Children Of Leir - Children of Leir (Return To Disorder 001)

Por Francisco Cornejo

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Carisma é algo essencial para qualquer um que se arrisque na exposição e escrutínio do público, mesmo que esta relação seja mediada pela sua arte. Ele é um excelente mediador entre ambos, sendo um elemento de aproximação inicial bastante eficiente entre duas pessoas que, a rigor, sequer se conhecem. Isto se aplica ainda mais a DJs, pois eles estão ali, próximos de nós e em constante evidência durante aquele troca energética e afetiva que faz de um simples set algo como uma experiência quase espiritual, ainda que extremamente corporal.

Um bom DJ cria climas envolventes, mas os que se destacam o fazem através de uma personagem intrigante e os melhores entre eles são extremamente cativantes. Essas são camadas que formam uma personalidade como a de Helena Hauff: tão franca quanto divertida, assim como os sets que conciliam com graça e muita potência as sonoridades mais abrasivas da eletrônica com uma malemolência dançante irresistível pelos quais ganhou notoriedade. E ela é assim mesmo: uma síntese de forças aparentemente contrárias que se diverte em revelar como imensamente afins, embora sempre carregando uma surpresa ou outra em tudo que toca, fala, faz e mesmo canta.

Exato: canta! Sensações díspares, como surpresa e reconforto nos tomam quando notamos nossa seletora hamburguesa technogótica predileta, além de criar e concatenar grooves corrosivos, também nos agracia com sua voz esfumaçada. As faixas em muito evocam o  lamentos intensos nos vocais unidos às camadas densas de guitarras que usualmente são associados ao shoegaze e ao post-rock e, se atentarmos a esses componentes, possuem muita afinidade com a sonoridade pela qual já a conhecemos.

O Children of Leir é uma banda originalmente de Leicester, cidade do centro-leste da Inglaterra famosa por muito pouca coisa além de ser a sede do campeão de 2016 da Premier League de futebol, casa do primeiro time feminino do país e locus origins do inglês moderno. A banda, cuja sonoridade eles mesmos definem como “motorik-driven, mystyical-horror infuenced, psychedelic folk pop” originalmente era formada por dois integrantes, Gregg and Stuart e a entrada de Helena se deu após uma bela noite no Golden Pudel, instituição anárquica noturna de Hamburgo onde ela iniciou sua residência.

O primeiro EP é uma coleção de faixas que flertam com o folk e têm na superposição de camadas melódicas e interpolações distorcivas sua principal força motriz, um droninho aqui e acolá bem temperado com a impressionante firmeza do vocal de Helena.  Esta participação também foi aproveitada por ela para iniciar os trabalhos de seu próprio selo, selo Return To Disorder - um nome que remete a um movimento conservador na arte alemã no entre-guerras e inverte o sentido original - e permanece até aqui como a única ocorrência alheia ao universo da eletrônica no catálogo. 

Seja inesperada ou previsível, temos de concordar que quase tudo que Helena Hauff se dispõe a fazer é repleto de humor e uma naïveté bastante sincera ou, no mínimo, muito autêntico e bem-humorado, mas sempre muito bem acompanhado musicalmente.