do Acid à malemolência do boogie brasileiro e transformou quase doze horas de música num denso trajeto que nos impulsionou noite adentro de modo vigoroso.

xama+1.jpg

Vigor este que também se mostrou fundamental a partir daquele momento para qualquer um que pretendesse usufruir ao máximo de tudo que o festival tinha a oferecer em suas múltiplas frentes. Assim, a próxima pista do XAMA Bar seguia ainda mais vibrante por conta das oferendas sônicas trazidas pelo sempre consistente Gui Scott, o espirituoso Pino e os emissários da festa carioca RARA, cada um trazendo mais matizes ao pôr-do-sol de Algodões e sabores particulares ao caldo musical que vinha sendo preparado desde o começo e fervido em fogo lento. Mas nada poderia ter nos preparado para a sofisticada síntese rítmica entre forró e eletrônica que a dupla brasiliense Forró Red Light criou e nos apresentou ali, varrendo qualquer cansaço corporal com seu arrasta-pé futurista para que, logo em seguida, fôssemos arrebatados pela irresistível energia emitida pelo frenesi seletivo de Omoloko, provavelmente um dos mais promissores talentos a sair de BH nos últimos anos.

O penúltimo dia do ano anunciava mais dilemas para aqueles atentos à programação e às descobertas que ela traria. Embarcar na boat party da Gop Tun implicava em se ausentar de outro evento que juntaria na mesma tarde nada menos que Millos Kaiser, Guerrinha, Rico, Cauana e Carrot Green. Para aqueles que sucumbiram ao ímpeto navegador e se lançaram na aventura fluvial conduzida pelo quarteto paulistano não coube qualquer tipo de arrependimento. A embarcação seguiu rumo à cachoeira do Tremembé, outra das dádivas naturais que deram ao evento um de seus mais importantes trunfos, ao som de algumas das faixas que marcaram a trajetória e fizeram a pujança do coletivo em seus seis anos de existência. E, melhor ainda, regressou a tempo de que voltássemos para ver Guerrinha botar fogo na pista do XAMA Bar.

O momento apoteótico da transição se aproximava, ainda que a frequência dos eventos fizesse com que parecesse um dia como qualquer outro em meio a tantas atrações. Mais uma sessão do Na Manteiga agitava a bucólica lagoa do Tikal que tomou como base e celebrou o último crepúsculo do ano com uma variedade musical que abrangeu de library music a Afrobeat, alternando momentos contemplativos, festivos e abrasivos nas seleções do correspondente Matt McDermott, Guerrinha, Forró Red Light e Moretz.

E com um aquecimento assim prenunciando a virada, foi uma questão de controlar humores e calores noite adentro, agora na pista que se escondia atrás da cabine do XAMA Bar e era então inaugurada. Os sons de Pedro Bertho preenchem-na com uma firme malha rítmica, tão densa e empolgante que mal é interrompida pela tradicional contagem regressiva e é ainda reforçada na seleção de Carrot Green quando assume o comando da cabine. Assim que a trupe da Gop Tun invade a cabine, a textura sônica predominante, hipnótica e percussiva, dá lugar a elementos melódicos mais marcantes e as levadas começam a transitar por uma infinidade de estilos e temporalidades, por vezes evocando os noventa, por outras celebrando os setenta ou mesmo relembrando os oitenta, mas sempre nos mantendo nesse delicioso presente que era coroado com um auspicioso nascer do sol em Algodões. O Sol começava a arder e a pista continuava a ferver, agora graças à possante investida de Valesuchi, levando-nos direção a paisagens mais próximas ao Techno, fortes o bastante para manter a energia e melódicas o suficiente para fazê-la dissipar no momento certo.

O restante das forças em movimento que formavam momento sublime foi dirigido à lagoa para que corpos fossem refrescados, corações apaziguados e mentes continuassem a ser estimuladas musicalmente. Ali, sob as temperaturas escaldantes do sol a pino da Bahia, todos os presentes dedicavam seus derradeiros esforços à celebração que era comandada por uma mixórida de seletores. E é difícil pensar numa cena mais simbólica daquilo que rolava que o efeito que “Like A Prayer” de Madonna teve nas águas, quadris e pés assim que Vittorio, legítimo herdeiro de Trepanado, soltou-a no meio de sua participação nos trabalhos da cabine.

Após um dia de resguardo, o que resta é o rescaldo. Longe de sinalizar qualquer tipo de diminuição no passo ou perda de potência. A finaleira já prometia privilegiar as sonoridades mais duras e sombrias que até o momento haviam sido relegadas a um segundo plano que se fez mais presente durante os pequenos e reservados afterhours que pontuaram de modo algumas das alvoradas anteriores ou em ocasiões específicas de maior furor pisteiro noturno. Foi nessa pegada que a trinca formada pelo veterano juizforense Kureb e os incensados paulistanos Vermelho e Cashu se embrenharam na escuridão cintilada por um poderoso luar e abriram caminhos para que pudéssemos nos perder e reencontrar noite adentro. O primeiro com pinceladas de synthpop e industrial enriquecidas por uma rica paleta de excentricidades europeias, o segundo se valendo de sua sensibilidade e imenso repertório para se guiar através de sombras e luminosidades sintéticas e a terceira desferindo uma colossal e contundente série de ritmos fraturados que consumiu o que restava de todo o material comburente - musical, corporal, emocional - que ainda se encontrava naquele espaço.

xama+2.jpg

O último dia, ao contrário do que se poderia imaginar, foi marcado por uma impiedosa sequência de eventos que novamente punham à prova as capacidades físicas e psíquicas de qualquer um ainda disposto a devotar suas forças vitais remanescentes para fins dançantes. Mesmo assim, tinha algo para todo mundo e em quase todo lugar, desde a última expedição fluvial com Selvagem na proa e alegria na pista; mais uma transmissão pelo Na Manteiga, cortesia de um magnífico time que contou desbravadores brasileiros e estrangeiros como Berg, Fantastic Man e Cevallos em suas fileiras; e, por fim, o final real oficial, em que os membros dos núcleos anfitriões (e foliões) se revezaram numa jornada predominantemente houseira que encerrou as atividades numa nota diferente ou mesmo destoante do clima já melancólico de despedida que se instalava.

Enfim, o XAMA se instalou já como uma promissora proposta de festival que superou muitas das expectativas depositadas nele já de saída, mas também mostrou como ela mesma pode ser aprimorada a fim de se tornar ainda mais inclusiva curatorialmente e abrangente musicalmente, podendo até mesmo colocar mais talentos nativos da região entre os artistas. Afinal, este é um desafio que se coloca a partir do momento em que seu conceito se sustenta na riqueza artística de um país enorme como este, uma que sempre foi celebrada pelos coletivos centrais, Gop Tun e Selvagem, em suas diversas empreitadas, mas pode ser ainda mais alardeada e apreciada através de um evento que acertou tanto em tantos quesitos em sua primeira edição.

xama.jpg