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Ainda que a intenção neste nosso espaço musical transdimensional seja exatamente a oposta de ir atrás de origens ou tentar estabelecê-las de maneira inequívoca, por vezes faz-se presente a oportunidade de apontar os momentos seminais de uma iniciativa que veio a transformar profundamente nossa relação com esse material sonoro. E, no caso específico de uma tão multifária e comprometida com uma curadoria eclética quanto o Dekmantel, é fascinante poder olhar para seus inícios e ver o que se tornaram hoje em todas as suas frentes.

Os eventos começaram ainda na década passada na nativa Amsterdam com um nome um tanto mais circunscrito mas que já revelava a seriedade nas intenções de seus criadores: Detroit Spirit, e o primeiro convidado foi ninguém menos que Robert Hood. Os anos se passaram, o nome foi mudado para algo mais holandês e menos pretensioso, a reputação foi se solidificando entre um grupo seleto de amantes da música que é tão global em presença quanto nichado em preferências e, há cinco anos, o Dekmantel Festival surgia em seu formato corrente e já celebrado até fora de sua terra natal.

O selo de música já tem uma década de existência e sempre primou pela reverência a suas origens estilísticas conjuminada a uma exaltação a referências ecléticas que recobrem muitos territórios, sônicos e geográficos. Porém, as raízes estão bem fincadas na capital holandesa e, como muitas empreitadas afins, o esprit de corps tão característico dos coletivos holandeses, esse senso familiar de união e filiação, é algo que se apresenta desde o início e permanece forte até hoje, se fazendo presente em momentos cruciais do catálogo e já em seu primeiro número.

Juju & Jordash são uma dupla israelense-holandesa cuja habilidade jazzística para construir faixas hipnóticas e improvisar com máquinas ao vivo já se tornou célebre pelo mundo todo, muito por conta de sua proximidade com o selo de seus colegas e principais apoiadores. Não dá para negar o match, já que a compatibilidade de sonoridades, propostas e atitude é tão íntima e funcional que a complementaridade aparece naturalmente em todos os âmbitos da relação: a cada edição do festival eles surpreendem e angariam mais aficionados pelo seu som e a cada novo lançamento esse fenômeno se amplia ainda mais.

Desse modo, não é nada surpreendente que eles tenham dado o chute inicial para essa aventura fonográfica. Contudo, como é de praxe com tudo que Gal e Jordan se envolvem, a surpresa fica por conta da ousadia conceitual e a variedade tonal que compõem a duradoura qualidade musical deste EP. De fato é impossível ouvir agora, há uma década de seu lançamento e não ser atingido pela densidade perene de seus ritmos e pelo jogo harmônico cativante que eles concatenam, notáveis habilidades que se manifestam tanto dentro quanto fora do estúdio em distintas formas, com a mesma intensidade.

“Deep Blue Meanies” se sustenta numa possante estrutura percussiva pontuada por ciclos de excitação e diluição, nas quais os elementos se alternam e as forças oscilam para formar uma atmosfera de transe e suspense, recursos que caracterizam sua musicalidade até os dias hodiernos. “Uncle Moon” é uma faixa desprovida de batidas na qual os ritmos se insinuam em texturas e movimentos para criar uma tapeçaria rica em cores e estampas. Já seu lânguido remix para o enigmático Lerosa arremata o clima geral que caracteriza o EP e beira a claustrofobia, não fosse pelos geniais espaços de respiro e transição que eles tão bem posicionam em meio a suas pirações psicodélicas.

Mais que um marco no nascimento de uma plataforma artística cujos esforços sempre se mantiveram norteados por valores estéticos bem claros, esta coleção de faixas os condensa de forma sublime, seminal e suficiente para ser nomeada simplesmente "Dekmantel EP", representando muito do espírito da marca que se mantém intacto até aqui.

E é essa mesma clareza de propósito e pureza de princípios que guiará a trupe holandesa por algumas das principais metrópoles eletrônicas brasileiras neste começo de de outubro, começando por Porto Alegre na sexta-feira e Rio de Janeiro no sábado. Numa expedição musical que trará novamente a nossas pistas muito dessa mesma energia original, devidamente catalisada e amplificada pelo talento e público locais.