Ella De Vuono

Por Anderson Santiago

 Fotos: Gabriel Quintão

Fotos: Gabriel Quintão

A cena eletrônica nacional nos mostra que, cada vez mais (e ainda bem!), está repleta de mulheres talentosas e determinadas, como poucos poderiam imaginar há alguns anos, quando o mercado de DJs e de produção musical era dominado pelos machos. A campineira Rafaella De Vuono, é uma ótima representante dessa energia feminina que vem encantando as pistas underground de São Paulo e do interior também. Engana-se, porém, quem pensa que ela começou a discotecar ontem: DJ há mais de uma década, Ella De Vuono, como se apresenta, é uma exímia estudiosa de técnicas e de música, dá aula em uma escola de DJs e recentemente foi anunciada como nova residente de uma das festas mais bombadas da capital paulistana, a Carlos Capslock.

Nós batemos um papo com a produtora, que falou abertamente sobre temas delicados e também sobre o delicioso set que preparou exclusivamente para o deepbeep. Depois dessa conversa e de ouvir suas faixas, não temos dúvidas de que Ella vai alçar voos ainda maiores - ela está só no começo. Quer ver? Dá o play e confere a entrevista. 

Como você decidiu se tornar DJ há 12 anos? Como era o mercado e por que você resolveu mergulhar nele?
Eu cresci dentro do agito --uma vez que minha mãe sempre foi muito fervida e acabava me levando para muitos rolês, desde quando eu era um bebê mesmo-- e a minha principal lembrança era que eu adorava aquilo tudo. Em 2004 eu comecei a frequentar festas underground e percebi a diferença entre aquele mundo e o que eu frequentava antes, que era mais comercial. Então, em 2005, vi a Mara Bruiser tocar e foi a primeira vez que me ocorreu este pensamento: "Eu quero estar lá, quero ser assim". Meu irmão era DJ à época, e eu ficava fuçando nos equipamentos dele, até comprar meu próprio equipamento. O mercado para mulheres ainda é ruim, se você analisar que em um os principais festivais brasileiros têm poucas ou nenhuma moça no line-up. Imagina naquela época? Eu decidi entrar no mercado, pois sabia que era aquilo que eu era, eu nasci para fazer as pessoas dançarem e não tinha outro caminho a seguir. Então enfrentei os desafios dessa jornada. Sofri muito preconceito, desde provar para o pessoal da recepção da balada que eu era DJ e iria tocar naquela noite, pois não queriam me deixar entrar, até o próprio dono do clube me puxar pelo braço enquanto eu entrava para tocar, achando que eu era uma fã invadindo a cabine. 

Você tem uma música com a Jout Jout, que é um ícone feminista na internet. Na sua opinião, a ausência de mulheres no mercado da musica eletrônica se dá por machismo ou por falta de interesse das garotas na área?
Imagine só, eu sou professora de DJs na AIMEC Campinas e, a cada turma de 10 alunos, é comum termos apenas uma mulher, isso quando nenhuma. Acredito que o machismo na área faz com que muitas mulheres (eu fui uma delas) pensem de forma automática: "Ah, isso não é para meu bico". Pelo menos foi o que aconteceu comigo. Lá em 2004 eu ia às festas e só assistia a homens tocando, até o dia em que vi o set de uma mulher e tudo clareou. Trocando em miúdos, acredito que seja uma mistura das duas coisas: machismo mais a falta de coragem das mulheres de enfrentar essa jornada.

Assédio - Ella De Vuono feat Jout Jout Prazer

Como rolou o convite para ser residente de uma das festas underground mais importantes do país, a Capslock, e quando você conquistou seu espaço de vez na cena independente?
Isso é recente. O Laércio (L_cio) e o Paulo Tessuto conheciam meu trabalho pela internet e me viam nas festas, pois sempre fui frequentadora assídua da cena independente de São Paulo. Eu trouxe o Tessuto para tocar em Campinas em 2015 e, em Agosto de 2017, o Laércio se apresentou numa festa em Campinas e, enquanto conversávamos, ele disse que queria me ver tocar um dia e me perguntou quando era minha próxima gig. Eu, Rafaella, a sincera, respondi: "então, não tenho nenhuma festa agendada". Ele ficou indignado e pediu para que eu lhe enviasse meu material. Após dois dias, veio o convite para tocar na edição de setembro da Capslock e fiz o que sei fazer melhor: em um set de 4h30min, deixei quem estava na pista sem conseguir sair de lá, nem para ir ao banheiro. Com quatro decks, vinis, pendrive, scratchs... Não demorou muito para a notícia daquele set se espalhar e os convites para as festas independentes menores de São Paulo surgirem. Não digo que conquistei meu espaço de vez, mas acredito estar no caminho.

Pode falar um pouco do seu mix? Há músicas de estilos bem diferentes... isso foi proposital e faz parte do seu estilo?
Se você analisar meus sets, em geral, eu gosto muito de contar uma história. Misturo deep house, Chicago house, Detroit techno, breaks, synth pop, electro, disco... Curto mesmo tocar músicas que me trazem um sentimento bom. Para esse mix, em especial, eu quis tocar alguns discos que tenho, sem serem necessariamente eletrônicos, afinal, sou uma pesquisadora e quis mostrar um pouco desse meu lado também, além das minhas referências. Foi bem proposital, gosto de aproveitar esse tipo de set para fazer o que eu não posso fazer em uma pista, um lado meu que não tenho oportunidade de mostrar sempre.

 Fotos: Gabriel Quintão

Fotos: Gabriel Quintão

Prefere discotecar ou produzir?
Discotecar, com certeza. Ser DJ é inerente a mim. Eu amo discotecar em seu todo: desde pesquisar com afinco, organizar minhas músicas digitais e meus discos, treinar muito, até o momento da festa, onde eu levo todo meu acervo de músicas digitais e, pelo menos, 100 discos. Gosto de estudar a pista e caçar aquela música que será ideal o momento: que pode ser desde uma novidade que nem foi lançada, até um clássico da disco dos anos 1970. Amo me conectar com a pista, amo a troca de energia. E nunca vou com uma playlist pronta, é tudo improviso, escolho as músicas de acordo com a energia que está rolando na pista. Já a produção já acontece em duas etapas: a primeira, que é a criação, é espontânea, sou basicamente escrava da minha criatividade. Por exemplo, a música "Assédio", com a Jout Jout, eu tive a ideia em um dia, no outro ela já me enviou o vocal e em quatro horas a música estava pronta. Porque, dentro da minha cabeça, ela já estava, só faltava concretizar aquilo. A segunda etapa é transformar aquela criação em música, ou seja: técnica, muita técnica. Eu não consigo fazer música como uma linha de produção, cada uma é uma, cada uma é uma batalha que eu enfrento.

No seu release, você se considera eclética. Como define esse ecletismo? Há quem ache arriscado apostar no ecletismo, principalmente em relação à credibilidade (é melhor ser bom numa coisa só do que querer abraçar tudo, por exemplo)... O que você diria para quem pensa assim?
Eu defino esse ecletismo da seguinte maneira: só quem tem um conhecimento relevante sobre história da música eletrônica, misturado com uma excelente técnica e um feeling apurado, pode se arriscar. Não é para qualquer um. Adoro o fato de existirem essas pessoas que pensam dentro da caixinha (é melhor ser bom em uma coisa só). Por isso temos esse excesso de artistas medíocres. E, quanto menos nomes ousados por aí, mais eu me destaco com minha ousadia. A música é infinita, como alguém que gosta dela, pode só focar em um ou dois estilos? Eu não me limito, não. E para essas pessoas, eu apenas deixo uma dica: conhecem Laurent Garnier? Derrick May? DJ Marky? The Black Madonna? Peggy Gou? Exemplos básicos de como o ecletismo só traz mais credibilidade, mas, para isso, tem que estudar --e muito!

Tem novidades para o futuro breve? Como se vê como artista daqui a uns 10 anos, por exemplo?
Não posso contar tudo, gosto de concretizar esses planos para depois falar deles. Mas o que posso dizer é que estou com um novo manager, o Renan Tavares, ele é extremamente competente, correto, muito bom no que faz, acredita em meu trabalho demais e está disposto a espalhar "a novidade" por aí. Estou trabalhando para produzir mais músicas, já com lançamentos previstos para o ano que vem. Daqui a 10 anos? Não só o céu é o limite. Faz 13 anos que estudo, que pesquiso, que compro discos e que estou me preparando. Os próximos 10, provavelmente, devem mostrar que tanto esforço não foi em vão. Espero que vocês possam acompanhar.