Percepção Sonora: Personalidade Musical

por Audiomancer

“Ensinaria às crianças música, física e filosofia; especialmente música, porque os padrões musicais e artísticos são as chaves para o aprendizado” — Platão

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Recebi, nos últimos meses, pedidos de amigos para voltar a escrever sobre música, e principalmente áudio, uma vez que tem sido minha área de atuação profissional nos últimos seis anos. Um assunto que me vem sempre à mente diz respeito ao som absurdamente alto e reverberante de boa parte das festas; porém, neste retorno, resolvi falar sobre um tema reconhecidamente fascinante: a personalidade musical.

"Música é espírito”, costuma dizer Vítor Cabral, um grande amigo baterista de Jazz. Possui valores emocionais e culturais inestimáveis. É capaz de criar experiências corpóreas das mais diversas e intensas. Há um provérbio que diz que música é a linguagem das emoções, engendradas em simultâneos fenômenos que vão do melódico-harmônico ao rítmico. Um dos maiores choques que tive como leitor ocorreu no instante em que li, em um dos capítulos iniciais de ‘This Is Your Brain On Music’ do músico neurocientista Daniel Levitin, que "música é percepção sensorial e ilusória criada pelos nossos padrões neurais". Música é sensação, não um fenômeno físico ou matemático. Certamente existem os fenômenos físicos externos, ou seja, as ondas sonoras decorrentes de variações de pressão em diferentes frequências que, ao entrar em nosso sistema auditivo, provocam as tão estimadas sensações musicais a partir das reações do nosso cérebro. 

Vamos falar destas sensações musicais. O que é capaz de nos fascinar tanto na música? Em primeiro lugar, é um universo de expectativas e satisfações sensoriais, com parâmetros estruturais criados, sugeridos, desviados, surpreendidos e confirmados. Constantemente, mecanismos perceptuais são construídos em nossa inteligência musical que interagem com as informações eletroquímicas de entrada ao ouvirmos novas obras. 

 “Quando somos envolvidos por músicas brilhantemente compostas, experimentamos entendimentos que ultrapassam os da nossa existência mundana”, diz Robert Jourdain. 

Mas e a tal da personalidade musical? De onde surge? Por que preferimos alguns gêneros musicais em detrimento de outros? Como construímos esta unidade formada pela integral dos nossos sentimentos sonoros? Afinal, ouvimos música pelo que representa para nós sensorialmente. A nossa mente pode ser agraciada com experiências de vários tipos, decorrentes de criatividade artística, virtuosidade, ou então, situação mais comum, padrões sonoros que já assimilamos, achamos interessantes e nos causam prazer independente de complexidade. 

Audição de alto nível, por outro lado, é conquistada com o tempo. Constituída de habilidades complexas, se baseia em descobertas de relações mais profundas dos elementos musicais em uma obra. Percebemos então estruturas musicais mais abrangentes, progressões harmônicas sofisticadas, ritmos complexos, criatividade estilística, abordagem estética desafiadora, entre outros fatores. Todos contribuem para uma personalidade (ou identidade) musical mais desenvolvida. 

Como tudo isso acontece? Há muitos elementos que interagem no processo. O tema é profundo demais para se abordar em uma única coluna, porém, na medida do possível, tentaremos ajudar você a encontrar respostas. Há parâmetros que podem ser medidos, e outros que não. “A reação do ouvinte à música é intrinsecamente relacionada ao seu estado de espírito subjetivo naquele momento. Uma parte da sua experiência é derivada da projeção das suas emoções pessoais, muito mais do que a obras musicais em si”, diz Anthony Storr, autor de ‘Music & The Mind’

Soma-se a isso a predileção, segundo Jourdain, por certos gêneros pelos seus significados culturais e políticos, o que ele chama de um simbolismo social. Há também os aprendizados musicais da primeira infância, e as preferências dos grupos de amigos na juventude. Quais são fundamentais?

Podemos, para ir diretamente ao ponto, considerar a nossa persona musical por dois pilares fundamentais: 

  1. A história musical de cada um, fruto das primeiras audições (principalmente do sexto mês da gravidez da mãe aos oito primeiros anos), e de eventuais treinamentos ou aprendizados musicais no mesmo período, um tremendo propulsionador da inteligência musical e de todas as memórias decorrentes destes; 
  2. O sistema auditivo neurológico de cada um, considerando todas as partes do nosso cérebro envolvidas na nossa audições e percepções musicais, as nossas redes neurais envolvidas, e o nosso sistema auditivo externo, das orelhas à cóclea. 

Estes dois fundamentos certamente estão por trás das nossas predileções musicais, rejeições, indiferenças, e quaisquer outros sentimentos. Formam-se preferências cognitivas, ou seja, pendores para certos tipos de música cujas estruturas complementam as nossas habilidades auditivas e causam extasiantes reações. (O lado oposto, da repulsão, também é verdadeiro e faz parte da nossa personalidade musical.)

"A música pode ter uma quase perfeição matemática e formal esplêndida, e ao mesmo tempo pode ter ternura de partir o coração, pungência e a profunda beleza. Tudo isso sem precisar ter um significado”, declarou Oliver Sachs.

O impacto que a identidade musical tem em nossa vida é incalculável, não só para compositores, músicos, cantores, produtores, DJs ou engenheiros de Mixagem, mas para todos os ouvintes intensos. Seja você quem for, orgulhe-se da sua, e busque sempre expandi-la.