Ban

Por Francisco Cornejo

Parte instituição, parte inspiração, parte recreação, Ban é principalmente parte fundamental de uma cena paulistana que perdura por uns bons 25 anos. E isso ele tem feito através de uma variedade tão grande de frentes de atuação que é realmente difícil encontrar algum paralelo a sua presença atualmente. Sendo um dos pioneiros nas iniciativas pedagógicas que nutriram e incentivaram várias gerações de DJs e produtores que nos entreteram e educaram nos últimos anos, ele se consolidou como uma figura basilar entre os talentos que povoaram as cabines nesse período.

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Ainda assim, dificilmente ele aceitaria receber os louros por ter criado as condições de aprendizado e experiência para que tantos novatos cultivassem as aptidões que acabaram por se tornar o elemento transformativo central de vários processos de renovação da nossa cena. Ban é daquelas personagens cuja influência se espraia de modo sutil e permanente por quase todos os recantos das atividades que nos alegram diariamente, a cada evento, através de muitos de nossos ídolos e promessas.

O que mais poderíamos querer de nosso seletor nesta ocasião?

Muitos hoje em dia são incapazes de dissociar você da DJ Ban. Mesmo você consegue fazer essa distinção? O que é a Ban sem o Ban e vice-versa?
Pela primeira vez em (quase) 18 anos de empresa estou fora por 18 dias. São férias (quase) férias pois realmente não consigo desgrudar. Tenho uma equipe competente, mas é costume mesmo. A DJ Ban consegue navegar no piloto automático há tempos, ocorre que está em nosso DNA criar e inovar a todo momento, e aí sim entra o Ban. De ideias que eu tenho, ou a equipe tem, após lapidarmos e seguirmos, sabemos que, alem de administrar o já consolidado (e isso toma-nos bastante tempo), cada nova atividade precisará também de uma dedicação, que nem sempre fica somente comigo. Veja o exemplo dos nossos conteúdos em vídeo e workshop: São os professores que aparecem em mais de 80% deles. Eu assumo uma grande responsabilidade a partir de minhas decisões mas a DJ Ban Electronic Music Center realmente é uma baita equipe de gente que ama o que faz, e procura fazer melhor a cada dia, portanto tenho certeza que o meu “nosso” legado continuará se um dia eu estiver por outras Ban-das.

Você entra no grupo dos DJs que eu sequer (já rodado como sou) lembro como e onde começou a tocar. Por favor, para mim e outros que são jovens demais para lembrar, explica melhor como começou e rolou essa aventura aí.
Rodado pra você é pouco, rs. Bem, em 1988 comecei com uns amigos de bairro, e as aventuras seguiram: Montamos em três caras uma equipe de som em 1989, aí até 92 ralei tudo o que era possível e entrei para o time da extinta Warrior (club na Penha, ZL de SP), em 94 entrei também para o time do rádio fazendo locução (Metropolitana FM , até 2004), em 95 fui para Sound Factory (outro club também na ZL), em 97 montei um estúdio para seguir com as produções de áudio que fazia não só para Metrô FM como outras rádios do Brasil, e em 2001, fundei a DJ Ban (que na verdade foi bem por acaso, não seria uma escola e sim um curso para os ouvintes da rádio, porém curti muito o fato de compartilhar conhecimento, fomos crescendo, evoluindo, e se somos algo no mercado, é devido ao nosso time, à nossa total entrega). O “DJ” começou a perder espaço para o empreendedor por volta de 2004, quando saí da rádio para me dedicar à DJ Ban.

Para a cena como um todo e ainda mais sendo alguém que forma futuras gerações de produtores e DJs, como você vê as mudanças que ocorreram nas últimas décadas e o lugar da Ban nisso tudo?
Duas coisas não mudaram e não mudarão: Os que sonham, aprendem e fazem versus os que reclamam.

Falando pelo período da Ban (17 anos e meio) e não do meu (30), também não considerando uma boa parte de alunos, de todas as idades, que apenas querem aprender a tocar ou fazer sua música, sem a intenção de viver disso, resumo em três partes:

1- O público ia a uma discoteca pois escutaria musicas que aquele DJ tocaria, seja pela música em si ou “como” ele tocaria. Eram menores as opções de entretenimento e clubs, mesmo que em menor escala como nos anos 90, ainda existiam. Então o desejo do aluno nesse momento era ter a técnica ou tocar o estilo daquele DJ que ele curtia... Poucos seguiam / seguiram para a produção de sua própria música.

2- DJ passa a ser “artista” e o artista quer ser DJ. Cachês altos, regalias, status, uns colhendo o que plantou, outros não, mas mesmo assim aconteceu a popularização da parada, que, em tese, sempre foi o sonho de um ou outro... Tivemos uma enxurrada de gente que se acha famosa (ou é) querendo aparecer como DJ. Na outra ponta, a música ficou mais acessível a todos e os clubs morreram, dando lugares a - mais - festas, onde os “famosos” não chegavam às cabines... Os alunos queriam ser como são os seus ídolos, artistas que o fazem se inspirar, seja mainstream ou underground. Quem se ligava que a produção de música já era o caminho e seguiu, teve mais chances nessa etapa bem como os que acreditavam que só saber mixar (como DJ), chegaria a algum lugar, a grande maioria perdeu.

3- O “DJ” é somente o nome por trás de um cara - ou mina - que está do outro lado do mundo (ou agora, mais perto) produzindo sua música e fazendo com que a mesma chegue aos nossos ouvidos pelas diversas plataformas digitais, também acessível a todos. Tem o aluno que não tem referência de um puta DJ tecnicamente falando, nem sabe ao certo o que o DJ faz, então se perguntar três “DJs” que ele curte, vai falar o nome de quatro produtores (a maioria mal sabe tocar). E tem o aluno descoladão que conhece N artistas, mainstream ou mega underground, mas de novo, vem focado “naquele” artista por sua música, não por sua técnica em mixagem.

Tudo é globalizado, conectado, linkado, sincado, atualizado... No entanto quanto mais “inteligente” ficam os softwares e hardwares, a maioria que acha que os acima fazem “sozinhos”, estuda menos, se informa com fontes não confiáveis - ou não tem discernimento para captar o que é fornecido, tal qual se aquilo é o alicerce da casa ou já é o telhado - e não consegue usufruir 10% do que o próprio equipamento oferece. A maioria das pessoas está cagando pra aprender, elas querem é tocar, então quando passam por nosso crivo, cai a ficha que existem vários processos até chegar de verdade onde se quer, e considerando que “chegar” não é a certeza de “entrar”, só quem realmente está com muita vontade e acredita - ou passa a acreditar em seu potencial - consegue seguir.

No resumo, a parada toda é bem ampla e cada vez vai ampliando mais. Quando mais se demora para entrar no “funil”, não importando se está começando agora, quando tempo toca, onde ou com quem já tocou, mais difícil vai ficando, seja pela quantidade de entretenimento que existe, seja pela quantidade de gente fazendo coisa boa, pela quantidade de gente fazendo coisa não boa a alguns mas vendendo tickets, seja pelo modo que a cada dia aparece e nos faz pensar “como não pensei nisso antes” ou “não imaginava que isso chegaria a esse ponto”...

O mercado evolui para todas as outras esferas... O lugar da Ban nisso tudo então é colaborar onde é possível, acompanhando, ou criando conceitos que colaboram como um todo. Por exemplo, como prestador de serviços a uma comunidade que sempre foi informal. Estar junto as marcas oficialmente e fazer com que todos tenham acesso a equipamentos de ponta contribui para aqueles que querem usufruir disso, seja testando antes de tocar ou aprendendo. Brigar com distribuidores - e marcas - para termos produtos e preços por aqui também contribui. Como instituição de ensino, soma muito ao ter em seu corpo docente profissionais da mesma época que comecei, que não só vivenciaram - ou ainda vivenciam - o mercado, como continuam se atualizando para compartilhar conhecimento. É como ter o Pelé de cada área a disposição dos alunos para as aulas mas, o que é importante nesse processo? Ter aulas com o Pelé não fará do aluno o Pelé, muito menos o Pelé fará do aluno um jogador que já existe. Esse é o ponto! Conseguimos transformar uma pessoa que tem vontade em aprender mas não conseguimos transforma-la numa outra que já existe. Lapidamos o “seu” potencial, fazendo assim que sobressaia o “seu” diferencial. Agradecemos a confiança e escolha, torcemos e ficamos muito felizes com resultados de alunos mas, antes de mais nada, eles mesmos aprendem com a gente que nada cai do céu, então que, como nós, continuem trabalhando.

Este set aqui, qual o mote, ensejo, motivo, proposta, conceito, caô, fogo no rabo que resultou nesse set? O que esperar dele? Tem algum local da casa ou horário do dia para os quais ele é mais apropriado?
Esse lance de rotular DJ é chato, já fui rotulado por muito estilo - dentro do estilo inclusive - sendo que alguns nunca nem toquei. É ruim por um lado não saber o que esperar mas bom pelo lado “vai que surpreende”, é apenas minha opinião. Então esse set segue mais uma vez a linha “na hora eu vejo o que vou fazer”.

Embora DJing seja 10% do meu foco há algum tempo, pintam festas para tocar e “ainda” olho para pista. Não tem pista aqui mas pro DB pensei num set com mais melodias, introspectivo, e claro, mesmo que não sejam musicas novas, minha única receita é não perder o groove, imaginando que o(a) ouvinte pudesse estar no trabalho ou num trânsito, mas sei lá, creio que muitas pessoas sejam como eu... Num dia ouço algo e amo, ou odeio, e no outro dia o que amei, detesto, e vice versa, então única coisa que posso dizer é: Curta e boa viagem, bom trabalho, bom after, bom dia, tarde, noite... Querendo voltar, será sempre bem vindo, e querendo mais, visite meu Mixcloud que tem clássicos e sazonalmente deixo por lá coisa nova.

E, para alguém com um passado tão parudo e um presente invejável, o que o futuro reserva?
Quem sabe voltar a ser DJ, talvez dos 50 aos 60 anos, tocar o foda-se e encher o rabo de grana tocando qualquer merda. Falamos daqui 5 anos 😎

Lísias Paiva