YOLA lança EP em parceria da cantora sul africana Toshi

Por Alan Medeiros (Alataj)

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É senso comum o poder que a música possui de comunicar sentimentos e promover a conexão entre pessoas de diferentes origens e crenças. Por alguma razão especial, ela aproxima estranhos e fortalece os laços daqueles que já possuem algum tipo de relacionamento. Boa parte dos grandes artistas encaram seus trabalhos como uma verdadeira missão em prol de um mundo melhor e esse sentimento se fortalece em obras que possuem um forte apelo emocional, como no caso do EP Avalo, release do brasileiro YOLA.

YOLA é a alcunha artística de Diogo Siqueira, DJ e produtor que tem a música em sua rotina de vida desde muito jovem - há cerca de 10 anos, ele trabalha com projetos de estúdio e bandas. Mais recentemente, Diogo criou o projeto YOLA como escape para os seus trabalhos voltados à música eletrônica. Após um single de estreia em 2017, Diogo convidou a cantora sul africana Toshi (que já colaborou com Black Coffee e Andhim) para colaborar na faixa Thando, que ao lado de Ama forma o EP Avalo.

Seu novo release ganhou a luz do dia no último dia 18 através do selo paulista Primatas Records. O EP reflete um período de grande representatividade emocional para Diogo, que infelizmente perdeu seu pai no último ano. Avalo acabou se tornando uma homenagem para aquele que, segundo o próprio artista, sempre o incentivou a trabalhar com o que realmente ama. Neste bate-papo inspirador, Diogo Siqueira conta mais detalhes sobre seu relacionamento com a música e o processo criativo do EP:

Olá, Diogo! Tudo bem? Obrigado por falar conosco. Seu EP de estreia saiu recentemente pela Primata Records. O que esse momento representa na sua trajetória pessoal e profissional?
Fala pessoal, tudo bem! Muito obrigado pelo convite. Sim, lançamos no dia 18/01, é meu primeiro EP com esse projeto de música eletrônica. Minha trajetória pessoal e profissional passam por momentos muito diferentes, mas acabaram se encontrando ainda mais nos últimos 6 meses. 2018 foi o ano mais difícil da minha vida pessoal, entre muitas dificuldades e lutas, em Agosto perdi meu pai da noite para o dia, repentinamente. Não consegui mostrar minhas músicas pra ele e, ele que sempre me apoiou a fazer aquilo que eu realmente amo (meu pai era piloto de avião há 50 anos e amava o que fazia), me falava "Diogo, você tem que gostar do que faz e vai ser feliz".

Conto essa história pois após a perda do meu pai resolvi largar o emprego que não estava me fazendo bem (eu era designer/diretor de arte) e tentar viver daquilo que sempre fez sentido na minha vida, que é a música. Minha história na música começou cedo, comprei um surdo e um repinique com uns 11 anos porque pirava em Olodum, com 12 anos comprei uma guitarra, tive banda minha vida inteira, lançamos disco, clipe, singles, etc, estudei engenharia de áudio no IAV em 2007, trabalhei em estúdio e depois disso tudo fiquei uns 3 anos longe da música. Em 2017 comecei esse projeto eletrônico, lancei um single naquele ano e de lá para cá voltei a produzir e a compor. Lançar o "Avalo" representa o recomeço dessa trajetória na música e o início de uma série de singles que venho trabalhando no último ano. Estou muito empolgado em poder compartilhar minha música com as pessoas.

Avalo é um EP com características bem particulares, que não se encaixam exatamente no que há de mais comum na cena nacional. Quais foram suas principais referências e inspirações para produção das faixas?
Hummm...é difícil eu citar uma inspiração, acho que foi um processo que acabou envolvendo muitos aspectos da minha vida, música pra mim sempre foi sentimento, emoção, instinto, é algo que sai naturalmente sem esforço, acaba sendo aquilo que eu sou mesmo. Pra mim sempre foi assim desde a época da banda, as vezes pego um violão e começo algo, às vezes sento no estúdio, às vezes vem uma ideia na hora de dormir, enfim... também acho que não tive uma ou algumas referências quando comecei a produzir o EP, eu sentei e fui compondo, as referências acabam sendo tudo aquilo que eu escutei e escuto durante minha vida. Tive uma época hardcore quando era moleque, depois comecei a curtir uns Radiohead, As Tall as Lions, The Appleseed Cast, Slowdive e muitas outras... hoje em dia tem muita banda foda... Terno Rei, Happyness, Tame Impala, Homeshake, Kurt Vile, Unknown Mortal Orchestra, etc. De 2017 pra cá comecei a conhecer mais a fundo esse cenário eletrônico, estou no começo dessa exploração [risos], mas tem muitos artistas que me agradam muito: Four Tet, Stimming, Rampa, DJ Koze, Christian Löffler, Johannes Brecht, Couros, Jacques Greene, Mano Le Tough, Trikk, Moderat, Baba Stiltz, Leon Vynehall, Baltra... puts tem uma galera!

Logo em seu primeiro release você conta com uma colaboração da vocalista sul-africana Toshi, uma das vozes mais importantes da atual dance music, com participações com Black Coffee, Manoo, Andhim, entre outros. Como isso foi possível? O que você pode nos contar sobre o fluxo de produção da faixa Thando?
Então, com a Toshi foi algo bem natural e espontâneo...Quando estava no meio do processo de produção da Thando, senti que queria um vocal feminino, algo que somasse ao campo melódico da música e ao mesmo tempo trouxesse emoção e uma mensagem. Comecei a pesquisar algumas vozes e conheci a Toshi por um remix do Andhim que chama "Ngeke", acho que esse remix acabou sendo um dos mais comprados no Beatport e no Traxsource de 2018.

Fui procurar mais sobre ela e conheci outros trabalhos que ela fez com o Black Coffee na música Buya, um remix do Manoo também, entre outras. Gostei muito do timbre de voz dela, achei uma voz mágica, muito especial e singular. Enviei uma mensagem no Facebook e ela acabou me respondendo falando que tinha gostado muito da música e que topava fazer uma collab, até comentou que eu seria o primeiro brasileiro com quem ela faria um trabalho junto. A partir daí começamos a manter contato direto via WhatsApp, foi um processo muito simples e natural, ela sentia a música exatamente como eu. Os vocais acabaram sendo gravados em um estúdio em Johannesburgo na África do Sul. Po, pra mim foi uma grande honra contar com a voz da Toshi no meu primeiro EP, ela tem uma das vozes mais bonitas que eu já ouvi na vida! Quem sabe não fazemos mais algumas parcerias no futuro.

Na descrição de Avalo, você conta que o EP foi produzido e mixado no quarto da sua casa. É possível dizer que esse ambiente intimista e pessoal proporcionou uma atmosfera mais emocional as faixas?
Poxa de certa forma sim, acho que acabou refletindo muito o meu dia a dia, os momentos que passei nesses últimos anos e quem eu sou. Isso não quer dizer que se meu estúdio fosse fora de casa minhas músicas não transmitiriam isso também, acho que é uma união de fatores e um deles é a bagagem musical que trago comigo. Música é uma expressão natural dos nossos sentimentos, emoções, vivências, etc.

Você já parou para refletir sobre sua missão na música? O que você pode comentar sobre isso?
Acho que a música é uma das maneiras mais valiosas de se comunicar com as pessoas, de inspirar, refletir, a música nos faz olhar pra dentro, nos traz lembranças... se eu pudesse ter uma missão, seria a de fazer com que as pessoas que escutassem meus sons se sentissem felizes, com bons sentimentos e emoções. Queria que minha música pudesse fazer as pessoas valorizarem o presente, o momento.

Para fechar, gostaria que você falasse um pouco mais sobre a mensagem que Avalo busca passar. O que pode ser colocado em palavras nesse sentido? Obrigado pelo bate-papo!
O nome "Avalo" vem de Avalokiteshvara ou Chenrezig em tibetano, o Bodhisattva da Compaixão, ele é a personificação da compaixão de todos os Budas. SS. O Dalai Lama é sua reencarnação.

Avalo busca transmitir amor. A música com a Toshi chama "Thando" que em Zulu significa "amor", a outra faixa o própria nome já diz, Ama! Que esse EP possa despertar sentimentos que inspirem as pessoas a cuidarem mais uma das outras e a viverem uma vida baseada na compaixão.

Muito obrigado pessoal, nos vemos por aí!