Balako

Por Alan Medeiros (Alataj)

 Fotos: Eduardo Magalhães

Fotos: Eduardo Magalhães

Vivemos um momento especial na dance music brasileira. Depois de um considerável período sem criarmos algo que realmente nos conectasse a esfera global da dance music com a nossa identidade musical, as coisas estão mudando, especialmente graças a uma nova geração de artistas e projetos que com muita inteligência estão olhando para as nossas raízes e bases para criar algo inovador. 

Dentro desse panorama é justíssimo destacarmos o trabalho do duo carioca Balako. Formado por Rodrigo Peirão e Diogo Strausz, o projeto tem como um de seus principais objetivos a conexão entre o Brasil e o mundo, passado e futuro. Seus integrantes se conheceram durante uma gravação em Los Angeles e desde então eles vem construindo uma amizade especial que acabou resultando no projeto Balako. Logo de cara, a dupla brasileira captou a atenção de medalhões da dance music global, como por exemplo Gilles Peterson, Eric Duncan, Tim Sweeney, Luke Howard e até mesmo os brasileiros do Selvagem. A mistura do Balako é, acredite, realmente envolvente e tem tudo aquilo que a gente ama ouvir no dance floor. 

Fruto de uma mistura de backgrounds musicais, como o próprio Diogo confirma, o duo costuma ir da disco a italo music, com paradas estratégicas pelo techno, salsa, carimbó, funk brasileiro, MPB e outros movimentos musicais. Esse mix cativante se reafirma a cada novo lançamento da dupla e às vésperas do release date do EP Jungle Music pela Greco-Roman Soundsystem, Diogo e Rodrigo falaram com exclusividade conosco. Confira.

Olá, Rodrigo e Diogo! Muito obrigado por nos atender. Muitos projetos começam por conta de uma amizade guiada pela música. Ao que tudo indica, vocês são mais um exemplo disso. Qual foi o momento exato que perceberam que vocês poderiam formar o Balako?
Conheci o Diogo durante a produção do EP do Aymoréco e fiquei encantado com o resultado daquele trabalho, assim foi nosso primeiro encontro lá no antigo estúdio do Strausz em Laranjeiras. Acabamos depois nos encontrado em algumas festas e por decorrência do destino embarcamos junto para um trabalho em Los Angeles. Porém o Balako veio de uma ideia de uma festa que nunca aconteceu, num belo dia quando voltávamos da praia para comer um sanduíche de pastrami. Depois disso, fizemos uma imersão de 1 mês no estúdio do Diogo aonde rapidamente encontramos os caminhos que nos levaram ao universo sonoro do Balako.  

Baseado nos dados do perfil de vocês no Spotify é possível afirmar que, ao menos por hora, Balako é um projeto com maior reconhecimento no cenário internacional do que nacional. Ao que vocês acreditam que se deve isso?
Provavelmente isso se dá por lançarmos músicas através de gravadoras que estão em Londres, Berlim e Nova Iorque. Os principais canais de distribuição e divulgação partem de lá. Outro fator que colabora é o grande interesse por música brasileira e outras sonoridades globais nas pistas de dança. Mas isso definitivamente não foi algo calculado, acabou acontecendo e somos muito gratos pela nossa música ser tocada onde quer que seja. Ano passado ficamos dois messes na Inglaterra e fizemos algumas apresentações que definitivamente ajudaram a impulsionar o Balako na Europa. 

 Fotos: Eduardo Magalhães

Fotos: Eduardo Magalhães

Passado e presente. Brasil e o mundo. A bio de vocês deixa claro esse choque delicioso de contrapontos. Como tem sido construir uma história musical que faça sentido dentro desse cenário? Se fosse necessário definir o som do Balako, com vocês o classificariam?
Acreditamos que não existem fronteiras ou formulas para criação. O Diogo vem de uma família musical e eu de uma família que, apesar de não ser de músicos, sempre foi extremamente conectada. Além disso, crescemos em um período muito especial do Rio de Janeiro, tivemos a chance de ver grandes DJs e Produtores nacionais/internacionais se apresentarem em festas como Combo e MOO, que ajudaram a moldar a nossa visão da pista de dança. Já na hora de criar, pelo Balako ser um projeto muito aberto a colaborações, temos a oportunidade de trabalhar com músicos e interpretes incríveis dos mais variados backgrounds. A junção de todos esses universos é a nossa sonoridade.  

Gilles Peterson, Eric Duncan, Selvagem, Joe Goddard e Luke Howard são alguns dos artistas que tem oferecido um importante suporte a música do Balako, certo? O que isso representa pra vocês enquanto produtores?
Sim, além de amigos, todos são artistas que nos influenciam imensamente. Ter o Eric Duncan e o Ray Mang, por exemplo, remixando nossas faixas é algo que nunca imaginei na minha vida, é um sonho. Quando vimos que a nossa música tinha chegado no Giles também ficamos muito surpresos, a gente sempre falava: "Imagina se o Giles tocar um dia nossa faixa", acabou acontecendo.  O Joe foi uma pessoa que acreditou no nosso som desde o primeiro momento e abraçou a ideia. Cada um desses nomes e outros como: Joutro Mundo, Tim Sweeney, Jkriv, Lexx, Gui Scott, Fatnotronic e Man Power são pessoas pelas quais temos muito carinho e respeito, pois são elas que vem abrindo portas para a gente. Isso definitivamente representa muito coisa para nós e acaba sendo um grande incentivo para continuarmos fazendo música. 

Sobre o processo criativo de vocês, como exatamente tem funcionado essa dinâmica?
Não existe uma formula rígida para o nosso processo. Como passamos muito tempo compondo, inevitavelmente acabam surgindo ideias novas. Seja de uma progressão harmônica no violão, uma linha de baixo ou uma melodia que esteja na cabeça. Temos o hábito de gravar as idéias no computador ou no próprio gravador do telefone e depois trabalhamos juntos. Depois o Diogo prepara as demos e desse passo discutimos quem são os músicos que gostaríamos de ter nas sessões, por seguinte vamos ao estúdio gravar. O Diogo faz a mix e a gravadora masteriza. 

Percebo que a boa música brasileira começa a ganhar cada vez mais espaço dentro do nosso país. Na essência, quais são os músicos brasileiros que mais influenciaram a construção do perfil sonoro Balako?
São muitos, o Balako é muito embalado por ritmos. Para citar alguns nomes que gostamos muito: Tom Jobim, Baden Powell, João Donato, Azymuth, Marcos Valle, Arthur Verocai, Robertinho da Silva, Egberto Gismonti, Cassiano, Banda Black Rio, Hermeto Pascoal, Airto Moreira, João Bosco, Sergio Mendes, Djavan, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Lincoln Olivetti, Hyldon, Manoel Cordeiro, Pinduca, Sivuca, Fundo de Quintal, Luiz Carlos da Villa e Roberto Ribeiro. São muitos nomes para citar além de muitos outros(as) que cabem nessa lista

É possível dizer que moda, teatro, cinema e artes visuais influenciam diretamente o cotidiano de vocês? Como exatamente?
Sempre tivemos em mente como isso poderia enriquecer nosso trabalho, pois nos daria acesso para colaborar com amigos e pessoas que admiramos em outras disciplinas. Acreditamos que todas as artes podem ser potencializadas através da junção com a música. Somos ambos muitos fãs de trilhas cinematográficas e inspirados por música orquestrada então: Henry Mancini, Enio Morricone, Ryuichi Sakamoto, George Gershwin, Quincy Jones, Cole Porter, John Williams e Hans Zimmer são grandes referências.

Sobre o futuro: turnês, novidades, lançamentos... o que vocês podem nos contar? Obrigado pelo papo! 
Acabamos de lançar as faixas do EP 'Jungle Music' que é mais um trabalho que sai pela Greco-Roman, nossa gravadora, e vem acompanhado de um remix do Austin Ato para a faixa 'Jungle Music'. Oficialmente, o EP completo sai no dia 17 de Agosto. Lançamos também em julho nosso primeiro 12inch pela Razor-N-Tape o "BALAKO EDITS" com 3 re-edits. Nesse momento o Diogo está fazendo algumas apresentações pela Europa e Nova Iorque para promover esses lançamentos. Esse ano também temos no radar o lançamento de mais um EP chamado 'Cosmic Pará', que é fruto da colaboração com o lendário guitarrista paraense Manoel Cordeiro, gravado no Red Bull Studios em São Paulo no final do ano passado. Além disso, temos no "Baú do Balako" muitas idéias que podem virar um álbum completo qualquer hora dessas...