Cauana

Por Chico Cornejo

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Parte de uma nova onda de bonança e renovação musical que refresca as vias criativas de Curitiba, esta inventiva e eclética seletora paranaense conseguiu criar fronteiras estilísticas e desafiar convenções curadorias com a simples ousadia de possuir uma personalidade musical tão vastamente diversificada quanto profundamente autoral. Foi assim que ela conseguiu recobrir uma ampla gama do espectro sonoro e, como consequência, figurar nas escolhas de coletivos tão díspares quanto complementares na composição desse mosaico musical que hoje exibimos na vida noturna independente brasileira.

Neste set ela mostra muito dessa mesma identidade, tão singular e madura para alguém tão jovem. Uma que aponta para destinos ainda mais brilhantes, pois exibe todos os traços daquilo que tanto nos faz dançar ao tipo de levada que ela privilegia quanto admirar cada uma das escolhas que privilegia para construir suas fábulas rítmicas. Motivos pelos quais ela também aparece como destaque do festival XAMA 2019 que vai elevar a Praia de Algodões através da virada do ano.

Quem é Cauana? O que a inspira e como ela se vê nesse mundo criativo e dançante?
Que pergunta difícil! Assim como me perguntar que estilo de música que eu toco hahah é uma compilação de várias coisas que no fim se torna uma só! Soou confuso né?! O que quero dizer é que cada dia aprendo algo novo, vivo uma experiência nova que me acrescenta e faz eu evoluir como pessoa, então a Cauana de ontem pode não ser a mesma de hoje, obviamente tenho princípios e valores imutáveis. Estou feliz com minha trajetória até então! Algumas coisas me inspiram; pessoas, atitudes, lugares mas principalmente música, claro! Eu fico muito lisonjeada de estar no meio de tanta gente talentosa e por estar alcançando meu espaço! Toco desde 2011 e é difícil se manter nesse mundo de forma independente, tive meus altos e baixos já, fiquei quase 3 anos “distante” da discotecagem, não aguentava mais e resolvi vir pra Curitiba pra resgatar isso e deu boa, Curitiba fria foi muito calorosa comigo :) Estou no meu melhor momento, muito feliz!

Como o DJing apareceu para ela como uma alternativa expressiva?
Eu sempre falava que queria ser DJ, sem ao menos saber direito do que se tratava, isso ainda muito nova, na medida que fui crescendo e me mudei pra SP isso aconteceu de uma maneira natural e quando vi já estava inserida nesse meio, já que o estúdio que me especializei tornou-se meu trabalho e respirava música diariamente. Foi lá que aprendi, explorei, desenvolvi e identifiquei esse meu lado! Você já tocou em algumas festas conceitualmente bem distintas aqui em SP, um feito que é raro para artistas de outros estados, que normalmente são recrutado por apenas uma delas.

Houve muita diferença na abordagem para cada uma ou tudo faz parte do que você como seletora?
Boa pergunta! Olha, isso era algo que me preocupava há um tempo atrás, eu achava que tinha que seguir uma determinada linha de som para que o contratante pudesse me identificar daquela maneira e me encaixar na sua festa ou não, mas felizmente percebi que não precisa ser assim. Minhas pesquisas são bem abrangentes, gosto de tocar muitas coisas e o que eu pensava que poderia me limitar, aconteceu o contrário, expandiu possibilidades, não só em SP mas meu ano inteiro foi assim, toquei desde bares de amigos até festas grandes como a Tribal Tech! Fiz vários warm up’s, fui headline, encerrei festa e isso me deixa muito feliz em poder tocar tudo que eu gosto para público ambientes e horários distintos. Acredito que faça parte da minha identidade versátil!

E quanto a sua cidade natal e os coletivos dos quais você faz parte lá, como eles ajudaram a informar ou mesmo formar sua identidade artística?
Na verdade minha cidade natal que é Cascavel não teve muita influência musical, tanto é que nunca toquei lá profissionalmente. Minha introdução na música aconteceu em SP depois que me mudei pra lá na minha adolescência, no estúdio que comentei; o IME (instituto de música eletrônica) que dividíamos espaço com os meninos do Stereodubs que eram do hip hop. Então desde o inicio tive contato e pude conhecer pessoas, estilos musicais e festas das mais variadas e aos poucos fui selecionando e me identificando! Lembro do Sonár de 2012 que foi muito importante pra mim, vi muita coisa boa que me inspirou. Tive muitas pessoas em SP que me influenciaram e contribuíram pra minha formação artística que ainda está em processo. Atualmente moro em Curitiba, há um pouco mais de um ano e meio. e nesse pouco tempo eu não sei explicar como fluiu tão bem a minha vida e quantas pessoas certas conheci. Tribal Tech, Subtropikal, Odara, Gato Pardo, Estalada e Ohren são exemplos locais dos coletivos e festas que me deram oportunidade e estão me acrescentando nessa minha formação!

Agora falemos desse mix: o que ele representa da Cauana? Qual o ensejo dele ou o melhor momento para ouvi-lo, se houver um mais propício?
Esse set tá bem diferente do que havia planejado desde a primeira vez que você me pediu...*risos* [nota do editor: ela mandou outro ontem! Depois desta entrevista, HAH!] mas ele me representa! Tentei reunir as vibes que costumo transitar nos meus sets, sou péssima pra definir, tem de tudo um pouco. Acho que isso justifica o porque de algumas festas de diferentes conceitos me recrutarem hahah ah, quero ressaltar que eu sempre analiso, pesquiso se eu não conheço o conceito das festas que vou tocar pra tentar ser o mais coerente possível dentro das minhas pesquisas. Bom, tem tracks que tenho um certo apreço, como é o caso da “She Moves She” do Four Tet, pesquisas recentes, enfim, foi feito pra causar várias sensações, então não sei se tem um só momento propício. Eu vim escutando pedalando atrasada pro trabalho, foi bom, deu um gás! Mas vou deixar a critério do ouvinte.

E como estão os preparativos para o XAMA, como anda o controle de ansiedade e gerenciamento de expectativas?
Ainda não caiu a ficha! E ultimamente tenho tocado bastante, gravei alguns set’s que mal tive tempo pra me preparar. Minhas expectativas são as melhores e não tem como ser diferente naquele paraíso. Foi um convite que eu até chorei quando eu li de tão feliz que fiquei e quero mandar muito bem como forma de agradecimento pela oportunidade e pra fechar com chave de ouro esse ano que foi muito bom pra mim!