Fritzzo

Por Francisco Cornejo
Foto capa
Pyetra Salles

Porto Alegre se manteve de modo inabalável como uma das cidades mais vívidas nos mapas brasileiros do desbunde noturno e da resistência cultural. Ponto focal de inúmeras iniciativas pioneiras e projetos inovadores no terreno da música pelas regiões austrais do Brasil, é fácil entender como um ser criativo como a jovem Fritzzo tenha encontrado ali condições para se firmar e desenvolver, seja pelos desafios impostos ou pelas oportunidades providas, mas principalmente pelo senso de comunidade que ali sempre se cultivou nos meios artísticos.

E é revigorante notar o quão destemida ela se mostra no fazer e no falar de seus ofícios. Ela esbanja uma honestidade e energia extremamente contagiantes e que parece permear tudo que faz. Algo que se mostra até como invejável para muitos de nós, marmanjos de pés calejados e ouvidos cansados, mas que é muito melhor e mais duradouramente absorvido se pudermos nos inspirar nela e em suas diversas iniciativas.

Afinal, quão felizes ou exitosos seríamos se tivéssemos essa disposição e clareza lá atrás? Ainda bem que tudo que esta jovem gaúcha tem de vontade e talento, também mostra de visão e consciência, musical e verbalmente.

 Foto: Pyetra Salles

Foto: Pyetra Salles

Creio que vale começar sobre como e quando se viu ou sentiu como uma DJ pela primeira vez. Você consegue se lembrar desse momento de transição ou do que te levou a ele?
Iniciei minha trajetória como DJ aos 18 anos no estilo open format. Toquei em diversos clubs da cidade mas sempre estive presente nas festas de música eletrônica. Foi ano passado, através da criação do Coletivo Plano, junto de amigos meus que tinham os mesmos anseios, que me encontrei e me senti como DJ pela primeira vez. A rua sempre foi a nossa maior forma de nos expressar como artistas e foi onde tivemos a liberdade de apresentar o nosso trabalho.

Como sua cidade natal e suas experiências nela moldaram sua personalidade artística ou mesmo essa mais pessoal, por mais indissociáveis que possam ser?
Nasci em Porto Alegre, aos 7 anos me mudei para Canela. Crescer numa cidade do interior me privou de conhecer algumas cenas, mas através da prática da capoeira, esporte que pratiquei por 11 anos, foi o meio que me influenciou em diversas formas, musicalmente e socialmente. Quando voltei pra minha cidade natal foi quando me descobri ainda mais como artista.

Entre a vida como tatuadora e seletora, cabem muitas analogias e se encontram muitas proximidades, mas como você concilia e coaduna ambas? Quais são os pontos de interseção, além desse contato tão íntimo com corpos e a possibilidade de criar algo transformador neles e para eles?
Estudei arquitetura por 3 anos, tranquei no início deste ano para estudar a arte da tatuagem, profissão no qual sempre esteve presente na minha vida e é uma das minhas opções de carreira. Atualmente tenho intercalado meu trabalho como aprendiz durante o dia no studio do Heráclito onde eu trabalho, e passo escutando música e estudando arte ao mesmo tempo. A união entre a arte e a música é o meio de me conectar com as pessoas e expressar a minha identidade como artista, este contato íntimo com os corpos é algo que está inteiramente ligado entre estas duas profissões. Conciliar as duas tem sido difícil, requerem muita dedicação, mas sou tão apaixonada que tento intercalar um período para cada uma e não deixo de estar vivendo no meio que me influencia e me traz aprendizado todos os dias.

E quanto à Greta? Quem é ela? O que planeja? De onde veio e para onde espera ir?
Como o significado do próprio nome já diz, a GRETA surgiu no início deste ano como uma rachadura e necessidade gritante na nossa cena que é majoritariamente composta por homens. O coletivo é composto por mulheres artistas, produtoras e DJs. Eu, Marê Viscaíno e Paula Vargas pensamos desde nossa primeira festa, que foi no quarto distrito da cidade, o incentivo a meios de transportes mais sustentáveis, sendo bike free até 1h, reforçando que as pessoas cheguem mais cedo para prestigiar o trabalho da DJ que está fazendo o warm up, e a importância também, da presença do público LGBTQ+ nestes espaços. A GRETA quer mudar e fortalecer o cenário da música eletrônica underground, e nós estamos apenas começando.

 Foto: Yuri Junges

Foto: Yuri Junges

Conte-nos um pouco sobre este mix. Ele partiu de uma ideia preconcebida ou foi fruto de pura espontaneidade? Há um conceito por trás dele ou mesmo uma proposta, por mais abstrata que seja?
Este mix partiu de uma ideia espontânea e natural, melódica e quebrada. Busquei uma mistura de gêneros que mostram minha trajetória como DJ de música eletrônica neste 1 ano de profissão.

E quanto ao futuro? Entre uma agulhada e outra, seja no sulco do vinil ou da epiderme, o que aparece no horizonte da Fernanda e seus projetos?
O futuro me traz ansiedade. Eu sempre quero mais, e vou buscar todo conhecimento que me for permitido dentro de meu alcance. Quero fortalecer meus projetos e levar eles adiante por todos os lugares.