Três discos recentes que mostram a força da alma feminina

Por Cleber Facchi (Miojo Indie)

Em um ano de grandes lançamentos nacionais, três vozes se destacam. Guiadas pela poesia feminista, o debate sobre gênero e a libertação da alma feminina, Anelis Assumpção, Ava Rocha e Maria Beraldo são as grandes responsáveis por alguns dos trabalhos mais complexos (e provocativos) apresentados nos últimos meses. São obras que brincam com a colorida sobreposição de ideias e ritmos, experimentais, porém, capazes de seduzir o ouvinte logo em uma primeira audição.


Anelis Assumpção
Taurina (Pomm_elo/Scubidu)

anelis-assumpção-2018.jpg

Desde a estreia, com o bom Sou Suspeita, Estou Sujeita, não Sou Santa (2011), até alcançar o colaborativo Amigos Imaginários (2014), Anelis Assumpção sempre encarou a si mesma como a protagonista da própria obra. Frações poéticas e instrumentais que alcançar melhor resultado em Taurina, terceiro álbum de inéditas da cantora, filha de Itamar Assumpção. Inspirado pelas vivências, reflexões e histórias acumuladas por Assumpção nos três últimos anos, o álbum nasce como um curioso exercício da cantora em traduzir musicalmente a própria alma. Para além do campo astrológico detalhado no título e imagem de capa do trabalho — projeto assinada pela artista visual Camile Sproesse —, canções que refletem o poder do eu lírico feminino, a sexualidade e vulnerabilidade da mulher, estímulo para cada uma das 13 composições que movimentam o disco.


Ava Rocha
Trança (Circus)

ava.jpg

A versatilidade talvez seja a principal marca do som produzido pela cantora e compositora carioca Ava Rocha. Exemplo disso está na criativa colisão de ideias que orienta o terceiro e mais recente álbum de estúdio da artista, Trança. São 19 composições inéditas que se espalham em um intervalo de mais de 60 minutos de duração, como um criativo ziguezaguear de ideias que transporta cantora e ouvinte para diferentes cenários. Parte dessa rica colcha de retalhos poética nasce da relação da cantora, filha do cineasta Glauber Rocha, em dialogar com diferentes representantes da nova safra da música popular brasileira. São nomes como Linn da Quebrada, Karina Buhr, Juçara Marçal, Curumin e Tulipa Ruiz. Instrumentistas e vozes responsáveis por completar as pequenas lacunas de músicas como Joana Dark, Continuente, Periférica e Singular. 


Maria Beraldo
Cavala (Risco)

amaria.jpg

Cantora, compositora, produtora e clarinetista, Maria Beraldo passou os últimos anos se revezando em uma variedade de projetos da cena paulistana. De trabalhos com veteranos como Arrigo Barnabé e Elza Soares, ao encontro com nomes como Iara Rennó, sobram colaborações bem-sucedidas da artista. Nada que se compare ao trabalho de Beraldo no primeiro álbum em carreira solo: Cavala. Do momento em que tem início, no rock eletrônico e sensual de Tenso, passando pela reinterpretação de Eu Te Amo, de Chico Buarque, cada elemento do disco reflete o cuidado da multi-instrumentista na composição de cada elemento. Canções ancoradas em relacionamentos não-binários (Da Menor Importância), ou mesmo versos em que Beraldo discute a própria sexualidade (Amor Verdade). Uma criativa obra de ideias e experiências compartilhadas ou, como resume o texto de apresentação do trabalho, o “grito de liberdade de uma mulher lésbica“.