Kakubo

Por Francisco Cornejo
Fotos: Willian Santiago e Samuel Esteves (capa)

Foto por Willian Santiago

É quase inevitável associar mecanicamente o criador a sua obra de forma a procurar traços de um em outro e vice-versa e assim, muitas vezes, criamos expectativas sobre a personalidade de um artista apenas tomando como base sua sonoridade. E, muito previsivelmente, somos surpreendidos com frequência pelo quão incongruentes essas esferas podem ser e mesmo coabitar a mesma pessoa.

Kakubo e seu som podem parecer contrastantes, assim que ouvimos uma seletora aventureira que concatena densas placas de ruído sonoro para extrair sua força conjunta e a conhecemos pessoalmente, quando uma doçura e uma serenidade penetrantes tomam conta da interação. Sua aparente timidez por vezes ajuda a esconder uma relação com a excelência que é bastante intensa e permeia todo seu trabalho, seja nas artes visuais como nas musicais.

Aqui podemos conferir tanto um pouco de sua fantástica vazão em ambos, através de um mosaico composto por alguns de seus momentos favoritos como designer e um set exclusivo que condensa suas arrojadas preferências musicais.

A pior parte de estar num epicentro cultural como São Paulo é muitas vezes ficar isolado de coisas muito legais que ocorrem fora desse vasto, mas inescapavelmente circunscrito território, e assim uma cena como a de Londrina acaba passando despercebida por aqui. Você poderia nos ajudar aqui contando um pouco sobre o que se passa na cidade em termos de vida noturna, música eletrônica e temas afins?
Londrina não é minha cidade natal mas onde descobri a grande parte do que conheço por noite por ter vindo morar aqui na adolescência. Tem uma festa que foi bem importante pra mim chamada Puppets, um rolê que tá ativo há uns 15 anos onde toquei pelas primeiras vezes, ”mixando” entre o itunes e o winamp. É uma festa queer com uma pegada mais obscura e um leque bem amplo de som. Não é exclusivamente eletrônica, mas foi onde tive contato maior com com música club além de conhecer coisas como IDM, música industrial, kraut music, ítalo disco, synthwave. Eles dão espaço pra uma porção de gente nova no som, artes visuais, performance, que incorpora uma juventude meio deslocada em uma cena e ter espaço de expressão como artistas. Vejo que ações como essas mudaram um pouco o cenário da cidade, mas há uns anos as festas de música eletrônica eram um rolê inacessível ou muito opressor, sobretudo culturalmente numa cidade do interior. Mas existem grandes raves e que rolam também num cenário mais periférico, alguns clubs e vejo que vem crescendo.

E como acabou fazendo parte dela (e ela de você) criativamente?
Nesse sentido acho que começou com música nessa época que mencionei perto dos 16 anos, foi a forma como comecei a me conectar com mais pessoas com quem tinha identificação. Formamos um coletivo aqui há 2 anos atrás com foco em eletrônica, o Subcutâneo, com festas itinerantes, oficinas e talks com intuito de incentivo. Mas a maior parte foi trabalhando com artes visuais e gráficas. Acabei me vinculando com uma galera que produz cinema criando cartazes pra eventos e festivais locais, depois dentro de agências e estúdios. Tem grandes músicos, artistas visuais e designers na cidade e minhas maiores referências foram pessoas daqui, que eu conheço e moram praticamente aqui do lado.

Falando em criatividade, o âmbito musical é apenas um no qual a sua se materializa, sendo que há também um trabalho como designer já bem estabelecido. Eles se informam em algum sentido ou mesmo há alguma relação intrínseca entre essas esferas expressivas?
Existe uma relação e acho sempre tentei unir essas duas esferas mesmo sem muita consciência. Quando tinha banda no colegial tirava fotos dos shows dos amigos, depois comecei a fazer algumas artes pros eventos e mesmo quando já trabalhava profissionalmente com design ficava sonhando em fazer capas de discos. De alguma forma nunca abandonei a idéia de fazer som e nesse tempo fui comprando instrumentos e estudando produção por conta própria. Mas esse link "imagem-som" em específico acabou virando estudo indo pra um lado mais artístico. A primeira vez que pensei em fazer um live foi pensado como performance audiovisual, uma coisa mais pra arte/tecnologia que música de fato. Cheguei criar e a apresentar uma sessão em 2013 de forma bem grosseira, mas que me levou a querer descobrir mais a fundo e estudar música eletroacústica depois. É algo que está parado mas ainda quero aprimorar e colocar em prática. De qualquer forma, vivo buscando relações visuais pra qualquer som que esteja fazendo e sinto que o processo criativo também tem um link com a forma de pensar imagem.

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E quanto a este mix? Ele é fruto de planejamento ou espontaneidade pura e simples? Existe um conceito por trás dele ou algo assim?
Pensei em fazer algo que tivesse um impulso de começo de ano, então a mix tem certo movimento e também alguns momentos de descobertas. A maior parte são sons percussivos/energéticos de diferentes vertentes (industrial, breaks, electro, dub, techno) e partes mais suspensas, ruidosas e futuristas. O set tem faixas da I.C.G, Martinelli e Xiao Quan, produtores nacionais que gosto muito e artistas como Elysia Crampton, Holly Herndon ou Geneva Jacuzzi, coisas que não costumo tocar em festas.

Quais os planos, projetos e produtos que podemos esperar de Kakubo em 2019?
No primeiro semestre saem dois lançamentos em cassete por selos de uma galera aqui do Paraná, pelo Meia-Vida (da Aline Vieira e Gustavo Paim) e pela Gowpe (do RHR e Leonardo Faria). Os dois EPs tem propostas bem diferentes e tô ansiosa pra ver isso rolando. Quero continuar num gás que consegui em produção, focar mais em lives e em médio prazo fechar um disco. Com a MetanolFM, junto com o Akin Deckard e o Nørus, temos várias coisas pra colocar em prática em novos formatos de eventos, programas de rádio e ações de incentivo à produção nacional.

Em uns meses volto pra morar em São Paulo quero me conectar com mais pessoas criativamente e fazer colaborações. Espero que o ano seja tão produtivo e empolgante como tem sido esses últimos tempos.