Ananda

Por Chico Cornejo
Fotos
Mariah Leal

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Por mais que alguns preconceitos bem arraigados e nocivos coloquem o Techno como algo infenso às ensolaradas paisagens cariocas, é fácil pô-los por terra após uma simples apreciação da história do gênero na Cidade Maravilhosa. Nela abundam talentos e projetos que se tornaram parte essencial de sua instalação e desenvolvimento no Brasil e, entre eles, alguns de inegável excelência como o de Ananda Nobre, tanto por seu papel na produção e circulação de energia musical pela urbe através de iniciativas como o arrojado Kode Project, ou como fonte de euforia dançante em sets que formam um belo equilíbrio entre constância e potência.

Mas além de ser uma peça central nas forças que dão pujança ao cenário local, sua atuação se manifesta de muitas outras maneiras, mas ela toma forma principalmente como propelente de um mecanismo de militância coletiva que procura recobrar os espaços femininos nas cabines no âmbito nacional. Tudo isso se coaduna para compor a personalidade vibrante que conhecemos e se faz presente na superação tanto de barreiras musicais quanto sociais com o mesmo vigor, o mesmo que nos presenteou com um mix efusivo como este e a franca entrevista que o acompanha.

Conta para nós como foi que rolou o lance todo com a música e, mais especificamente, o de se tornar uma DJ?
Meu primeiro contato com musica eletrônica foi na adolescência, na antiga Bunker, club aqui do Rio. Eu tinha uns 15 anos na época e entrava com identidade falsa. Tinha uma noite de techno que se não me engano era semanal, ia em todas. Infelizmente não comecei a tocar nessa época, não imaginei que eu pudesse ter uma carreira como DJ, talvez ate mesmo por falta de referencias femininas próximas, algo que acaba sendo bem importante na adolescência. Acabei indo trabalhar em meio corporativo, mas continuei frequentando festas e pesquisando sempre. Alguns anos depois me mudei para SP a trabalho e la tive um maior contato com DJs e festas, por outro lado apesar de estar bem profissionalmente eu fui percebendo que não me encaixava em um ambiente corporativo e o quanto estava infeliz com aquela vida, foi ai que decidi aprender a tocar. Comprei um par de CDJs 350 e passei um bom tempo treinando de madrugada depois do trabalho até ter minhas primeiras gigs. Pouco tempo depois de começar a tocar decidi voltar para o Rio e por incrível que pareça foi aqui que me encontrei musicalmente, mesmo aqui tendo uma cena bem menor que a de SP. Acho que eu esteva inserida em um meio dentro da musica eletrônica que não era para mim e precisei voltar para minha cidade para resgatar a minha essência.

O Rio sempre foi considerado como um terreno meio árido para a eletrônica ou mesmo para a vida noturna de forma preconceituosa e meio chauvinista, mas sempre houve algo legal rolando nos últimos anos e, inclusive, a maior conferência da América Latina voltada ao gênero e seu mercado. Mas, como alguém que faz e movimenta a cena musical da cidade, como é de fato viver, produzir, promover e tocar ali?
Contribuir e ajudar a desenvolver a cena do Rio é uma das minhas metas profissionais. Não quero ser esses DJs que mudam para Berlin para crescer profissionalmente, nada contra, mas eu acho que Berlin, ou até mesmo SP, já tem cenas mais desenvolvidas e aqui eu posso ser muito mais util, obviamente quero sempre que possível tocar fora, mas quero que minha base seja aqui. Apesar de ainda enfrentarmos muitas dificuldades na cena, digamos mais alternativa, eu to muito otimista, temos muitos artistas talentosos e muita gente boa trabalhando para fazer nossa cena ser cada vez mais profissional e sustentável.

E quanto à outra parte inescapável da sua identidade? Como foi amadurecer e se tornar uma artista de proeminência em meio a panorama ao mesmo tempo tão competitivo e tão masculinizado? Mesmo assim, se houve uma parte positiva nisso foi que você e mais algumas mulheres se uniram e lutam para mudar esse estado de coisas, estou certo?
Grande parte do meu progresso profissional dos últimos anos eu devo às mulheres em minha volta, seja através do exemplo ou da abertura de espaços. O fato da cena ainda ser masculinizada é um reflexo do mundo ainda ser masculinizado, mas sim acredito que tivemos importantes avanços nos últimos anos graças à união e luta de mulheres, mas ainda tem muito trabalho a ser feito para termos uma cena mais justa e com oportunidades iguais, não só para as mulheres, mas também para negros e LGBTs. O crescimento no numero de mulheres tocando nos últimos anos é um reflexo da maior visibilidade e oportunidades que as mulheres estão conquistando, por que outras meninas passam a se sentir mais seguras em seguir essa profissão, isso é um exemplo do quanto é importante darmos espaço se queremos mais igualdade.

E este set? Ele tem uma pegada definida ou são muitas? Tem hora certa do dia para curti-lo ou alguma comida e/ou bebida que harmonizem melhor?
Acho que as pessoas me associam mais a uma DJ de techno e eu quis mostrar outro lado que tenho tocado com esse set, apesar de ele também estar presente. Sinceramente sets que seguem um só gênero, mood ou ritmo não tem me empolgado muito. Inclui tracks de amigos como LPZ do Paraguai e A_hank e Betek aqui do Rio.

E quanto ao que nos aguarda em 2019? Tirando o que está ruim, o que esse futuro lhe reserva o que você tem guardado para nós?
Tenho me dedicado bastante a produção nos últimos anos, espero esse ano me sentir mais segura para compartilhar isso. Também vou focar bastante na Kode, que é minha festa que acontece no Rio, estamos com um planejamento de 6 edições esse ano. Outro ponto que quero trabalhar é um maior intercambio de artistas Latino Americanos, a gente acaba só prestando atenção na Europa mas tem muito artista talentoso no nosso continente, essa tem sido uma frente da agencia que faço parte, a Alt Bookings e quero contribuir com isso, além de incentivar minha cena local é claro.