Trinta Anos de uma Era (1988-2018) • Parte I: A Cultura Club

Por Audiomancer

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Ao ouvir e me deleitar novamente com ‘Feel Surreal’ do Derrick May, veio-me imediatamente à cabeça que, a obra, feita em 1988, tem três décadas de existência. Comecei a lembrar o que mais rompia as barreiras naquele ano em matéria de cultura club, e me veio imediatamente uma sequência, que ia da estrondosa ‘Video Crash’ do Tyree (uma resposta ao 'The Original Video Clash’ do Lil’ Louis), o LP ‘Another Side’ do magnífico Fingers Inc. de Larry Heard, a celestial ‘Open Your Eyes’ do Marshall Jefferson, 'This Is Acid’ do Maurice Joshua, ‘We Are Phuture’ do Phuture, e por aí vai. Chicago fervilhava, e dentro dela, o templo underground Music Box, de Ron Hardy.

Naquele mesmo ano, acontecia o apogeu do movimento Acid House na Europa, e o indefectível verão do amor (Summer of Love). Foi o início da jornada de personagens que tomariam a linha de frente nos anos noventa: Gerald Simpson lançou ‘Voodoo Ray’; 808 State, ‘Flow Coma’; Brian Dougans, que mais parte faria parte do The Future Sound Of London, produziu ‘Stakker Humanoid’; KLF, ‘What Time Is Love’, entre outras essenciais que ecoaram durante todos os anos subsequentes.

Em Detroit, o Inner City, em 1988, escreveria seu nome na história com ‘Big Fun’ e ‘Good Life’, responsáveis por trazer aquela cena a outro patamar, de muito maior alcance de público, uma vez que se tornaram hits de rádio e das pistas de dança, do hemisfério norte ao sul. Foi quando Neil Rushton compilou para a Virgin a coletânea Techno! The New Dance Sound Of Detroit, que incluía obras do Derrick May, Juan Atkins, Eddie Flashin Fowlkes, Blake Baxter, Anthony Shake Shakir e o próprio Kevin, o que impulsionou a cena de Techno de forma definitiva no velho continente.

No mesmo velho continente, fervilhavam, a exemplo da Inglaterra, as cenas belga e alemã. The Klinik e Front 242, referências da Electronic Body Music, viveram momentos cruciais: respectivamente, The Klinik com ‘Pain And Pleasure’, ‘Fever’ e ‘Face To Face’, sobretudo ‘Moving Hands’ e ‘Go Back’; do outro lado, Front 242, com o aclamado LP ‘Front By Front’ com ‘Headhunter' e 'Welcome To Paradise'. Em Ghent, havia ainda a nascente história da R&S Records, que começou em 1985, mas chamou a atenção entre 1987 e 1988 com uma geração que se tornaria referência, de Cisco Ferreira, com Ghentlon, a CJ Bolland, que com Cisco formou Space Opera.

E a Alemanha? Estava no ápice da cena de Frankfurt, encabeçada por Talla 2XLC, fundador do Techno Club no Dorian Gray Airport, e também o principal curador da gravadora Techno Drome International, subdivisão da ZYX, que lançou de Robotiko Rejekto a Bigod 20 e Pankow. Era o que os alemães denominavam ‘Techno’ na época: uma fusão com traços tipicamente alemães de Industrial, EBM, e do Synthpop que eles faziam.

Do outro lado do Oceano Atlântico, Frank e sua esposa Karen Mendez criariam a Nu Groove Records, no mesmo ano em que saiu ‘Your Love’ do Aphrodisiac (Ronald Burrell), ‘My Love Is Magic’ do Bas Noir, e um single obscuro de Acid House chamado ‘Sex 4 Daze’, de um jovem chamado Frankie Bones, que no mesmo ano lançou dois volumes iniciais da sua série Bonesbreaks, que conquistou, entre outras, a nascente cena inglesa de Techno Rave, e futuramente Hardcore. Na mesma Big Apple, o DJ Todd Terry, um dos precursores do Hip House emplacaria, sob a ótica do genial uso de samples, o seu incrível LP ’To The Batmobile (Let's Go)’, além de ‘Can You Party’ e ‘A Day In The Life’ (com seus projetos Black Riot e Royal House).

Quanta coisa aconteceu em 1988.  Ano em que muitos de nós, ainda no colegial, ouvíamos exaustivamente as fitas gravadas dos LPs e dos K7s de amigos nos corredores dos colégios, quando não nas salas de aula. Havia uma verdadeira fraternidade das fitas cassete, e dependíamos da boa vontade de quem tinha acesso às músicas. Foi assim que, por acaso, ganhei duas fitas de 90 minutos de um belga através de um amigo comum, francês. Quando ele soube que elas pararam nas minhas mãos, ficou bravo.

Havia um sentimento de que aquela cultura abrangia muito mais do que música, como verdadeiro movimento que incluía comportamento, moda, um estilo de vida. Quem viveu aquela cena achava, não raro, que os hits dos anos oitenta de apenas cinco anos antes eram ultrapassados. Na perspectiva de hoje, muitas das obras de 1988 foram essencialmente influentes nas três décadas seguintes.

Encerramos aqui a primeira parte, e no próximo capítulo, prometemos discorrer sobre a era do sampling na metade final da década de 80, e mais especificamente em 1988. 

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