Rick "The Godson" Wilhite, amadrinhado pela música

Por Francisco Cornejo

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Rick é mais um daqueles casos de uma pessoa que se torna uma instituição central para o fomento e vitalidade da cena a que pertence e cuja presença se faz, na mesma medida, preciosa e silenciosa. Dono de loja de discos há mais tempo que muitos de nós estamos nas pistas, DJ e produtor dos mais inventivos, sua atuação se espraia por quase tudo que faz a opulência da nossa cultura dançante. Ele respira, come e dorme música, assim como faz de tudo para compartilhar conosco cada instância dessa relação.

Mantendo sua produtividade em alta, ele acaba de lançar um álbum e vem com tudo, desde uma nova série de EPs com raridades até inúmeras colaborações e um projeto festeiro mensal. Ele também é mais uma dessas surpresas que uma festa como a Gop Tun nos regala. Algo que é natural para uma empreitada feita por quem, como ele, vive e mantém viva essa pulsação que nos move, dentro e fora da pista.

Não sei ao certo se a notícia chegou às ruas de Detroit, mas a maioria dos seus conterrâneos já atacaram nossa lojas de discos. Não se preocupe, creio que ainda deva haver muitas pérolas para serem descobertas e tocadas não apenas aqui, mas em toda parte. Dito isso, devemos perguntar: por que demorou tanto para vir?
Olha, teve alguns planos, até um pessoal envolvido com alguma loja de discos local que me convidou há um tempo, mas não virou. Agora parece ser a ocasião perfeita, com as pessoas certas envolvidas e vou aproveitar.

Quanto a caçar discos, eu vou ser bem sincero: não sou o mais viciado em fazer isso, já que tenho uma loja há uns bons 25 anos e estou envolvido nesse mercado desde então. Mesmo assim, minha coleção é respeitosa, tenho muitos itens e essa atividade está no meu sangue como deve imaginar. Bom, se a oportunidade se apresentar, também vou aproveitá-la porque tem ainda muita coisa a ser descoberta. Se formos pensar, é inacreditável o quanto de música ainda há por aí que sequer conhecemos...

Seguramente o Marcellus, o Theo e o resto do pessoal devem ter levado de volta algumas anedotas ou impressões sobre o Brasil. Considerando que já rodou bastante através do globo, quais são suas expectativas para seu début por aqui?
Expectativas sempre surgem, independente de onde você toque, até em casa. Eu sempre crio algumas, mas elas envolvem muitos elementos, em qualquer lugar ou ocasião em que me apresente. Eu curto sentir a energia do povo, do lugar. Não só naquele momento e local, mas de todo o entorno, do que alimenta aquela situação. Assim, tudo é diferente a cada vez e o que importa realmente é conseguir "controlar a nave": se a vibração for especial, a atmosfera for aquela bem especial, certamente vai rolar gritaria. Vou ver aquele fluxo na pista, o movimento geral em torno da música. Veja bem: eu trabalhei e trabalho em praticamente todas as frentes da música e sei que promoters têm de lidar com um monte de variáveis imprevisíveis. Portanto, eu sempre procuro dar meu máximo, já que estou vivendo essa vida duplamente e meus colegas, seja em Detroit ou em qualquer lugar, se tornaram animais extremamente competitivos. Então, se eu conseguir levar as coisas àquele estado, vou saber que meu trabalho foi feito devidamente.

Algo que parece ser comumente ignorado nas origens dessa cultura que chamamos de nossa - mesmo tão global quanto ela se mostre hoje em dia - é a ligação seminal que conecta o Hip Hop à House e foi forjada dentro do DNA musical que compartilham. Esta relação estava mais presente no trabalho de um Dilla e mesmo de seu mentor, AMP Fiddler, passando por Andrés e esforços significativos como o projeto “Detroit Beatdown”. Contudo, ultimamente ela parece um tanto esquecida, seja em NY ou em Detroit. Qual seu palpite acerca de como essa curiosa separação veio a se tornar tão ampla?
Particularmente, não acho que a House tenha derivado da Disco assim tão diretamente. Pois, dependendo de como você foi criado no ambiente familiar afro-americano nos EUA, com qual tipo de música você cresceu em casa e tal, a interpretação pode variar muito. Se você era um jovem nos oitenta em Detroit, não podia contar com estações de rádio para ser educado no que era a Dance Music, isso acabou vindo depois.

Minha cidade sempre foi um lugar de dança, assim nossa música própria para isso se originou nos clubs e nas ruas. E isto é algo muito diverso do que se viu nos 2000 se formos comparar. Não era exatamente Disco no sentido conhecido do gênero ou algo parecido. Pense em Frankie Goes To Hollywood, aquilo é algo totalmente diverso do que era tido como Disco Music. Aí você vê um estilo sendo criado por jovens, desde a base, gerando uma coisa nova. O Hip Hop foi diferente e, dependendo de onde você cresceu, ele apenas foi mais um desenvolvimento do Funk entre tantos outros, era tudo aquele som do Meio-Oeste e, especialmente de Ohio e daqui. Quando você se deslocava mais a leste, tudo se tornava bem distinto. Certamente o Funk é a base de tudo, mas tem tanta coisa no meio que classificar se torna meio fútil para nós. Para terem uma ideia, nós chamávamos o que os The B-52’s tocavam de "Funk New Wave".

Isso informou de alguma maneira o seu último grande projeto, "The Godson"?
O projeto levou bastante tempo para chegar a este ponto em que decidi lançá-lo. Quis combinar tudo que me influencia e inspira em um só lançamento, amalgamando gêneros e desafiando rótulos. Eu queria também mostrar aquilo que sempre fez de Detroit o que ela é, sempre foi e sempre será criativamente: a improvisação, o DIY, a relação com as ferramentas analógicas mesmo sem ter um estúdio. Meu lema sempre foi o de manter tudo bem básico para obter os resultados desejados e, por isso, meu estúdio orbita ao redor de algumas máquinas que procuro manter perto de mim desde o início. Claro que isso pode ser interpretado de diversas maneiras, mas o essencial para mim é essa simplicidade.

Ademais, eu estou nesse jogo há eras, tanto que tenho muitas coisas por aí que ninguém sequer sabe que são de minha autoria e, a estas alturas, só quero deixá-las descobrirem sozinhas.

Esse fator improvisativo tão fundamental - que até se torna um recurso de sobrevivência artística - é uma peça fundamental de Detroit, não?
Claro, mas não é só isso. A comunidade também é crucial para manter as coisas em movimento e eu sempre procuro colaborar para fortalecê-la de todas as formas que puder. Minha atuação sempre foi diversa e se deu através da minha loja, dos selos, da distribuidora, na minha cidade ou pelo mundo afora. E o princípio constante era o de ajudar qualquer um com talento, que precisasse e quisesse se aprimorar, a se expressar melhor. Afinal, tudo se resume valorizar a família, a passar conhecimento adiante. Há muitas iniciativas que admiro e torço para que continuem florescendo, como a Spin Inc., uma escola local para DJs e produtores, por exemplo.

E quanto a nossa musicalidade, será que consegue se recordar de seu primeiro contato com a música brasileira? Ela chegou a exercer influência sobre você ou sua música de algum modo?
Nossa! Essa pergunta me pegou de surpresa. Eu sei e não sei a resposta, porque são muitos que fazem parte de minha coleção e gosto de todos. Mas, assim, de sopetão, ficou difícil responder. Tanto que estou com vontade de ir procurá-los agora…

De qualquer forma, acho que meus lançamentos mais recentes revelam muito dessa influência, como o Godson IV que lancei pelo Mahogani do Moodymann, especialmente em "Sonar Funk". Essa inspiração também dá para detectar no meu próximo lançamento com um pessoal canadense chamado Collective Rhythm Network, particularmente na faixa "Mind Control", onde eu faço algo que gosto bastante e poucos sabem: cantar.

A pista, a loja de discos e a rádio são componentes vitais para qualquer comunidade musical, mas este último ocupou um lugar especial na cultura musical de Detroit desde o início - especialmente através do papel desempenhado por figuras como Electrifying Mojo nos anos formativos da cena Techno da cidade. Este cenário mudou no decorrer dos anos se considerarmos como a internet transformou estas cenas profunda e globalmente? Você ainda é fiel a algum programa de rádio ou cogita ter seu próprio?
Eu ainda vejo a rádio como algo relevante, mas tudo depende da programação e elas atualmente são controladas por grandes corporações onde os parâmetros de excelência que determinam o sucesso são completamente outros. Tudo passa por jovens ambiciosos e o imediatismo do lucro rege as escolhas, tanto que nem dá para comparar com o ambiente no qual eu, você e muitos outros fomos criados. A gratificação instantânea norteia tudo e não me vejo fazendo parte disso.

Além de um álbum fresquinho saído do forno e uma turnê por território desconhecido, o que o futuro reserva para o “Godson”?
Algumas coisas vão ser lançadas em breve, além de algumas pérolas de outros artistas que integrarão outra compilação parecida com o que procurei fazer com a Rush Hour na série Vibes - Rare & New Music. Também me dedico a minha residência aqui em Detroit, a Beautiful Sunday que rola todo terceiro domingo de cada mês e na qual trago gente de toda lugar. O vinil é uma parte central do conceito, mas quem quiser tocar no CDJ é bem recebido (controladoras são um tabu), afinal o que importa é a música, já que ela é o ar que respiramos... E, por isso mesmo, se tudo der certo, pretendo também vou levar esse projeto para outros países nos quais existam pessoas que carreguem essa paixão, na cabine ou na pista.

https://rickwilhite.bandcamp.com/