Magda: She's A Dancing Machine (M_nus 2006)

Por Francisco Cornejo

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Mesmo que CDs mixados sejam uma obsoleta e cada vez mais desconhecida forma de consumo musical relegada àquele interregno que vai de meados dos 80 aos 2000 no qual esse formato encontrou seu auge nas preferências dos amantes da música, eles nos trouxeram alguns momentos de genialidade que só poderiam ter sido expressos dentro de suas limitações. E o mais curioso a respeito desse tipo de álbum/coletânea/performance é que ele atingiu o ápice da criatividade artística justamente quando era implacavelmente substituído pelos MP3 que eram disponibilizados quase que imediatamente após uma performance nos nas comunidades online de compartilhamento de música.

Mesmo assim, foi neste momento que surgiram algumas das mais inventivas peças já lançadas através desse produto, alguns clássicos que nos mostraram a grandiosidade de uma narrativa bem estruturada e alinhavada que lançava mão de todos os recursos tecnológicos à disposição naquele momento. Um dos mais celebrados dessa safra, sem dúvida, é também o que estreou essa abordagem mais rebuscada e conceitual que veio a renovar uma tradição que remonta às mixtapes e outras formas correlatas de compartilhamentos musical e promoção artística: "Decks FX & 909" de Richie Hawtin. Lançado bem no nadir da notoriedade dessa plataforma física ele apontou o zênite do potencial criativo que ela permitia veicular. 

Aqui também vale contextualizar o momento em questão, no qual se consolidavam as etapas seminais de um movimento global de renovação da proposta minimalista no Techno, uma que tinha no próprio Hawtin um de seus principais proponentes e seu então recém-inaugurado selo M_nus uma de suas plataformas mais representativas. É no interior desta conjuntura revolucionária que vemos uma DJ oriunda do epicentro da cultura Techno colocar-se como uma das peças centrais dessa mudança. 

Magda, uma imigrante polonesa criada em Detroit, sempre foi um elemento primordial da proposta que animava o projeto de Richie e tomava o mundo de assalto na primeira década deste século. Sua destreza e ousadia sempre foram perfeitas para o tipo de musicalidade que era privilegiada e produzida por esse grupo de artistas e este CD mixado é um valioso registro de muito do melhor que um DJ pode elaborar com o tipo de ferramenta que essas faixas econômicas e precisas oferecem quando utilizadas de modo artístico e não apenas burocrático. 

"She's a A Dancin Machine" nos apresenta algo que muitos até considerariam uma façanha: condensar SETENTA E UMA músicas em DEZESSETE faixas e nos entregar um composto extremamente concentrado de elevadíssimo teor dançante e hipnotizante. Fora de qualquer hipérbole, este é um compilado soberbo de muito do melhor que havia dessa musicalidade em seu auge, logo antes de ser diluída a níveis insuportáveis de banalidade, depurado em seus princípios e amalgamado em suas maiores virtudes.

Enquanto coletânea, é um registro formidável de uma época marcante da música eletrônica; na qualidade de amostra de talento, é onde vemos uma exímia seletora esbanjar destreza ao alinhavar camadas de texturas e grooves com a perícia que esses delicados elementos musicais exigem; como produto de entretenimento é um precioso documento da plena utilização do potencial de tecnologias digitais, sejam elas humanas ou computacionais. Nenhum outro nome seria mais adequado para este CD, seja pela sua proposta, por seu conteúdo ou por sua artista.