Astronauta Mecanico - Veruscka Girio - o imprevisível que nos conecta a mundos

Texto e fotos por Laura do Lago

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Foto: Laura do Lago

Após uma longa pausa e um eclipse lunar, Imagem em Fluxo retoma as entrevistas com uma respeitosa trajetória artística que amplifica vozes do invisível. É evidente o quanto é potente a força de uma mulher quando se decide fazer arte no Brasil. 

Veruscka me recebeu em sua casa onde tivemos uma agradável conversa recheada de bom humor e muito conhecimento sobre a história da cultura eletrônica e do VJing no Brasil.

Astronauta Mecanico é sua ferramenta de transformação que evoca entendimentos múltiplos. Cidadã do mundo, Veruscka Girio de origem maranhense, circula constantemente com interesse em potencializar o espírito de cada lugar e levantar questões. 

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Seu desafio em trabalhar com o imprevisível e a falha resulta numa linguagem libertadora e importante para arte contemporânea. Publicitária de formação, Veruscka transpassou o figurativo e desenvolveu grande interesse no abstrato gerado pela corrente elétrica, dos lapsos de antigos televisores que parecem ter vida própria pela sua singularidade. É a  “imperfeição como desencadeador de emoção”. 

Sua consequência pode gerar constrangimento da parte do espectador que não sabe como interagir com a obra. Mas tanto essa inquietude, quanto a admiração por toda maquinaria que essa grande artista tem em seu domínio gera um estado de presença, pois de fato as frequências tanto do som quanto das luzes das imagens abrem portais de outras dimensões.

Trabalha tanto um setup reduzido: laptop e controladora wi-fi, quanto com uma robusta maquinária, cheia de conexões, sem uso de computador.

Como uma das primeiras mulheres VJs no Brasil, qual era sua expectativa em relação a essa nova forma de arte e o que você encontrou no meio do caminho?
No período que morei em Brasília tive muito contato com a cultura eletrônica e o gueto gay. A cidade tinha muita gente que era rica e viajava muito, portanto havia muita troca de informação. Na década de 1990, CD era caro no Brasil então muitos amigos traziam de fora fortalecendo a contracultura. Todo mundo pegava carona com os amigos e iam conhecendo cada vez mais a cena ouvindo os discos no carro. A cena underground de Brasília unia pobres e milionários. Eu comecei indo a boates gays e ao Wlöd Club*, depois expandi na rave.

Foi 1998 em que fui mudando meu pensamento a respeito de cultura em geral ao conhecer o trabalho do Kraftwerk e do Jeff Mills. Eu cheguei a ir para São Paulo ver a apresentação do Mills, de ônibus com vários amigos clubbers. Tomamos banho a 1 real no centro e fomos direto. Eu tinha 22 anos. Fiquei chocada com Jeff, que trocava de vinil a cada 5s junto a uma assistente. A música e seu estilo mexeram tanto comigo que projetava imagens da minha cabeça na parede do antigo Floresta. Eu ouvia o som e via tudo. Ali nasceu uma nova dimensão e vislumbrei ser VJ.

Em 1997 conheceu o Alexis que trazia sempre uns videocassetes nas festas, com fita de uma bailarina, projetando numa festa para amigos, do Juarez Petrillo (DJ Swarup, um dos idealizadores do Universo Paralello), que estava namorando uma grande amiga.

Em 2000, quando já estava em São Paulo, na minha sala de casa o VJ Vortex, e o Alexis estavam fazendo os visuais da primeira edição do Skol Beats. Eu morava com o Ernani (o VJ Vortex), o Alexis morava na sala, na época eu já  trabalhava na revista Bravo, pós Playboy.

Gosto de dizer que sou formada pela “escola Duva” - Luiz Duva. Foi onde aprendi o software Isadora, em 2004.

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Em 2005 eu criei o nome Astronauta Mecânico. Várias pessoas se espantavam ao descobrir que eu era mulher por causa do nome. Achava isso bom porque abria caminhos. Desde 2012 controlo os loops “sem-fio” (OSC) criando uma rede com roteador para criar um trabalho cada vez mais longe do computador e da cena, diluindo a imagem da artista ao vivo. Mas agora com meu novo trabalho (Supernatural) estou voltando com os fios, obsolescências e precariedades.

Em 2005 eu iria apresentar meu primeiro live com o Isadora com mini DV na X-Demente no Rio de Janeiro. Mas aí acabei não conseguindo, então abri o Final Cut e fiz totalmente na raça, fazendo scratch na timeline. Não tem tempo ruim. Aí na segunda vez me chamaram de novo e dessa foram 9 telas e 9 horas ao vivo. E foi lindo, fiz mil loops com imagens de Tom da Finlândia, e uma pesquisa vasta do nu masculino. Eram 9 DVDs gravados ligados cada um em um projetor e manipulava as cenas tudo no DVD. Falando em DVD, eu distribuía DVDs para as pessoas de sets que eu gravava, era como se fossem um cartão pessoal. 

De lá fui pro Universo Paralello, convidada pela Adriana Quick, idealizadora do Grupo de circo de Brasília (CIRCULOU) e coordenadora da área cultural do UP.

Foto: Cedida por Guilherme Oblongui

Foto: Cedida por Guilherme Oblongui

Tive uma dificuldade no primeiro dia que não tinha o cabo com comprimento necessário. Mas como acredito que tudo tem jeito, consegui no dia seguinte projetar superando as adversidades, com uma house montada sobre uma estrutura de madeira, quase em cima da árvore, e um cabinho curto VGA ligado a um projetor, com direção artística de Adriana Quick, lado a lado. ELEMENTOS, era o projeto. Criei tudo com base em Pitágoras.

*Wlöd Club foi a primeira casa noturna dedicada à música eletrônica criada em 1996 em Brasília, idealizada por Guilherme Oblongui que convidou o arquiteto e DJs André Costa desenhar o projeto. O espaço era uma oficina mecânica, então o partido arquitetônico foi trabalhar com restos de carros, como nessa foto que tem uma carruagem: O nome Wlöd não tem nenhum significado, mas tinha a intenção de ser um nome curto e remeter aos clubes da Alemanha, berço da cultura eletrônica.

Flyer de inauguração (Foto cedida por Guilherme Oblongui)

Flyer de inauguração (Foto cedida por Guilherme Oblongui)

Percebi que o fluxo é muito presente em seu trabalho. Conte para nós sobre o interesse nessa disciplina, nas correntes elétricas e oscilações de energia. 
Meu pai trabalhava em hidrelétricas e junto com minha mãe (professora na época) sempre investiu para que eu e meus 3 irmãos, entendêssemos de computação e tecnologia. Aos 12 anos lembro que fomos a Aracaju, em uma escola de computação, era 1988. Tudo branco. Professores pareciam enfermeiros misturados com cientistas. Frio do ar condicionado e um monte de computador. Família toda maranhense, moravamos no interior do Pará, na hidrelétrica de Tucuruí, onde vivemos por 10 anos. E por conta desse trabalho, moramos em vários lugares, acampamentos de usinas até chegar em Brasília em 1992. Sempre gostei de postes de energia, torres elétricas, fios emaranhados. Gatos :) Sinto a informação passando ali. A comunicação acontecendo, gerando uma tensão externa.

A obra video instalativa (live ambient)  Supernatural mexe diretamente com a oscilação de energia e cada lugar tem uma resposta. Como tudo está interligado, se ligar um liquidificador muda toda a cena. É um trabalho que comecei em 2015 depois de voltar de uma residência artística que fiz no Japão, durante um mês, num vilarejo próximo a Hiroshima (Arte Ocupa PROJECT 2015 — um projeto de Carlos Henrich). Essa obra é uma pesquisa em transcomunicação, e super acredito que tem gente assistindo do outro lado. Me pergunto às vezes para onde vai esse tanto de imagem que a gente produz. Vai pra algum banco de dados de imagens efêmeras? É o buraco negro, estamos todos lá dentro. O tempo não é linear.

Pelo entendimento que presenciei em seu trabalho “Supernatural” na quadragésima terceira edição do AVAV no Leviatã, percebi de fato um ambiente de ritual e comunicação com outros seres. Conte algumas experiências e como que você relaciona isso com sua ancestralidade por exemplo?
Acredito no rito. No ritmo. Não dá para contar sempre com a sorte. Antes de começar qualquer trabalho, realizo minha mandinga. Além de tudo, uma roupa específica concentra mais e convida para uma atuação ao vivo mais profunda.

Tenho pesquisado muito sobre Benin, sua ligação com o Maranhão. Somos orientais. Nasci em família católica, pratico zen budismo há 20 anos, com simpatia pela Umbanda, Candomblé e Umbandaime. Estou montando trabalho novo baseado nos Zeladores de Voduns e Tambor de Mina que é o culto trazido pela Rainha de Daomé (atual Benin. ela foi vendida como escrava em Uidá, por um de seus filhos), escravizada e trazida para o Maranhão. Acredito nessa voz e quero ser o canal de transmissão audiovisual desta energia que me forma e transforma. Dá uma olhada do trabalho Índios feito em 2018.

Olho esse trabalho (Supernatural) e acho tão tribal e primitivo. Tem um som uma vibração que me chama. É um xamanismo mesmo. O trabalho é bem mercuriano e acho que a gente trabalha bastante com Exu, ainda mais fazendo noite. Eu acho que tem que abrir esses portais mesmo. Mas eu controlo a energia para não entrar em uma vibração baixa porque é muita responsabilidade. Se você está fazendo uma rave ou uma festa, pra levar alguém pro buraco é dois segundos. Gosto de salvar quem tá na bad (risos). Se cada loop que se cria vai nessa intenção, o conjunto dá certo.

Edição 43 do AVAV

Você possui trabalhos gráficos tal como o desenho de uma calçada em Belo Horizonte a convite da arquiteta Fabiana Izaga. Como que ocorreu esse convite?
Cheguei em Lisboa no 11 de setembro de 2001. Lá vivi na casa da pintora Luisa Soeiro, que me pôs a desenhar. Uma busca na fuga de São Paulo. Voltei ao Brasil dali 1 ano e fui viver no Rio de Janeiro, onde decidi morar num templo zen budista em Copacabana. Alí conheci a arquiteta Fabiana Izaga que frequentava as meditações e desenvolvi amizade. Ela me convidou em 2004 para participar de um projeto que estava fazendo em Belo Horizonte pelo estúdio iZLP e queria um desenho para uma calçada de pedra portuguesa. Foi inspirado um pouco nos desenhos de Escher. Se chamava “Men at work” mas acabei trocando pelo nome “Gira” para ser mais feminino, cíclico e brasileiro. Quando cheguei lá para ver o projeto descobri que a região era a área dos afters das festas (risos) mineiras.

Foto: Veruscka Girio

Foto: Veruscka Girio

E como eu foi essa experiência de morar num templo budista?
Em 2002 voltei de Portugal sem grana. Tinha jogado tudo pro ar em 2001, saindo da revista BRAVO! e acabei retornando ao Brasil sem grana. Eu tinha vendido meu computador em Portugal e cheguei no Rio procurando um lugar em conta para viver. Já não suportava o ritmo de São Paulo. Foi então que me falaram desse templo que era possível morar (moravam leigos e monges), mas tinha que pagar mesmo assim um aluguel. Então perguntei se eu poderia trocar algum serviço meu para ficar lá de graça. Disse que pintaria parede, faria faxina, mas o responsável disse que não precisava de alguém para isso. Até que disse que eu fazia websites, porque na época eu já mexia em HTML, e aí fui aceita na hora. Então fiquei lá por um ano, meditando diariamente e trabalhando na identidade visual e nas mídias do templo e de monges (Sociedade Soto Zen). Escrevi até um discurso para um monge vindo do Japão que não falava português. Meu inglês (sempre péssimo) junto ao dele resultou num discurso zen, que ele lia em todas as ocasiões enquanto esteve no Rio de Janeiro. No templo eu trabalhava dentro do escritório e biblioteca do Mestre Tokuda San. Tinha computador, scanner e impressora e uma coleção de livros budistas. Meu objetivo era retornar ao Brasil e manter minha prática zen, sem precisar estar no topo do Himalaia. Esse templo fica na subida do Pavão Pavãozinho, em Copacabana. Era meditar, dar um tchibum em Ipanema e trabalhar.

Voltando à retrospectiva da carreira de designer gráfica, você foi editora de revistas como Caros Amigos e Bravo, conte um pouco sobre isso e como que essa experiência reverbera em seu trabalho hoje?
No final de 1999, após levar um cano de sociedade vindo de Brasília para São Paulo eu conheci a Clarissa Tossin que me abriu portas nas redações da Editora Abril e tive meu primeiro emprego na Playboy — tomava café com a Tiazinha (risos) e almoçava com Ariane (responsável por fechar contrato com as fotografadas). Era a época da virada do analógico (Paste Up*) para o digital e poucas pessoas sabiam mexer nessas novas ferramentas como QuarkXpress, Photoshop e Illustrator. Mas em Brasília já estávamos pesquisando resolução e sabíamos dos 300 dpi. 

Então depois de três meses já consegui trocar de emprego e ingressar como chefe de arte e depois editora de arte revista BRAVO!, com 24 anos. Conheci a redação que “comandava a pauta de cultura do país”. Minha diretora de arte era Noris Lima, com quem aprendi bastante. A equipe de revisão e de pesquisa fotográfica, além da arte, eram onde eu ficava mais tempo. Trabalhar com Edu Simões me abriu um portal para fotografia. Conheci Anya Teixeira, recém chegada de Londres, de Squats, um balaio de informação de arte sem sim. Lá conheci Gisele Kato, Vera de Sá, Michel Laub, Wagner Carelli, Mabel Boger, Tomaz Klotzel e uma equipe à frente de internet. Uma escola muito importante na minha carreira. Um prazer ter passado por boas redações, onde o conhecimento é compartilhado. 

De 2004 a 2006 fui diretora de arte na Caros Amigos e trabalhei com Sérgio de Souza (o Serjão) o caro amigo que juntava aquele tanto de pensadores. Aprendi muito sobre reportagem com Marina Amaral e Natalia Viana (hoje são A Pública — agência de Jornalismo Investigativo). Tínhamos uma mesa de sinuca no centro da redação, que reunia figuras como Chico Buarque, Suplicy, Pereio e uma garrafa de uísque. O projeto gráfico era do Farah e peguei o bastão da antiga diretora de arte, e amiga, Flavia Castanheira (havíamos nos conhecido e trabalhado juntas na BRAVO!). 

Comecei a me cansar de trabalhar sentada no computador e quis ter um maior distanciamento da tela e ir pro ao vivo. Então comecei a pesquisar diferentes formas de expressão e busquei C++ (linguagem de programação e arte generativa) — um passo para me transformar em VJ e assumir uma linguagem em tempo real. Descobri pela internet o trabalho do Dimitre Lima que muito me inspirou. Depois de uns 10 anos viramos amigos reais.
Em 2003 eu imprimia nos slides em tiff, usava em grande quantidade e fazia a videotecagem ao vivo em alta velocidade. Minha estréia foi em Caminhos de Sangue, espetáculo teatral do ator, diretor e irmão Camilo Pellegrini, no Teatro Café Pequeno, Rio de Janeiro. 


*Paste Up (colar em cima) é um método de montagem de arte-final, que antecede as artes-finais digitais, com o processo todo no papel, colada sobre papel cartão com overlay e encaminhada para reprodução em fotolito. 


Conte para nós sobre o surgimento do AVAV e principais mostras?
O AVAV - Audiovisual Ao Vivo (se fala avê avê, mas a maioria das pessoas prefere Avávi) surgiu em 2012 dentro do Epicentro Cultural para movimentar a cena artística do tempo real. O Epicentro foi uma importante plataforma de lançamento de projetos e artistas, com suporte técnico primoroso. Fui uma das sócias-diretoras do centro cultural que encerrou seus trabalhos em 2015. A convite de Cassiano Reis, estive a frente do módulo de interface e novas mídias. Os sócios eram Eu, Cassiano Reis, Mariana Coggiola, Felipe Crocco, Redson Cólera e João Noronha. Idealizamos um centro cultural que seria um epicentro de encontros e trocas. Tínhamos apoio financeiro para nossos projetos. Ao invés de investir em um atelier para mim, reverti o dinheiro e criei um micro edital para movimentar e esquentar o circuito de audiovisual ao vivo. O AVAV funciona sempre por inscrição, com a proposta de ser mensal e sempre ter registro imaterial de todas as obras, já que é tudo ao vivo e único. Fotografias de Nino Andrés e a maioria da documentação em vídeo por Danilo Dilettoso, com produção técnica de Foguinho Nômade. Atualmente é semestral, com 8 obras audiovisuais ao vivo e contamos com a sempre parceria da Nova Locações (projetores).

Participei do Live Cinema em 2011, e a partir dali o tempo real virou se abriu para mim. A posição da plateia, o público participativo, essa fusão com a obra do artista, é o que movimenta este projeto. Meu trabalho, como idealizadora e curandeira, é dar suporte a esta cena e manter os artistas. Como artista, é não fazer obras AV que se limitam a barulhos estomacais. Sempre me irritaram muito (risos).
AVAV é uma mostra de manipulação de imagem e som em tempo real. Nascida em 2012, vem fortalecendo o circuito nacional de audiovisual ao vivo, gerando um mapeamento da produção de artistas ligados às várias vertentes da performance audiovisual em tempo real, com o objetivo de documentar amplas manifestações artísticas, efêmeras e imateriais. São 43 edições registradas em fotografia e vídeo full hd. Mais de 250 artistas já manipularam suas obras ao vivo, exibidas em São Paulo, Paris, Lisboa, Havana (12ª Bienal de La Habana) e Tóquio.

Direcionada a artistas visuais, sonoros, performáticos, criadores e pesquisadores audiovisuais de manipulação de imagem e som em tempo real.

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Apresentamos a Bienal de Havana em 2015 com 4 obras do AVAV:

Astronauta Mecanico - Déjà Vu

Danilo Dilettoso - Eruzione

Gabriel Brito Nunes - Olhar d@ Outr@

Márcio Vermelho - Déja Vu

Mariana Coggiola - Meditango

E foi um desafio porque nosso trabalho era sem fio e em Cuba não podia entrar com roteador, telefone e microfone, tudo que gera uma telecomunicações.

Chegamos 10 dias antes da Bienal e nós queríamos fazer experimentos de rua nos momentos livres. E aí teve um momento que chegou a polícia com a representante e vice presidente da Bienal. Enquanto eu comia fricassê com Márcio Vermelho, o Danilo documentando, o Gabriel travestido, com os bicos dos seios abertos com uma gopro e uma gopobre (cada na qual registrava as pessoas que conversavam com ele, que fazia ponto na esquina) com suas imagens projetadas em um prédio. A casa que GBN escolheu para projetar era de uma artista que denunciava questões do regime cubano, mantendo um microfone aberto na sala de sua casa, diariamente, para quem quisesse falar sobre o regime. Então nós como convidados da Bienal estávamos projetando na casa errada, B.O.

A representante me abordou com 6 policiais atrás, e sabia o nome de todo mundo e perguntou o que estávamos fazendo. Eu disse nós tínhamos chegado uns dias antes da Bienal e estávamos testando nossas obras na rua porque eram inéditas, são experimentos. E então a senhora respondeu que aquilo era um escândalo internacional e foi chamada para pararem e não termos problema. 

Então eles pediram pra desligarmos tudo, então eu disse, acho melhor vocês falarem diretamente ao artista que está performando pois não me sinto no direito de fazer isso. Então foram os policiais lá falar com o Gabriel de travesti com as câmeras nos peitos e nesse momento os policiais estavam sendo projetados no prédio (risos).
Eu já havia estado em Havana no ano anterior, como fotógrada documentarista, realizando um projeto para A Pública, a convite — e lado a lado — de Marina Amaral. 

Foto: Veruska Girio

Foto: Veruska Girio

Como que aconteceu a sua ida ao Japão?
Foi através do ArteOcupaPROJECT2015 — um projeto de Carlos Henrich em 2015 uma residência artística nas montanhas no vilarejo de Fukiya (Okayama/Japão). Mesmo ano da Bienal de Havana. Voltei de lá com uma carta-convite do Japão. Ocupei e fiz uma vídeo instalação manipulada em tempo real na biblioteca escolar de uma escola desativada. Realizei exibições interativas diárias, abertas ao público, provocando visitantes a construir sua própria narrativa. Nosso grupo foi formado por artistas japoneses, europeus, uma africana e eu de brasileira. 

Expus em Takahashi no Shoyu Museum a instalação audiovisual generativa “Sólidos Platônicos” durante o mês de dezembro de 2015. Ao final da residência, aconteceu a edição 36 do AVAV, e nos apresentamos ao vivo em Tokyo.

O Arte Ocupa é uma residência artística que começou em Lisboa e pesquisa o limite entre a arte e a loucura. Geralmente acontece em locais de grande circulação e em horário comercial. O público visita o espaço enquanto o artista cria, com atelier aberto. Eu fui pela primeira vez como “fantasma” do artista Ivo Bassanti, numa edição em Hamburgo (Alemanha) no bairro de resistência Gängeviertel, onde não havia moeda, somente trocas. São 14 prédios ocupados pela população no pós guerra. Ivo me levou na mochila para esse encontro poderoso e transformador de arte. Formamos um duo que chama ZigZagSheriff e nos adaptamos ao espaço para realizar performance audiovisual em tempo real.

O fantasma é uma espécie de convidado que não tem a obrigação de estar todos os dias na ocupação artística, com a ideia de aumentar ainda mais o grupo, que só expande. Apresentada na Finissage, a obra “Sharks and Birds” era uma galeria de vidro observada externamente com câmeras com projeções de tubarões ao meu redor. Quis falar sobre como somos observados o tempo todo. Os tubarões são a Polícia de Hamburgo. Que vigia e tenta ter de volta os 14 prédios. Espia, infiltra, especula. 

Conte sobre o festival Brasil Rural Contemporâneo. Um projeto enorme com várias bandas, como que você subdividiu tanto o processo de criação do conteúdo, quanto de operação de VJ?
Foi um importante projeto do Ministério do Desenvolvimento Agrário, do Governo Federal do PT. Uma feira gigante de pequenos produtores de orgânicos do Brasil inteiro. Comecei como VJ dos shows que rolavam de noite, na Mariana da Gloria, no Rio. Eram 5 noites, com atrações como Gilberto Gil, Beth Carvalho, Jorge Ben, Bule Bule, Zabé da Loca, Leci Brandão, Elza Soares, Mautner, Cordel do Fogo Encantado, Otto, Tom Zé, Paulinho da Viola, Alceu Valença, entre tantos artistas brasileiros. Grandes shows, para os quais eu criava um videocenário específico e inédito. Também tivemos edições em Brasília e em Porto Alegre.

Houve um ano (quando o Rio ganhou para sediar as Olimpíadas) que foi bastante trabalhoso. Fui responsável por toda a identidade visual gráfica da feira, criando desde totens, painéis, comunicação em geral, sinalização, além do videocenário de todos os shows. Montei equipe e conseguimos entregar um bom trabalho. Chamei Cassiano Reis e Claudia Toledo para criarem ilustrações que seriam a base das minhas animações. Tenho mais de 3 mil loops pessoais e somando com loops de outros festivais chegam a mais de 10 mil. A diretora artística Carla Joner gosta e respeita muito o meu trabalho e me dá carta branca para criar. A recíproca é verdadeira. Jenny Choe abriu essa porta para mim, uma super produtora cultural do Brasil. Equipe de talento e vontade de apresentar um bom trabalho. Um modificador no meu caminho. Meu banco de imagens é dividido em pastas emocionais, gerenciado de acordo com sentimentos. Assim, quando preciso de um loop, busco por amor, saudade, loucura...

Com essa equipe, agora maior por se tratar do MDS (Ministério do Desenvolvimento Social) fizemos a Rio+20. Desta vez era um programa que debatia o meio ambiente e o futuro, transmitido pela internet. Eu fazia o fundo de palco e todos os shows, sempre ao vivo. Era uma exigência enorme, e eles sempre traziam os melhores painéis de led para o Brasil. Painéis moldáveis, alta resolução. Em uma das edições eu chamei meu amigo produtor Cau Lopes para intermediar a produção do palco e poder ficar um pouco em paz e produzir o conteúdo.

Na primeira edição (2008) eu conversei com o duVa e ele me disse “oh se prepara porque dar ruim, registra tudo que acontecer e vai preparada”. Ele se referia às empresas de led que dependendo costumam fazer um certo corpo mole com o VJ para que o cliente contrate um operador da própria empresa locadora. Além do machismo que domina essa (entre tantas) área. E dito feito. Cheguei lá na house mix o painel estava montado passando videos em ótima qualidade pelo computador do técnico. Então foi minha vez de plugar e o rapaz me deu um cabo RCA estranho e meu vídeo saiu todo travado! E aí eles culparam meu computador! Mas eu sabia que era outro cabo o DVI e que não queriam cabear por ser mais caro passar um cabo tão longo. Nesse momento chega a produtora e eu perguntei a ela qual imagem que ela preferia mostrando que tinha diferença de cabos e ela confirmou que queria o DVI e portanto os técnicos teriam que cabear, ou achar uma solução melhor para exibição da minha imagem. 

Aí quando pluguei minha imagem ficou toda chiada. Achei estranho de novo porque percebi que estavam agindo de má fé. Percebi que na mesa de video (Panasonic) tinha um botão de efeito ligado, desliguei e minha imagem ficou perfeita. Deixei o botão ligado de volta e fui falar com os técnicos. E os técnicos sempre despreocupados falando de coisas aleatórias como “ah me empresta um desodorante?”... O cara chegou e perguntei que botão era aquele e ele se fez de desentendido, e aí eu dei o maior esporro “O que que você tá querendo fazer? Destruir meu trabalho!?!” Virei um bicho, nem sabia que eu falava assim (risos). Mas aí no final a gente se abraçou e ficamos emocionados com tamanha beleza do evento.

Abstrato e figurativo. Como que você opera essas duas linguagens? 
O que me interessava no figurativo pra mim era tentar criar algo exatamente o que pensava e nunca saia como pensava, e essa era a graça. Às vezes eu pensava, vou fazer um cachorro assim e às vezes saía um gato. Picasso dizia que se você for desenhar exatamente o que você pensa, que graça tem? E aí quando chega no abstrato da eletricidade respondendo aos televisores de tubo, eu achei infinito! Eu achei uma linguagem não apenas pura mas muito mais livre. Trabalho sem computador, somente com máquinas, câmera mini-dv, monitores e televisores de tubo. E as cores em cada tubos serem exatamente diferentes. Cada um tem um problema, cada ligação é de um jeito.

É sobre lidar com problema. No Live Cinema em 2011 eu fiz o Fail - falhar é preciso - para lidar com essa questão da imperfeição como desencadeador de emoção. O povo no final não sabia se vaiava ou se aplaudia. Acho que é isso que é arte. Você não tem que aplaudir. Esse trabalho objetivava mexer com o constrangimento. Você não sabia o que fazer com aquela obra. Eu falhei, mas acabou sendo uma falha descontrolada na primeira vez. Era uma falha com computador, o sistema caía e não voltava mais e mas com arquivos reais. Afinal porque tanta perfeição, porque essa busca incessante se não somos perfeitos? E eu acho que é por isso que emociona não acha? Temos que trabalhar isso. Mas aí sempre quando estou nesses trabalhos eu começo a falhar em tudo (risos).
Me apresentei nas principais festas e clubes de São Paulo desde 2005.
Com mini tours em Paris (Batofar), Lisboa (com ZigZagSheriff também em Hamburgo), Berlin (SO36 e RauschHauss — Ladyfest, na época do BAR25) e Barcelona na KGB com as LesFatales e Visual Brasil.

Às vezes eu me apresentava e alguém dizia “nossa adorei aquele golfinho”, ou “detestei aquela suástica…” Mas não tinha golfinho nenhum e a suástica que conheço não pertence ao nazismo. Já fui a Índia. 

Nesses figurativos eu faço batimento com a luz da pista, faço 6 ao mesmo tempo, então tudo pisca e as imagens vão todas juntas. O Isadora permite isso, mesmo que o software trava, ele ainda segura. E aí às vezes nesse batimento alguém vê um golfinho, ou uns negócios que eu nunca fiz!

Isso tem a ver com a nossa retina e a fixação da imagem. Tipo quando se vou ao banheiro e o olho o ralo depois olho pro teto e vejo o ralo lá no teto também. Sempre observei a sombra ao chão e joguei para o céu para ver o corpo mais ao alto. Atualmente trabalho com video mapping em suportes não convencionais. Aprendo muito com o VJ Gabiru (BA), um mestre.

O gato Benjamin tem sua ilustre participação no live do Supernatural. Ele contribui com mais camadas de respostas de frequências nos televisores e sons.

O gato Benjamin tem sua ilustre participação no live do Supernatural. Ele contribui com mais camadas de respostas de frequências nos televisores e sons.

Quais são suas referências para seu processo?
Claude Debussy, Ada Lovelance, Pitágoras.

Qual é a sua missão com o seu trabalho?
Eu gosto de circular. Cada local tem sua potência e gosto de traduzir essa energia. Crio diários gráficos em que sinto as linhas diferentes para cada cidade. Minha missão é trocar. Ser um canal de transmissão. Aberto. Conectado. Aproximando a comunicação de outras dimensões sem atrito.

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+++ Confira mais trechos da entrevista nesse link.