Como o grime tá tomando forma no Brasil

 

Por Victor Apolinário 

Um movimento de cultura urbana, essencialmente afrodiaspórica, pobre e "ghetto", grime é a colaboração londrina para a história do ritmo e poesia, o tal rap. Vindo até os 140 bpm - batidas por minuto - os sintetizadores metálicos e robóticos, enchiam a faixa de um jeito mais "pista" acompanhado do sotaque atravessado dos negros londrinos, como em "Playground Vocal", os mlk da Slew Dem Mafia, tinham tantas nuances vocais que por vezes você não conseguia acompanhar o speed flow (do G Man e Lexman, principalmente), por conta dos maneirismos vocais Made in Africa

Contextualizando a parada toda, a capital do Reino Unido, recebeu entre 2001 e 2011, quase 1 milhão de imigrantes, daí é só fazer as contas, cidades européias com mais pessoas (basicamente que nem são nascidas lá) em busca de uma vida melhor = #favelacheia.
 A quebrada absorveu as vibes dos coletivos e participou ativamente da formação simbólica do ritmo, tipo na faixa "Bassline Junkie" do Dizzee, que basicamente é um "ato missionário" dizendo que rola ser preto, londrino, imigrante e ser algo além de nóia, um dificultador para a permeabilidade do ritmo em uma camada mais mainstream, pois, Londres, vivia as pressões pré e pós olímpica e circunstancialmente considerada "a mente" do tráfico de entorpecentes no mundo, logo o papo dos caras não eram um assunto de massa naquela época.

"I don't need no speed, no
I don't need no heroin, no thanks
I don't want no coke"

 

"Não preciso de anfetamina, Não
Não preciso de heroína, não valeu.
Eu não quero cocaína.
Tô doidão no bassline"

Viajamos de volta ao Brasil, e, temos uma memória recente de grime brasucas, tipo o Bk, com o Kinfolk em "Henessy" ou o Febem e o Cervs em "Índigo', numa métrica bem fiel ao londrino, produções que não duraram mais que um hit. Avalanchado pela amônia das prensadas e o lean do fake lifestyle do trap, como em Londres, o grime não pegou de primeira.

Estamos em um período catártico de celebração pela Copa, as festas de rua são sonhos mais distantes por conta dos últimos acontecimentos políticos, casas noturnas parecem ser a saída. Daí a necessidade de festas menos mecânicas. O lança e o ghb, ficaram mais presentes nas festas, daí, novamente surge uma demanda e a brisa precisou acelerar, dentro e fora das favelas. Como no grime, o funk brasileiro - principalmente, têm esquematizado suas bases de construção de forma acelerada -150 bpm- e estabelecem demograficamente os beat "plug" como os beat do jaca e o beat do borel.

Outro ponto a ser observado nessas similaridades da construção subjetiva da música eletrônica marginal londrina e brasileira é o "sonho de ser jogador de futebol". De alguma forma no inconsciente coletivo periférico, o jogador de futebol representa a conquista do lugar mais alto na cadeia financeira. Posição esta,  ganha na braveza, por merecimento ou pelo esforço basicamente físico.

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Londres e Brasil, ficam pareados em quem evoluiu mais nas composições basicamente monocromáticas e monotemáticas, dos kits. Champions League, Copa do Brasil, Corinthians ou até a Assembléia de Deus...todos queremos um brasão para chamar de nosso. Funcionamos em facção. As vezes é preciso um momento de instituição para algumas cabeças individuais, tipo a Megatron, que carrega jovens pela Zona Norte de São Paulo, nos fluxos mais enfurnados em conjuntos habitacionais. Primo das carretas de som nordestinas, o robô da putaria, mistura EDM ao Funk, e atualmente é o ritmo mais pedido nos bailes e recordista em views no Youtube.

As simbologias da construção de qualquer musicalidade periférica deve ser contextualizada antes de questionada, independente do quesito e questionador, tá ligado?  Por mais impressões que tenhamos sobre a estrutura métrica ou harmônica, ampliar a questão as razões ao invés de seu histórico, isso é velho, beleza?  Intersscionalizar na pesquisa musical transpõe a música pra vida e vice e versa. 

Para fechar tem o papo com o Lucas Fleezus, que lançou o clipe de "BRASILREALGRIME", assista ao clipe aqui e acompanha a entrevista no vídeo abaixo.