Ari Dykier, um Viajante da Eternidade

Texto e fotos por Laura do Lago

No dia 10 de novembro de 2018 tivemos a oportunidade de ver o trabalho do artista polonês Ari Dykier no evento SP_Urban Digital Festival realizado no MIS (Museu de Imagem e do Som).

Ele nos presenteou com uma viagem bem alucinógena através de imagens vintage em preto e branco que nos levam ao campo dos sonhos, surrealismo, memórias da infância, literatura, arte e assim por diante. As imagens seguiram um ritmo bastante envolvente acompanhado pela trilha sonora composta por Roman Poczapski.

Seu estilo é único. Podemos ver alguns símbolos frequentes, como asas, cabeças, relógios, personagens híbridos ora com máquinas ora com animais como coelhos ou veados. Somos convidados a voar em espaços que estão dentro de outros espaços, como se tivéssemos descoberto nossas asas e com isso nosso potencial de transpassar as realidades temporais.

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Nós, do deepbeep, o convidamos para uma conversa no Trianon Masp Park em um clima bem agradável e tradicional, sem gravação e usando o melhor de nossas memórias. Sua figura é dotada de alta simpatia e uma especial profundidade espiritual.

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Vimos em algumas descrições sobre seu trabalho o título "Andarilho da Eternidade" (Wanderer of Eternity). Como você se define?
Tenho a sensação de viajar com a minha consciência através de experiências e do tempo. Às vezes, sabendo que não está limitado ao período da minha vida, há algumas coisas que me afetam que aconteceram antes de eu nascer e outras que acontecerão em um futuro distante. É como observar em um único momento uma perspectiva mais ampla do tempo. É o que eu também tento expressar no meu trabalho.

Somos entretidos com muitos elementos tais como relógios, máquinas e arquitetura antigas, animais e, especialmente, esse personagem do século 19 que aparece frequentemente no seu trabalho. Está relacionado com a literatura de Jules Verne?
Mesmo conhecendo os livros de Verne, ele não foi a inspiração para o que eu criei. Esses elementos vêm geralmente do fascínio do que é chamado de steampunk. O trabalho que apresento aqui no SP_Urban Festival Digital é a minha coleção de memórias, sonhos, histórias que já ouvi ou li. É de fato bastante inconsciente, mas provavelmente a principal inspiração para o que eu faço é um filme de animação surrealista do artista polonês Jan Lenica chamado “Labirinto”.

Os elementos que estou usando como máquinas, cabeças ou animais, referem-se principalmente a algumas obras que eu amo, símbolos ou estado de espírito.

 Às vezes o artista usa sua própria imagem como material para seus vídeos

Às vezes o artista usa sua própria imagem como material para seus vídeos

A maioria de suas animações é criada em preto e branco. Como e quando você usa cores em seus loops?
Eu uso geralmente imagens antigas e fotografias que já estão em preto e branco. Talvez venha da paisagem na Polônia, onde temos muitos dias nublados (risos). Mas o mais provável é que, para mim, também o estilo expressa a jornada no tempo, porque imagens em preto e branco geralmente vêm do passado. É claro que existem algumas influências de artistas que trabalharam apenas no estilo preto e branco. Eu queria manter o trabalho em um estilo, para definir uma identidade. Às vezes eu uso vermelho ou azul, como as pílulas que aparecem no filme Matrix (risos), mas não foi uma decisão consciente. Eu uso azul quando quero deixar claro que o fundo ou a cabeça dentro é um céu. E vermelho para alguns personagens catatônicos. É bom saber agora que as pessoas estão me reconhecendo por esse estilo específico.

Há um elemento vermelho muito presente que é um octaedro que aparece girando lentamente flutuando no ar ou dentro de algumas cabeças. Este é um “sólido platônico” associado ao ar e representa nossa sintonia com uma natureza mais espiritual. Isso foi pensado antes, como se tivéssemos ar dentro de nossas cabeças?
Não, outra coincidência. Acho que foi uma decisão inconsciente, porque de fato tem algo a ver com voar. É sobre a viagem através do mundo interior de nossas mentes. Há algumas cabeças que uso inspiradas pelo filme animado “Yellow Submarine” de George Dunning, que já vi muitas vezes e recentemente com minha filha. O octaedro foi usado para criar uma sensação mais de perspectiva do espaço. É o único objeto 3D. As imagens são criadas em 2D, como as paredes, o piso e alguns elementos colocados em perspectiva. As pessoas me perguntam em qual software 3D eu preparo meus loops, mas é apenas uma ilusão de 3D feita com o After Effects.

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Sobre os processos, qual software atende melhor às suas expectativas de mixagem ao vivo
Modul8, porque para mim é o mais claro e familiar. É bom para a pré-produção e confiável para soltar os vídeos. No começo eu costumava passar muita ideia em um momento colocando vários vídeos juntos. Agora vejo o que funciona e não. Depende do evento e do lugar o qual você está projetando. Lentamente, estou começando a usar o VDMX, que é uma ferramenta muito complexa e fascinante. Geralmente apresento meu solo de performance com a música gravada pelo meu amigo Roman Poczapski. Às vezes também coopero com djs como DJ Nirso, DJ Nicenoice ou Miret.

Eu também tive a oportunidade de criar projetos visuais com a renomada orquestra barroca polonesa Arte dei Suonatori e com a incrível musicista contemporânea polonesa Ewa Liebchen. Juntamente com ela, apresentamos o projeto Vento no Live Cinema Festival em Roma este ano.

 Foto por Lisa Harpin

Foto por Lisa Harpin

Conte para nós sobre sua relação entre imagens e sons, o que lhe toca?
Eu amo música. Eu não sou um compositor, mas fico muito inspirado. A música acompanha a narrativa. Às vezes eu ouço Chopin enquanto estou trabalhando, outras vezes Pink Floyd, e assim por diante. Existem diferentes estilos musicais nas minhas performances. No meu live em Amsterdã, usei uma obra muito expressiva de Miles Davis. Um contexto musical totalmente diferente foi um projeto que fiz com uma grande orquestra barroca polonesa, a Arte dei Suonatori, que mencionei antes. Agora, para as minhas performance periódicas eu uso a trilha sonora do meu amigo Roman Poczapski, que infelizmente faleceu este ano, e em homenagem eu quero manter sua memória usando suas composições.

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E qual é seu relacionamento com o Ballet Clássico?
Não sou um bailarino (risos), mas adoro dança em geral, especialmente a Dança Contemporânea. É onírico. Além da performance no MIS aqui em São Paulo eu estou apresentando no Edifício Fiesp uma animação clássica de desenho à mão de uma bailarina. Eu decidi usá-la porque ela parece se encaixar melhor na resolução de pixels da projeção do edifício.

Quais são os artistas que lhe inspiram?
Uau, difícil de ver de uma só vez. Vem de diferentes meios de expressão, como literatura, música, pinturas e filmes. Talvez eu possa começar com o designer gráfico e cartunista Jan Lenica e os animadores Brother Quay, especialmente no filme de animação stop-motion “Street of Crocodiles” inspirado pelo escritor polonês Bruno Schulz. Tem também o artista checo Jan Švankmajer, o pintor holandês Hieronymus Bosch, o pintor polonês Zdzisław Beksiński, o polonês Igor Mitoraj, e assim por diante. Também músicos, cineastas …


Quando foi sua primeira experiência de performance ao vivo?
Foi há 3 anos em Roma. Mesmo com tudo preparado, eu estava nervoso e foi um pouco estressante, mas no final eu estava realmente empolgado com tudo. Eu descobri a ideia sobre “VJing” 5 anos atrás. Minha primeira experiência foi no workshop de mapping em Berlim, criada por Pedro Zaz, da United VJs (um coletivo de São Paulo). Mas o ponto de virada foi o meu live em Amsterdam 2017 no Live Performers Meeting. Depois disso muitas oportunidades vieram. Uma delas foi o convite para me apresentar no Visual Brasil em Barcelona - o festival organizado pelo VJ Eletroiman (Ricardo Cançado).


O que significa VJing para você?
Para mim está relacionado com a cena de boates. Eu compreendo que o que faço algo como Live Cinema ou simplesmente performance audiovisual. Eu gosto de preparar toda a estrutura do trabalho, desde o conceito bem no começo e de toda a narrativa a seguir. Eu tive algumas experiências com improvisação com outros músicos e DJs, como o Kiev VJ Battle. A primeira vez que tive a chance de improvisar inesperadamente foi no Visual Brasil quando Ricardo (VJ Eletroiman) me chamou para me juntar a outros VJs e tocar. Foi emocionante e fiquei lá por uma hora, mais do que já fiz antes. No dia seguinte eu toquei para o encerramento do festival. É um evento incrível por sinal. Cheio de boas vibrações e pessoas amigáveis que fazem você se sentir em família.


Você faz outras coisas profissionais também?
Eu estou trabalhando como cineasta, principalmente como cinegrafista freelancer fazendo séries de TV polonesa. Eu tenho um trabalho regular meio período e na outra parte do tempo agora é usada para viajar para mostrar minha arte, especialmente este ano. Nessas viagens eu conheço muitas pessoas, tendências, estilos de arte. Eu vi muitos visuais abstratos generativos, e isso me fortaleceu sobre a escolha do meu estilo, sobre o que eu quero comunicar. Mesmo depois de tantas viagens em um ano, eu não considero performar como a principal renda e considero isso mais como uma auto-expressão. Mas não me importaria se em algum dia eu pudesse fazer isso em tempo integral.


Onde você quer chegar em termos de mudança de sociedade, em melhorar o mundo com sua arte?
Eu não posso ser responsável pela mudança do mundo e não quero dizer o que as pessoas devem fazer. Quero convidar as pessoas para uma experiência que as conecte ao seu Eu interior mais profundo. Uma vez que eu trabalho com o meu mundo interior, melhorar a si mesmo é de fato algo de dentro. Quando estamos conectados à nossa real verdade, podemos ver o que é bom ou ruim. Nesta perspectiva, vejo que meu trabalho poderia sim estar relacionado com o significado do Octaedro mencionado antes.

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www.dykiers.com

Instagram: @ariavatari


ENGLISH VERSION:

Ari Dykier, a Traveller of Eternity

On November 10 we had the opportunity to see the work of the polish artist Ari Dykier in the event held in MIS (Museu de Imagem e do Som) and created by SP_Uban Digital Festival.

He presented us a very trippy journey through black and white vintage images that take us to the field of dreams, surrealism, memories of childhood, literature, art and so on. The pictures followed in a really involving rhythm according to soundtrack composed by Roman Poczapski.

His style is very unique. We can see some frequent symbol such as wings, heads, clocks, hybrid characters sometimes with machines other times with animals like rabbits or deers. We are invited to fly into spaces that are inside other spaces, as we had discovered wings and with it our potential of transpassing temporal realities.

We from deepbeep invited him for a talk at the Trianon Masp Park in a very traditional and vintage mood, with no recording using the best of our memories. His figure is endowed with high sympathy and a special spiritual depth.

We saw in some of your description the title “Wanderer of Eternity”. How do you define yourself?
I have the feeling to travel with my consciousness through experience and time. Sometimes being aware that it’s not even limited to the span of my life, that there are some things that affects me but happened before I was born and some that will happen in the distant future. It’s like observing in one moment wider perspective of time. It’s what I also try to express in my work.

We are amused with a lot of elements such as clocks, vintage machines, ancient architecture, animals, and especially this character from the 19th Century that appears on frequently on your work. Is it related to Jules Verne literature?
Even knowing Verne’s books he wasn’t inspiration to what I create. Those elements come generally from fascination of what is called steampunk. The work I’m presenting here at SP_Urban Festival Digital is my collection of memories, dreams, stories that I heard or I was reading. Very unconscious but probably main inspiration for what I do is surreal animated film of polish artist Jan Lenica called “Labyrinth”. The elements I’m using such as machines, heads or animals referring mostly to some works I love, symbols or state of mind.

Most of your animations are created in black and white. How and when do your use colours on your loops?
I mostly use old graphics, photography that are already in black and white. Maybe it comes from landscape in Poland where we have lots of cloudy days (laugh !) But most probable is that for me it also express the journey in time because black and white pictures or graphics often comes from the past. Of course there are some influences of artists that worked only in black and white style. I wanted to keep it in one style, to define an identity. Sometimes I use red or blue, like the pills that appear in the Matrix film (laugh!), but it wasn’t a conscious decision. I use blue when I want to be clear that the background or head inside is a sky. And red for some catatonic characters. It’s good to know now that people are recognizing me by that specific style.

There is a very present red element that is an octahedron that appears spinning slowly floating in the air or inside some heads. This is a “Platonic Solid” associated to air, and represents our tuning with a more spiritual nature. Was this meaning thought before, as if we had air inside our heads?
No, another coincidence. I think it was as unconscious decision because in fact has something to do with flying. It is about the travelling through the inside world in our minds. There are some heads I use inspired by the animated film “Yellow Submarine” by George Dunning , which I saw many times and recently with my daughter. The Octahedron was used to create a more perspective sensation of space. It is the unique 3D object. The images are created in 2D such as the walls, the floor, and some elements put in perspective. People ask me in which 3D software I prepare my loops, but it’s only illusion of 3d made with After Effects.

About methods, which software best meets to your expectations for live mixing?
Modul8, because it is for me the most clear and familiar. It is good for pre-production, reliable to triggering in the videos. At the beginning I used to tell a lot in one moment putting tons of videos together. Now I see what it works and not. Depends on the event and place that you are attending to. Slowly I’m starting to use VDMX which is very complex and fascinating tool.

Mostly I’m presenting my performance solo with the music recorded by my friend Roman Poczapski. Sometimes I also cooperate with djs like DJ Nirso, DJ Nicenoice or Miret. I also had a chance to create visual projects with renewed polish baroque orchestra Arte dei Suonatori and with amazing polish contemporary musician Ewa Liebchen. Together with her we presented project Vento at Live Cinema Festival in Rome this year.

Tells us about your relationship between images and sound, what triggers you?
I love music. I am not a composer but I get really inspired from it. Music goes along storytelling. Sometimes I listen to Chopin while I’m working, other times to Pink Floyd, and so on. There are different music styles in my performances. In my live in Amsterdam I used a very vivid piece from Miles Davis. A totally different music context was a project I did with a great polish baroque orchestra Arte dei Suonatori I mentioned before.

Now for my regular performance I use the soundtrack from my friend Roman Poczapski, who unfortunately passed away this year, and in honour to I want keep his memory using his tracks.

And what about your relationship with Ballet Dance?
I am not a ballet dancer (laugh!), but I love dance in general, especially Contemporary Dance. It's oniric. Except for performance at MIS here in Sao Paulo I I’m presenting animation of hand drawing ballerina exhibited at Fiesp Building. I decided to use her because she seems to fit better for pixel resolution of building projection.

Tell us the artists that inspire you?
Wow, difficult to saw it at once. It comes from different means of expression like literature, music, paintings and films. Maybe I can start from graphic designer and cartoonist Jan Lenica and the animators Brother Quay, especially at the stop-motion animation movie “Street of Crocodiles” inspire by the polish writer Bruno Schulz. There is also the czech artist Jan Švankmajer, the dutch painter Hieronymus Bosch, the polish painter Zdzisław Beksiński, the polish artist Igor Mitoraj, and so on. Also musicians, filmmakers...

When was your first experience of live performance?
It was 3 years ago in Rome. Even though all was prepared, I was nervous and was a bit stressful, but and the end I was really excited with everything. I found the “VJing” idea 5 years ago. My very first experience was the workshop of mapping in Berlin created by Pedro Zaz from United VJs (guys who are from São Paulo). But the turning point was my performance in Amsterdam 2017 at Live Performers Meeting . After that lot’s of opportunities came. One of them was performing at Visual Brasil in Barcelona - the festival organized by VJ Eletroiman (Ricardo Cançado).

What is Vjing for you?
For me is related to the club scene. I understand what I do as Live Cinema or audio visual performance. I like to prepare the whole structure of work, from the concept of the begining and the following narrative. I had some experience with improvising with other musicians and DJs, such as the Kiev VJ Battle. The first time I had a chance to improvise unexpectedly was at Visual Brasil when Ricardo (Vj Eletroiman) called me to join other vj and play. It was exciting and I left there for one hour that means more than I ever did it before. The day after I played for the closure of the festival. It’s amazing event by the way. Full of good vibes and friendly people that make you feel like family.

Do you do other professional stuff too?
I’m working as a filmmaker, mostly as cameraman making TV series for polish TV. I have a halftime regular job and the other half is now use for travelling to show my art, especially this year. In this travels I get to know a lot of people, trends, styles of art. I saw a lot of generative abstract visuals, and that makes me feel stronger about the choice of my style, about what I want to communicate. Even after so many trips that year I don’t consider performing as the main income and take it more like a self - expression. But I don’t mind if I could do it full time some day.

Where do you want to go in terms of changing society, improving the world with your art?
Honestly I can’t be responsible of changing the world, I don’t want to say what people should do. I want to invite people to an experience that connects them to their deeper inner self. Since I work with my inner world, to improve myself is something from inside. When we are connected to our real truth, we can see what is good or bad. In this perspective I see that my work could be related to the meaning of the Octahedron asked before.


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