Barbara Boeing

Por Georgia Kirilov

Gop_Tun1.jpg

Construir, habitar, dançar. Esta tríade existencial pareceria algo elementar a nossa vida mundana, caso não encerrasse um universo tão rico em possibilidades criativas a serem exploradas. É bem aqui que o talento de Barbara Boeing se sente em casa, livre o suficiente para extrapolar certezas, superar expectativas e desafiar barreiras, nos entregando magníficas surpresas que se materializam em meio a ricas expedições musicais nesse processo de descobrimento compartilhado.

Uma das guias aurais que formam o tarimbado time do coletivo Alter Disco de Curitiba, ela aqui nos leva num passeio despojado mas não menos enriquecedor, no qual transita entre bases sossegadas em suas levadas, ainda que possantes em suas pegadas. Um equilíbrio que é ideal para essa condução lânguida de climas que ela propõe através de uma seleção saborosa de faixas delicadamente concatenadas.

Ela é parte de uma seleta equipe de artistas congregada pelo Dekmantel para conduzir a caravana do selo holandês pelo Brasil. Suas participações nessa expedição se darão em duas ocasiões especiais: a primeira vai nos levar de volta a um local impregnado de boas lembranças para todos os envolvidos, a Fabriketa; já a segunda nos levará ao mais icônico templo dançante do Brasil, o Warung.

Então, além desta cômoda oportunidade de conhecer melhor sua personalidade artística, muitas outras não faltarão no futuro próximo. Todas ideais para conferir sua sensibilidade e habilidade presencialmente. Basta atentar e aproveitar.

Além de DJ você é engenheira, na sua visão o que é que conecta essas duas práticas na sua vida?
Existem partes extremamente antagônicas e outras absolutamente similares em ser DJ e engenheira civil. A engenharia, na maior parte do tempo, não mexe com a criatividade, é algo extremamente racional e usa conceitos tradicionais que dificilmente podem ser quebrados. Indo na direção contrária, a música é o local onde a inovação e a criatividade devem ser características corriqueiras de quem a pratica.
Eu trabalho em uma construtora não tão grande e trabalho diretamente como engenheira de obras construindo um edifício de 21 andares. Metade do meu trabalho é dentro do escritório e metade na obra. Especificamente este setor, é o setor onde existem a menor quantidade de mulheres dentro da minha profissão, pois trabalhar em obras significa trabalhar diretamente com muitos homens e obviamente, devido a hierarquia instituída, isto significa ser a chefe deles.
É um fato que a quantidade de DJs mulheres é inferior a quantidade de homens e sabe-se que as mulheres estão sofrendo para conquistar o seu lugar dentro da cena eletrônica. Portanto, acredito que para mim, aqui entra a similaridade das duas profissões. Em um mar de homens com os seus postos já tomados há anos, estamos ganhando campo com as nossas atitudes. Estamos ganhando campo no momento em que lideramos uma obra ou tocamos para milhares de pessoas em festivais gigantescos.


Você vem se interessando cada vez mais pelo hip hop nacional antigo, como você fez essa descoberta? Quais você mais gosta no momento?
Estou ouvindo demais alguns estilos novos para mim, como Rap, Latin Freestyle, Favela Funk, Funk Melody e também Hip Hop. É uma batida muito pra cima, algumas com vocais estranhos que amo muito e entra demais no que eu toco.
Eu acho que a primeira música que eu ouvi que me chamou atenção e vi que eu podia mixar veio de um post de um ultra digger vendedor de discos chamado “RodrigoBreak”. A música era Corpo Fechado do Thaíde e DJ Hum.
Depois disso virou um vício, eu passei alguns meses só pesquisando tudo que circundava estes estilos. Diggers brasileiros e franco-brasileiros como Millos Kaiser e Craig Ouar são experts nisso, aprendo muito fuçando as suas bibliotecas musicais.
Importante validar que existe muita coisa misógina e homofóbica nas letras destes estilos, portanto um grande cuidado deve ser tomado na seleção das tracks. Obviamente eu desvio destas em especial, elas definitivamente não entram nos meus sets.
Os meus favoritos são Abdullah, Nanda Rossi, Sampa Crew e muita coisa do DJ Marlboro.

Você acabou de começar a tocar com vinil. Para você, qual a diferença entre os dois formatos? Qual a vantagem de combiná-los?
Quando eu comecei a tocar, a CDJ Pioneer 200 tinha acabado de sair. Por ser mais barata e também mais fácil para aprender eu comprei duas. Devido a isso, a minha pesquisa sempre foi pelo formato digital das faixas. Existem muitas músicas que são feitas somente para discos, portanto eu já fiz muitos amigos online com quem eu trocava músicas digitais, pra que eu conseguisse ter acesso as tracks “strictly vinyl”.
Mais de 10 anos depois (há uns 4 meses atrás), eu comprei o meu primeiro toca disco e 2 monitores (eu aprendi a mixar com retorno nas festas mesmo, porque nunca tive um em casa). Eu achei incrível, porque mesmo nunca tendo tido contato com toca discos, na primeira semana eu já estava mixando com ele.
Existem poucas diferenças na forma de mixagem de uma CDJ para uma turntable, mas creio que por eu mixar há anos com a primeira me deu a base para já sair mixando com mais facilidade, mesmo que ainda de forma mais amadora.
A principal diferença entre as duas pra mim é na forma de pesquisar músicas. Procurar músicas pesquisando dentro de lojas de discos do mundo todo é algo muito rico e muito livre. Parece que uma nova porta cheia de novidades se abriu pra mim e isso é absolutamente genial.
Eu ainda tenho poucos discos, acredito que 95% da minha biblioteca é digital, portanto vai ser difícil eu parar de combinar os dois formatos. Mas tudo é possível, quem sabe daqui a 10 anos!!!

Sua técnica de mixagem é realmente impressionante. Sei que você convive com música de maneira íntima desde criança, então desenvolveu um bom ouvido, qualidade imperativa para seu estilo de som. Qual sua dica para aprimorar as transições?
Acho que como qualquer instrumento musical, a dica é treinar, treinar e treinar mais um pouco. Eu acho que mixar não é como andar de bicicleta. A mixagem vai se desenvolvendo durante os anos de prática, portanto o treino intenso é rigorosamente necessário.
Eu toco quase todos os dias, mixar é um vício na minha vida, portanto espero ir melhorando ano após ano.