Kureb

Por Francisco Cornejo
Fotos Georgia Amorim

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Ainda que Juiz de Fora tenha entrado na história do Brasil como epicentro de alguns dos mais cataśtróficos momentos políticos dos nossos tempos, então é justo que compensasse com uma abundância daquilo que nós dá mais força e alento, além de alívio, em tempos como estes: a música. E Kureb é um agente central na circulação desses bens pela cidade e daí para o Brasil, muito por conta de sua versatilidade, mas principalmente pela seriedade de sua abordagem não apenas musical, mas conceitual, fruto de uma consciência contextual afinada com os tempos e movimentos dessa cultura que vivemos, amamos e dançamos.

Ele aqui nos oferece uma deliciosa jornada cromática que nos carrega por diversos matizes melódicos e variadas matrizes rítmicas que se fundem nessa seleção que inaugura a serie de mixes que prenunciarão o XAMA 2019 na Península de Maraú na Bahia. Não tanto uma amostra, mas um prelúdio do que este hábil e simpático juizforense carrega no case, no pendrive, na sacola, mas especialmente no coração.

Essa aventura toda começou como? Quando o bichinho das carrapetas te picou? 
Tudo começou no fim dos 90 e início dos 00s, quando junto de dois grandes amigos aqui em JF - Paulo Beto e Igor - fãs de cinema, literatura sci fi e sonoridades “lado d” - me apresentaram ao até então novo mundo da “dance music”. De IDM a Jungle, passando techno, house, dnb, discos clássicos, como Polygon Window [ed: alcunha do Aphex Twin], LFO, Squarepusher, Autechre, e todo o material visual que era produzido nessa época, como os gráficos do The Designers Republic e as maravilhas visuais da tríade Chris Cunningham, Michel Gondry e Spike Jonze. Isso tudo evoluiu num segundo momento para uma busca informal e ao mesmo tempo mais detalhada de sonoridades experimentais de synth antigas, Italo, Library Music, música brasileira até então não descoberta, Minimal Wave, e etc. 

Ser um nativo de Juiz de Fora, uma cidade que normalmente não figura entre os grandes centros dançantes ou de vibrante vida noturna do Brasil, ainda que contribuindo com uma herança musical única para nosso repertório, algum dia foi um empecilho nesse trajeto? 
Não, nunca foi! Mesmo pequena, a cidade é muito efervescente culturalmente, muito graças à presença de uma universidade e várias instituições de ensino. No campo audiovisual, uma leva de talentosos jovens cineastas se renovam a cada ano, bandas com trabalho autoral de muita qualidade, e um histórico artístico rico e produtivo, graças à proximidade das pessoas, a facilidade de se encontrar e o constante debate de idéias. Só pra citar exemplos: saiu daqui um mestre do samba - Geraldo Pereira, e um dos primeiros discos de Drum & Bass do Brasil, o "Lo-Fi Genesis," do meu amigo Anvil FX. E o mais interessante é poder estar em contato com tudo o que está acontecendo no eixo RJ-SP-BH, já que é tudo muito próximo. 

É um Brasil totalmente novo hoje, em dia no qual vemos uma interligação mais orgânica entre as cenas locais e uma capilaridade mais ampla dos esforços festivos. Como alguém que viu e viveu muito do que nos trouxe a este rico momento atual, quais você considera que tenham sido os pontos principais que nos trouxeram a ele e a um evento como o XAMA que aparece como um belo coroamento desses esforços? 
Eu acho que a questão sócio-política do país, unida a um processo de renovação no cenário da noite (que até então dependia demais dos clubs), permitiu a inclusão de uma série de pessoas que trouxeram muita riqueza musical, energia produtiva e expôs um potencial enorme de engajamento e realização em vários níveis sociais. Hoje a cultura DJ funciona como um eixo forte dentro de várias cenas, e por vezes até se tornando um fator que as aglutina, mistura, quebrando o padrão estratificado e elitizado que era dominante num passado não muito distante. E o XAMA é o celebrar disso, uma miríade de sonoridades que abrangem o espectro da cena nacional, reunida para trocar, aprender e claro, fazer muitos planos! 

E quais suas expectativas para participar desse festival? Já passou alguma virada de ano pela região? 
As expectativas são muitas! To super curioso pra conhecer o som da turma do Sul, só tenho ouvido coisas boas! Os meninos da Gop Tun, o Dani Souto, e a Vale nunca decepcionam, e ainda tem toda a experiência maravilhosa de colocar a minha turma aqui de JF para encontrar a de BH para uma imersão musical. 
Vai ser a minha primeira vez tocando na Bahia! Quando criança, visitei a região norte de Minas e o sul da Bahia, já que minha mãe tinha origem indígena daquela região e foi tudo muito corrido. Dessa vez vou para curtir! 

E quanto a este set: ele tem uma proposta definida ou um momento específico do dia ou da vida para ser apreciado? 
A proposta dele é o que eu faço sempre, fazer um registro do momento. Nesse caso, uma noite de insônia pós eleições caóticas. Peguei tudo que estava preparando para as próximas gigs, e juntei. Espero que gostem!