Forró RED Light

Por Francisco Cornejo

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Gestado no encontro de heranças musicais tão díspares quanto complementares, temperado no fogo de uma fricção corporal que poucos ocidentais conseguem lidar sem se sentirem vexados ou tarados e curtido nos climas típicos de uma das regiões mais coloridas do Brasil, parece natural que o forró tenha se tornado uma das mais populares formas expressivas de nosso vasto repertório rítmico-hedonista. E, não por acaso, também foi a escolhida por esta talentosa dupla candanga para prover a estrutura sobre a qual montam suas acachapantes viagens musicais que já caíram nas graças de Renato Cohen, fazendo parte do catálogo de seu selo Massa, e de um festival como o XAMA 2019.

A potência e maleabilidade que a tríade formada pelos elementos básicos do baião oferece são exploradas de inúmeras maneiras, assim como seu incomparável potencial aglutinador, utilizado de modos inventivos e irresistivelmente dançantes. Basicamente é isto que eles nos trazem neste set gravado ao vivo e que retém muito da imensa força de sua autêntica e divertida musicalidade, condensando o essencial tanto de sua capacidade inventiva quanto e sua habilidade improvisativa e insinuando o que nos espera ali na Península de Maraú.

Forró Red Light é um nome bastante sugestivo, mas o que ele enseja em termos musicais e conceituais? Qual a história por trás dessa inusitada dupla?
Faaala, galera deepbeep! Que massa é estar aqui, trocando esses sons e essas ideias! Somos uma dupla em que cada um tem uma história e um contexto musical diferente. Geninho toca em bandas e compõe desde os anos 1990, Ramiro começou em 2007 a fazer experiências com live PA na cena techno de Brasília. Os caminhos se cruzaram quando Geninho foi se tornando DJ e entrando na música eletrônica e Ramiro foi se interessando em misturar o eletrônico com estilos da música popular. Foi dessa carga musical diversa de Geninho e de Ramiro que surgiu esse projeto. 

A ideia conceitual da coisa toda é isso mesmo que vocês estão ouvindo, bases e células rítmicas e melódicas do forró misturadas ao flow e aos timbres da música eletrônica. Como costumamos brincar, o "arrasta-pé do futuro".

É impressionante o quanto se consegue extrair musicalmente de uma combinação tão simples como aquela composta por uma zabumba, um triângulo e uma sanfona. Como essa tríade mágica se tornou parte do que fazem musicalmente? Aliás, onde/quando/como o sertão se ligou ao cerrado de forma tão criativa nesse projeto?
Como diz Guimarães Rosa, "o sertão é dentro da gente". Ramiro é nascido e criado no Piauí, mas radicado em Brasília. Geninho é filho de paraibanos e estudioso dessa cultura. Então, essa pegada já veio de fábrica. Mas, no começo de tudo, foram muitos encontros e ensaios experimentais, de laboratório, para conseguir chegar nessa "pegada" sonora, consolidada principalmente com o lançamento do nosso primeiro EP, "Regional Digital Lumiado", em 2015.


Vocês acabam de lançar um EP pelo selo Massa do Cohen e, com o frescor desse acontecimento tão recente, vale perguntar: qual a história por trás dele?
Sempre tem uma história boa, né? Temos alguns amigos em comum, e um desses amigos conseguiu colocar Renato Cohen e Forró RED Light, literalmente, em um mesmo barco! Era a festa de reveillon do Hostel Memoan, em Caraíva, em que a decoração era um barco mesmo! Estávamos no mesmo line-up e tivemos a honra de ter essa entidade da música eletrônica na pista, curtindo nosso som, foi lindo! Daí foi só acertar os detalhes de mandar algumas faixas para ele, que estava começando a bolar uma label, que virou essa beleza que é a Massa Records!  


Mesmo sendo fruto da gravação de uma de suas sessões feita exclusivamente para o db series (algo raro na nossa extensa coleção), há algum fio narrativo que oriente este set ou ele é o que é: pura improvisação?
Simm! Tentamos montar um cartão de visita sonoro, com um pouco das nossas faixas autorais, nossos remixes e nosso jeito "sistema forrobodó live PA" de tocar. Começamos macio, fazendo aquela ponte entre o xote e o reggae com o remix do Bob Marley. Depois caímos para o bom e certeiro baião, numa sequência em que nossas composições autorais se revezam com os remixes. Tocamos "Guitarreira Forrozada", remix da Renata Rosa, remix do mestre Tom Zé e o baião "Gonzagueano", que faz parte do EP lançado pela Massa!

E para o XAMA? Quais as suas expectativas ou planos, se houver algo assim?
Animados demais em desbravar mais um pedaço dessa Bahia que parece cada vez mais infinita. O plano é mandar brasa e marcar a mente e o coração da galera que curtir essa mistura! Mergulhar o som nessa Bahia de Todos os Santos!