Deep Kutz

Por Francisco Cornejo

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Quando se fala em resistência e muitas outras palavras de ordem que pululam pelo burburinho das redes sociais atualmente, poucas vezes é evocado o lugar central preenchido por todos os trabalhadores da noite que se empenharam em manter sua vitalidade no decorrer dos anos. Um período no qual essa luta significava um tipo de sobrevivência bem mais mundana que essa que hoje é alardeada como um de nossos deveres mais elevados, seja na pista ou fora dela. Ela envolvia tão-somente a noção do quão importante era aquele privilégio de estar ali dançando, suficiente para nos empenharmos para manter as condições que faziam tudo aquilo possível não apenas numa militância extra-cotidiana, mas numa existência radicalmente centrada na luta diária em várias frentes.

Deep Kutz é um uma figura representativa dessa geração e de seus princípios por ter permanecido "true to the craft " por mais de duas décadas, tocando, vivendo e se mantendo próximo da música nas mais variadas formas. Ele já comandou uma das últimas lojas de vinil a resistir na Galeria Presidente na Rua 24 de Maio, um dos lugares mais centrais para a cultura do DJing na história do país, chamada Killa, um dos derradeiros bastiões desse espaço de cultura e sociabilidade que formou muitos como nós.

A afinidade aqui nem cabe ser escondida, pois além da origem e uma amizade que nasceu na efervescência de uma época áurea de dança e compulsão colecionista, nossos destinos sempre dão um jeito de se cruzarem, já que nosso interesse comum é tão parte de nossa identidade quanto de nossa história, compartilhadas nesses locais que mantém a música pulsando, independente das lutas e de suas conquistas. E, por sorte, hoje em dia é fácil pegá-lo animando a pista do Bar 4e20 na festa Hyperspace entre um time de seletores tão seletivos e divertidos quanto ele.

Já que vivemos juntos muito da época dita dourada dos breakbeats, da aceleração contínua rumo ao nada através da rave, qual foi seu período ou momento favorito entre tantos dessa longa história?
Esse período de transições e experimentações sem dúvida são o mais rico, 91 / 92 / 93, e hoje poder passear por entre essas épocas, olhar em perspectiva é sensacional.  

Durante um bom tempo sua vida esteve ligada a uma loja de discos, seja física ou virtual e esse comércio é algo com que é bastante familiar. Como é navegar nesse mar cheio de tubarões? Quais seriam as dicas que você daria para a molecada que está entrando na água agora, atraído pela revalorização recente do vinil?
Sim, foram uns bons anos aí. É fascinante e extremamente viciante!

Tanto para uma coleção ou bancada de loja a dica é a mesma: diversifique o máximo que puder, tenha todas variantes possíveis no cardápio.

E por que, na sua opinião, tanta música tão boa normalmente é tão rara? Existem inúmeros discos que simplesmente não entendo porque não foram feitos com maior abundância, além de serem tiragens independentes. Será que há alguma maldição que nos mantenha sempre na escassez de música boa?
E justamente no fator independente que está a causa disso tudo. Porém há alternativas hoje, selos como Rush Hour e Clone Classics e suas reedições para suprir a busca por música boa perdida.

Qual foi a inspiração, narrativa ou tema que impulsionaram esse mix? Ele tem algum momento do dia certo para ser ouvido ou é multiuso?
Esse mix tem bastante a ver com a Hyperspace que acontece mensalmente lá no bar 4E20 e na qual toco com os amigos Gnomo, Robson e outros chegados. Sugerido ao cair da tarde, bem na pegada da festa.