Caroline Morr

Por Francisco Cornejo

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Sempre gostamos de exaltar o talento feminino entre nós por inúmeros atributos abstratos - quando não cafonas - que dificilmente seriam lembrados para tecer as lôas que usualmente são cantadas em louvor do talento do grande artista, esta figura tão celebrada quanto cansada que ocupa um lugar central no nosso imaginário. Entretanto, é justamente ao trazer esses trunfos para uma narrativa tão homogênea que ele acaba por enriquecer nossa experiência do que não apenas o fazer artístico nos oferece de mais transcendente, mas no que ele pode nos trazer de mais mundano e, por este mesmo contraste, enriquecedor. 

A vitalidade de uma figura como a de Caroline Morr em nosso cenário atual aparece como algo renovador justamente por se fazer de forma tão elementar e diversificada, deixando sua multifária atividade como propulsora, produtora, provocadora, promotora e progenitora fornecer a todos nós uma imagem que não se limita aos contornos de uma presença artística, mas também nos revela a substância do ato criativo como algo indissociável de nossas vidas, dentro e fora das pistas.

Nesta mistura ousada e variada ela consegue nos regalar uma viagem rítmica universal e revelar as influências que fazem sua singularidade como seletora numa viagem que, como as melhores coisas que nossos sentidos apreendem na natureza, mais vale ser experimentada que explicada.

Qual o clima desse set e onde ele foi gravado?
Opa, vamos lá! Esse set tem um clima muito intimista e pessoal, eu gravei aqui em casa com os equipamentos emprestados de um amigo, tive todo o tempo para experimentar algumas mixagens antes de gravar, treiná-las, e procurei colocar na pesquisa músicas que conheci atualmente, ou seja, novidades e também procurei incluir músicas que falam muito sobre as minhas influências sem me prender à apenas um gênero.

Conte-nos um pouco da sua trajetória como DJ. Quando começou e como evoluiu até aqui?
Na infância, la pelos anos 90 eu havia assistido ao clipe de “Around the World” do Daft Punk e apesar de ter achado meio perturbador para a minha idade, eu acabei me apaixonando por aquele estilo de música pelo qual eu não fazia muita idéia do que fosse, mas que marcou muito o meu gosto musical até os tempos atuais. Na pré adolescência tive contato com a música eletrônica nas matinees de Drum n Bass e com aproximadamente 12 anos de idade o meu grande desejo era ser DJ, desejo que não teve muito incentivo e nem aprovação dos meus pais, que foi inclusive esquecido, com a adolescência gótica a música eletrônica voltou a marcar presença na minha vida nos porões do madame satã onde eu conheci estilos como o agressivo EBM, algo de post punk eletrônico, electro e synth pop mas foi depois de dois anos com exatamente dezesseis anos que fui à minha primeira rave open air com os amigos de escola, até então meu universo girava em torno da cena do rock underground, os estilos como Progressive House, Electro e Minimal estavam começando a adentrar as raves de Psy e de uma turma de 10 amigos eu era a única que preferia esses estilos ao invés do psy, foi então que em grupos na antiga rede social “Orkut” eu comecei a ir atras dos nomes das musicas que os djs tinham tocado nas festas e que eu gostaria de ouvir em casa, antes que eu me desce conta eu ja estava conhecendo muito de musica através de pesquisa o que chamava a atenção de algumas pessoas na época, foi quando um amigo de escola resolveu ser dj, indiquei a ele um curso e na época ele comprou os cdjs e me convidou para ver o equipamento, o que eu não imaginava é que ele fosse me ensinar a tocar assim, logo que contei à algumas pessoas que eu estava aprendendo a tocar, os convites para as festas foram surgindo. Com o tempo fui me afastando dessa cena, até mesmo porque as raves deixaram de ser tão populares, em 2012 ganhei residência em uma festa no Hot Hot, uma festa de uma coletivo que tinha uma proposta de contra-cultura, mas no final acabou virando outra coisa, eu não concordava com o rumo que a festa estava tomando, nem musicalmente e socialmente, quando resolvi deixar essa residência fui convidada à integrar a Lokkomotiwa Crew, que era um coletivo de artistas que misturavam o conceito visual das exposições de arte com as apresentações musicais, comecei em uma festa que ocorreu na Clash em que teve bastante visibilidade e à partir dai comecei a me integrar e tocar em vários clubs e festas desse circuito underground e alternativo paulistano, recebi convites para tocar no Paraná pela primeira vez e RJ, foram minhas primeiras festas interestaduais, esses contatos, pessoas que conheci nas festas under que me viram tocar,me levaram ao Mato Grosso mais de uma vez também e o que me deixou muito feliz foi através das redes sociais descobrir que la haviam pessoas que ja conheciam o meu trabalho pela internet. Durante o ano de 2016 tive um hiato, foi quando retornei da Alemanha e adoeci, foi um período muito difícil pois eu estava gestante, recém saída de um relacionamento abusivo e descobri também uma tuberculose, durante o tempo que fiquei sem tocar e fiquei em casa cuidando da saúde e do meu filho, descobri na produção musical uma terapia, no ano de 2017 já recuperada física e emocionalmente, voltei à tocar, porém com uma linha de pesquisa totalmente reformulada, hoje tenho retornado as festas underground alternativas com novos convites de novos núcleos, tocando em clubs novos mas também retornando à alguns já conhecidos e tenho tido a oportunidade de mostrar todo o amadurecimento musical que eu considero ter ganho durante esse período de reinvenção. 

O que tem te influenciado atualmente nas suas pesquisas musicais e quais são as referências que nunca mudaram?  
Atualmente o Dub e o Techno de Detroit tem influenciado muito as minhas pesquisas, Electro também e o Techno Europeu até com influências de Trance nas melodias tem me agradado muito, sempre fui uma DJ de House e hoje ter aberto essa gama para novas vertentes tem me feito misturar bastante coisas na pista, porém uma influencia marcante na minha identidade e que eu preservo até hoje como DJ é a predileção por influencias do House Garage, Speed Garage, Bassline, Também produções que mesmo atuais tenham um toque de “Old School” Sons produzidos com Synths e Drums Clássicos analógicos independente do estilo e do House Nova Iorquino e também os Beats Ácidos (sejam eles House, Breakbeat, Electro, Techno).

E quanto a seu trabalho como produtora? Como se dá seu processo criativo e qual a sua mais nova produção?  
Meu processo criativo se dá em função das emoções que estão regendo meu dia, posso ter criatividade tanto em um dia bom, feliz, quanto em um dia ruim, uso muito do meu humor para criar melodias e atmosferas que expressem o que eu estou querendo “por para fora”, nem sempre posso produzir quando estou inspirada pois muitas vezes tenho que cuidar do meu pequeno, mas estou sempre buscando arrumar um tempo para produzir entre suas dormidas desde que ele era um bebê. Minha música mais recente lançada foi a Horizon, foi um EP que saiu com mais 3 remixes do Silenzo, Renata Carnovale e Vallas Martins pela Perception Corp em 2017 e foi relançada esse ano em uma Coletânea chamada “Thales of Dub and Techno vol. 15” pela Complex Textures pela qual tem produtores de diversos países. (Nota: Morr é a única mulher do casting)

Quais seus projetos e parcerias em andamento? 
Atualmente me dedico ao meu futuro live pelo qual assino como Morr e cuja sonoridade vai do Ambient,  Dub Techno ao Techno e Electro, tenho trabalhado em uma collab com o produtor mineiro Yuri Lima (WD2N), no projeto Burako Negro, live que estou montando com Alain Patrick e Adriano Carraza e também pretendo/quero muito tirar do papel a ideia de um projeto com a DJ Natalia Brückner.

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