A Dobra: episódio I

por Chico Cornejo

O que é uma dobra? Ela pode esconder algo precioso ou revelar algo perdido, já que dobras não são elementos constantes da realidade. Elas se movem, modulando seu conteúdo de acordo com nossa perspectiva ou simplesmente colocando em evidência coisas que até ali estiveram ocultas e vice-versa.

Esta coluna procura justamente agitá-las, remexê-las para que consigamos, com sorte, ajudar a desvelar coisas que foram relegadas às sombras pelos modismos passageiros ou simplesmente ao esquecimento pela impiedosa dinâmica da novidade musical.

Costumes, gírias, discos, faixas, clubs, passinhos, indumentária… tudo se encaixa por sob esses empenamentos culturais, esses espaços negativos do gosto corrente que, quando vistos sob nova luz, ganham outro esplendor. Uma oportunidade de repassar futuros perdidos perpassar passados instituídos e ultrapassar preconceitos entranhados.

dobra.jpg

Berghain 01: André Galluzzi

Quem vê uma instituição alemã como o DJ André Galluzzi lançar atualmente pelo OstGut pode ficar um tanto desorientado, afinal suas faixas com a parceira de ARAS, a fenomenal Dana Ruh, encontram uma tênue ressonância com a estética mais celebrada do selo e até destoam em meio ao catálogo da plataforma fonográfica do mítico Berghain. Entretanto, quem pensa assim sequer lembra que, na verdade, foi ele mesmo quem mixou a primeiríssima edição da celebrada série de mixes deles.

O ano era 2005 e tanto OstGut era um nome bem esotérico, reservados aos círculos dos entendidos do Techno mundial ainda como algo promissor, bem distante do mítico status de que goza atualmente. A seleção é uma franca amostra da criatividade minimalista em seu auge. Ironicamente, este é um registro primoroso da estética em relação à qual a sonoridade do selo se estabeleceu e consagrou como antitética, além de um magnífco pedaço da história musical de Berlim à época.

Ademais, aqui vemos a versatilidade e precisão para concatenar momentos rítmicos elegantemente que é um dos maiores trunfos deste DJ que representa muito do melhor da habilidade germânica em propelir pistas, assim como da discrição e competência que acompanham seu ethos. Ele é um artesão mais que um artista, o que explica bastante o fato de sua carreira até aqui ser tão sólida em termos profissionais quanto modesta em termos promocionais. 

Contudo, ele é bem mais do que aquilo que se costuma chamar um “DJs dos DJs” e sua abordagem na cabine é do tipo de  dispensa esse tipo de rótulo pelo mesmo elitsmo que o sustenta, André Galluzzi é um DJ do povo, capaz de colocar em movimento tantas coisas em seus sets que fazer o mesmo com pessoas é uma consequência previsível. 

E todo mundo que acompanha sua trajetória até aqui está bem ciente disso, desde aqueles que o viram pela primeira vez no D-Edge em 2006, quando eu mesmo fui reticente para conferir um nome que sequer tinha ouvido falar mas saí de lá impressionado após uma noite que entrou merecidamente nos anais do club, até aqueles que terão a oportunidade de fazê-lo nesta próxima edição da Tantsa, na qual ele retorna mais uma vez como o porta-estandarte do selo Cocoon, uma de suas casas mais antigas.