Frontinn

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Por Francisco Cornejo

Pela “lei” social da reciprocidade, se gentileza gera gentileza, franqueza deve necessariamente ser respondida com, no mínimo, um equivalente. Mas neste caso específico em que nos deparamos com uma personalidade aberta como a de Frontinn, a mutualidade esperada é superada com um transbordamento informativo e afetivo que é difícil de não nos cativar. Uma que se revela plenamente envolta na mais sincera paixão por sua arte e totalmente desprovida de qualquer pudor em exibi-la.

Sendo que DJs têm em seus sets uma forma muito particular de comunicação com seu público, o mix que elaborou para nós e a breve conversa abaixo são aspectos complementares da apresentação de um talento dos mais promissores, pois são reveladores na mesma medida em que são inspiradores. Entre a pureza nas intenções e a franqueza nas explicações, esta contribuição de Frontinn à nossa série é um daqueles presentes que nos desafiam e reconfortam enquanto nos levam através de sua narrativa.

 Sua chegada nos meandros mais evidentes da cena nacional é relativamente recente, ao menos para nós que vivemos nesta bolha paulistana. Então a pergunta que cabe aqui é: como a jornada que lhe trouxe até este ponto se iniciou? Quais os momentos, encontros e descobertas que foram mais marcantes em seu decorrer?
A primeira vez que toquei como DJ numa festa foi a Tilt na Fosfobox do Rio de Janeiro, e eu tive que entrar pela saída de emergência pra não ser barrada pelos seguranças, eu tinha apenas 16 anos. Aprendi a usar o CDJ na hora e o público eram alguns amigos do colégio. Minha atividade como DJ sempre foi meio ocasional, quando alguém convidava, na verdade eu sempre fui mais envolvida em fazer música. Em 2012 comecei a tocar com a Radio Lixo, um projeto de experimentação sonora utilizando mídias de reprodução e colagens. Acredito que minha introdução na música eletrônica tenha começado por aí: a gente usava uma série de instrumentos analógicos e comprei minha primeira bateria eletrônica (uma TR-505 da Roland numa feira de rua, por 50 reais) e tentava usa-la de um jeito mais quebrado e descontruído junto com sons de osciladores de frequência, loops de fita, vinil, sequenciadores, instrumentos baratos, pedais de guitarra e o que surgisse para ser sampleado. Aprendi muito nessa época e tive trocas incríveis com o Joaquim, Cainã e Abel, meus colegas da Radio Lixo.

Paralelo a isso, frequentei muitas festas e gostava muito dos sets do Badenov. Comecei a pesquisar muita coisa legal a partir do som que ele tocava; Joachim Witt, Gary Numan, Human League, Rebolledo... Inclusive armamos uma festa junto com o Diogo Reis no La Cueva (uma boate gay dos anos 60 em Copacabana), a “Hi, Gary” com sons mais obscuros.

Agora, a coisa de tocar com mais regularidade e produzir começou em São Paulo, pra onde me mudei em seguida. Acho que São Paulo tem uma energia que falta no Rio, aqui parece que as pessoas realmente tem curiosidade, querem ver o que está acontecendo e saem de casa para isso. Toquei bastante no Lourdes, no centro de SP, especialmente na festa Pista Após a Morte que o Cacá (Carlos Issa) organiza. Ele me chamou algumas vezes pra discotecar e fazer uns lives... e depois disso comecei a tocar no S/A, Trackers e outros lugares que gosto muito, como o Morfeus que fica no centro também. Tenho uma noite lá com o Carioba, Thingamajicks e o Sávio que se chama Desfigurad, e é bem pesado o som. Nosso público regular raramente passa de 30 pessoas e todos são amigos, então existe uma liberdade sonora e um clima despreocupado que permite mais experimentações. Sinto que a minha prática de mixagem, seleção de repertório e tudo que eu pude testar lá ajudou muito a evoluir o set que eu tenho tocado hoje.

Paralelo a isso, o Zopelar me chamava para tocar em algumas ODD’s, até que recentemente me tornei residente da festa. Também por conta da ODD toquei na Virada Cultural, em SP, e lá conheci o pessoal da Gop Tun, que tem sido muito generoso e me chamou pra tocar essa semana na mesma noite que a Helena Hauff, uma DJ que eu admiro muito.

Se pudéssemos definir o quê (ou como) você toca, qual seria uma boa tentativa?
Acho que essa é uma pergunta bem difícil porque eu não saberia definir. Na verdade, a surpresa é uma condição para eu mesma me interessar pelo som, então eu gostaria de conduzir as pessoas para o mesmo lugar que me fez chegar na música: “nossa, pra onde isso está indo? não conheço, o que é?” Esse é o meu jeito de me apaixonar pelo som.

E este set, qual foi a inspiração ou a proposta por trás dele?
Busquei misturar um eletrônico meio devagarzão, introduzindo algumas referências que sempre me influenciaram muito, como Throbbing Gristle, Le Syndicat Electronique, Section 25 e coisas que, à primeira vista, você pode não identificar como “pista” mas que conduz super bem.

Ele se distancia muito do que podemos curtir quando estamos de frente com você numa pista?
Nem tanto, porque não sei se tem esse “lugar” pista. Acho que é um “momento” que você constrói na hora. E pode ser uma combinação desses mesmos elementos.  

E o que dá para esperar no futuro, próximo ou distante, de você e seus projetos?
Pretendo continuar tocando e estou produzindo algumas coisas novas e fazendo algumas parcerias também, mas as novidades virão no tempo. Muito obrigada pela entrevista!