Entropia-Entalpia

Por Francisco Cornejo

Quando falamos de música, estamos nos referindo essencialmente a um fenômeno físico que manipulamos de acordo com convenções estéticas para gerar efeitos principalmente psíquicos mas também fisiológicos. Pode parecer uma maneira um tanto esquemática de definir todos esses componentes aurais que atuam sobre nós das mais diversas formas, das mais viscerais às mais cerebrais. Então quando surge um talento como entropia-entalpia, trazendo em sua música tamanha força capaz de nos envolver sensorial e sentimentalmente através de ideias tão sofisticadas em sua concepção quanto simples em sua execução, o que inicialmente poderia parecer um tanto peculiar quando nos prendemos à nomenclatura, se revela bastante adequado quando atentamos aos efeitos.

É numa relação bastante similar aos fenômenos que esses termos definem que sua enérgica musicalidade se materializa, numa dialética constante entre caos e ordem, sensibilidade e materialidade, entre a matéria-prima e a energia que desencadeiam após ser trabalhada. Em suma, tudo que se faz presente entre opostos que se confrontam, coordenam e complementam mútua e reciprocamente. Este aqui é um db series mais que especial, pois não somente traz uma das mais novas fontes de excelência musical a aparecer na cena paulistana, mas porque de todos os formatos que poderia eleger para nos agraciar com sua música, ele preferiu mostrá-la da forma mais nua e crua, com muito material inédito e até ainda em estado de preparo final.

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Bom, acho que vale tirar do caminho logo de cara o lance do nome. Qual a relação dele com a música e, mais precisamente, com a sua música? Tem mais a ver com a obra finalizada ou com sua abordagem propriamente dita?
Entropia e Entalpia são dois termos da termodinâmica. A lei da entropia diz que todas as moléculas tendem ao caos, mas pelo fato da energia ser quantizada é necessário níveis de energia (Entalpia) específicos para que se desencadeiem as reações químicas. Então de certa forma esse caos todo da Entropia tem uma ordem pra que a gente tenha diferentes reações químicas, como a formação de uma molécula ou a combustão de alguma coisa, por exemplo. Então o nome me veio a cabeça porque eu não conseguia enquadrar meu live em nenhum estilo definido e ao mesmo tempo tinha uma linha sonora relativamente definida; - eu tinha algo meu ali no meio mas não conseguia trabalhar em uma só vertente sonora. Sempre fui muito aberto a influências bem diferentes na musica e isso acabou culminando no que este projeto é hoje. De forma geral eu senti a necessidade de distanciar um pouco essas duas personas que habitam em mim. De um lado um Matheus músico, produto, do outro o projeto Entropia-Entalpia que é um live para pistas. Eu só tenho esse foco com a pista neste projeto.

Falando nisso, quando e como essa relação sua com o material sonoro se iniciou?
Desde muito novo eu tenho contato com a música por causa do meu pai (China), então foi muito natural que eu fosse para este caminho. Toco desde os meus oito anos (violão) e acho que aos quinze já comecei a trabalhar com musica. Primeiro como roadie, ajudando em estúdios e em palcos, depois tocando com banda. Hoje em dia faço muita coisa diferente neste universo por conta desta trajetória: Além do meu live eu também gravo e produzo com e para outros artistas, dou aulas de produção e Live, sou stage manager na Mamba, faço as transmissões da Radio Vírus com a Cashu e a Danila Moura e tenho um projeto live de música eletrônica para crianças com meu pai chamado Minijóia!

E quanto a todo esse universo festivo eletrônico no qual a gente se refestela hoje em dia, como você vê o lugar dele na sua trajetória, ontem e hoje?
Conhecer a cena eletrônica aqui em São Paulo e a Mamba foi muito importante para minha trajetória como músico e produtor. Me abriu para um universo que se mescla com o que a gente quiser musicalmente falando, então pra mim que sempre tive tanta referência musical diferente foi como achar um lugar onde eu podia misturar estas referências com uma linguagem própria minha. Trabalhar com música eletrônica me tornou um profissional muito melhor quando estou trabalhando com música não eletrônica. Por fim a cena me abre um lado de atuação política muito mais ativa dentro da cidade onde eu realmente sinto que estamos fazendo alguma diferença enquanto festas e coletivos ocupantes desta cidade e de outras cidades do Brasil.

Este mix tem muita coisa inédita, pelo que me disse, mas ele tem essa finalidade de ser um teste ou foi algo mais espontâneo que o trouxe à vida?
São músicas que eu ainda não terminei. A ideia foi compilar estas tracks não finalizadas num set só! Gravei este live de uma forma bem solta, com algumas máquinas ligadas aqui no meu home-studio: Tr8, Rc505, micro Korg, Volca Sampler, um baixo, então de certa forma foi uma experimentação pra mim, onde eu pude tocar as músicas de uma forma um pouco diferente da que eu costumo tocá-las no meu live nas festas.

E quanto ao futuro, próximo ou distante, o que ele lhe reserva que possa dividir conosco?
Recentemente tive o prazer de prazer de produzir com Maria Rita Stumpf e o Lui Coímbra duas das faixas que sairão pelo novo álbum dela que está em processo de finalização além de gravar guitarras, drum machines e synth em mais três faixas. Vai sair também o primeiro EP do Minijóia e eu estrearei um novo programa pela Radio Vírus em que eu convido produtores, djs e pesquisadores(as) para falar de suas pesquisas, trajetória profissional na música e das suas vidas pessoais quando não estão atrás das cabines!