Luísa Viscardi

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Por Francisco Cornejo

A DJ Luísa Viscardi é um dos destaques da Funk The Vibe, festa que acontece nesse final de semana em SP e traz ao Brasil o produtor e DJ Kenny Dope além de Rafael Moraes e o aniversariante, Chico Cornejo.

A abrangência musical dos seus sets é reconhecida como “Freestyle”, cujos repertórios fluem nas mais diversas situações através da sua singular e flexível perspectiva de DJ. E há poucos dias de sua apresentação, em meio a produção de vídeos para seu canal que acaba de estreiar no YouTube, agenciamento de talentos e agenda intensa, a DJ conseguiu separar alguns momentos para responder a entrevista.

Sendo próximo de algumas das pessoas as quais você pode chamar de mentoras, tive o privilégio de testemunhar sua carreira desde os estágios iniciais e foi fascinante vê-la desabrochar até onde está hoje. Como foi que começou essa relação com a música que a levou a se profissionalizar em torno dela?
Você foi sem dúvidas um dos primeiros a presenciar tudo, se não me engano, nos conhecemos quando eu ainda nem era DJ. Não sei nem expressar a minha alegria pela oportunidade de aprender com os melhores. Nossos grandes amigos, Marky e Alain Patrick são, sem dúvidas, dois grandes influenciadores na minha carreira e pessoas pela qual eu tenho um profundo respeito, admiração, amor e gratidão. A música sempre fez parte da minha vida, minha família toda sempre foi muito ligada à musica e eu cresci em torno disso. Tenho formação acadêmica em moda e trabalhava na área mas, desde nova já era uma pesquisadora musical assídua, trocava muita música com muitos DJs e tinha uma vontade enorme de estar perto deles e aprender a tocar, acho que naquela época faltava confiança mesmo, eu não acreditava no meu próprio potencial. Em agosto de 2012 recebi um convite para discotecar e resolvi me arriscar, lembro da minha sensação ao ouvir a primeira música saindo daquelas caixas enormes do Mono Club, tive a certeza absoluta que esse era o meu caminho de vida. Desde então, as oportunidades na música começaram a surgir com mais frequência e as minhas prioridades mudaram, tudo passou a girar em torno do meu sonho. Como eu necessitava da flexibilidade que uma carteira assinada não dispõe, me desliguei da moda e fui me envolvendo cada vez mais com a música. Passei a estudar e me dedicar mais a profissão de DJ, treinando com muito mais frequência, explorando novas sonoridades no meu set e, em paralelo, desenvolvendo a JAMBOX ao lado da minha irmã de vida e ex-sócia, Rizza Bomfim. As conquistas de hoje são resultado de muito empenho, amor sem limites, foco e muitas noites sem dormir. Rs. Nada vem de graça! 

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E agora que sua trajetória conta uns bons anos, quais foram os pontos altos dela para você? Aqueles momentos que se tornaram inesquecíveis por uma razão ou outra, os mais incríveis em que você se viu até aqui. Sinta-se à vontade de dividir os baixo também, afinal se tem algo que rende cliques é o sofrimento alheio, principalmente se pudermos rir dele. 
Como o tempo passa rápido, né? Esse ano completo 30 anos, 6 anos de carreira como DJ e 4 anos de JAMBOX. A primeira coisa que me vem a cabeça quando falamos de pontos altos é, sem dúvidas, a oportunidade que tive de conhecer e trabalhar com os meus maiores ídolos. Essa troca de energia e conhecimento é que me faz acordar todos os dias com vontade de querer realizar mais e mais, foi muito gratificante ter contato e criar uma relação de amizade com inspirações como Jazzy Jeff, Grandmaster Flash, Talib Kweli, DJ Craze, Z-Trip, entre tantos outros que trouxemos para se apresentar na JAMBOX. Também não poderia deixar de ressaltar gigs inesquecíveis, tive a oportunidade de tocar ao lado de Billy Paul, Grace Jones, Underground Resistance e Gaslamp Killer, como não agradecer todos os dias? Sobre os pontos baixos, sem dúvidas existem milhões. haha! Lembro que o booking do Grandmaster Flash deu tanto trabalho que quando ele foi embora eu fui direto para o bar relaxar. Rs. Ele quase cancelou a tour, não queria carregar as bagagens dele, teve o voo alterado, não tinha folhas no passaporte pra carimbar o visto do Brasil, juro, parecia pegadinha as coisas que aconteciam. Lembro dele ligando no meu celular, sim o próprio, em um domingo 21h querendo cancelar a tour, não sei nem explicar o meu desespero pra vocês, comecei a rir no telefone de nervoso! haha! Fora os perrengues com os gringos, sem dúvidas tiveram milhares nas Pick-ups também, mas hoje enxergo todas essas situações como aprendizado. Recentemente comecei a tocar com o Serato pois sempre tinha problemas com o Traktor, o que me impulsionou nessa mudança foi chegar em uma gig e a placa de som do Traktor simplesmente não funcionar. Tive que tocar com o computador e o Serato de uma amiga, amei e migrei de software no dia seguinte. A vida sempre surpreende a gente, né? Observo e aprendo todos os dias. Estou sempre aberta para absorver o melhor de todas as situações.


Mesmo que consideremos que grande parte da trilha que por hoje você e muitas outras transitam tenha sido aberta por desbravadoras como a Sônia Abreu e mantida por outras valorosas mulheres nas cabines, ainda em pleno 2018 há trechos difíceis de serem trafegados. O que ainda te incomoda no seu cotidiano como profissional e o que, na sua opinião, não tem lugar em pleno século XXI além de escalações 100% masculinas para eventos? 
Eu acredito muito que nós, mulheres atuantes no mercado da música, temos crescido e nos posicionado muito mais e as coisas, de fato, estão mudando. Acho que o mundo está passando por uma reformulação, onde determinados tipos de comportamento não tem mais vez, vide a misoginia ou qualquer outro tipo de preconceito. Acho que com o tempo eu aprendi a lidar com algumas situações e me blindar da melhor maneira que encontrei: fortalecendo as mulheres talentosas, estudando, pesquisando, me especializando e sempre preocupada em realizar um bom trabalho. Óbvio que risadinhas de técnicos de som que acham que você não sabe tocar ou ligar o seu próprio equipamento me incomodam, assim como manterrupting e homens atuantes no mercado que pensam que são melhores profissionais que você. Eu acho que o preconceito está tão enraizado na nossa sociedade que as pessoas nem percebem determinados tipos de comportamento. Eu confesso que ao invés de reclamar, a maneira que eu contei de lidar com as coisas que me incomodam no meu cotidiano profissional é realizar o meu trabalho com excelência e evoluir me tornar um ser-humano melhor a cada dia. Inteligência emocional é tudo - já dizia Alain Patrick! :P

Apesar de os sons urbanos serem o que cimenta sua personalidade como artista, seus gostos e inclinações musicais abrangem muito mais, certo? Tem muita coisa que você curte e não consegue tocar por um motivo ou outro? 
Sim, sem dúvidas meu repertório musical vai muito além do que qualquer rótulo. Eu sempre fui extremamente eclética, aberta a ouvir novas sonoridades e curiosa com tudo ao meu redor. No início da minha carreira como DJ, eu morria de medo de tocar muitas vertentes e não conseguir criar uma identidade como artista, hoje eu enxergo que essa identidade foi construída justamente por conta dessa versatilidade musical, o que acabou se transformando em uma das minhas principais características.  Eu diria que eu toco absolutamente tudo que eu gosto, a questão é mais a seleção do que tocar e onde tocar, música é sentimento e não tem jeito. Como eu circulo em diversos tipos de rolê, isso me possibilita transitar por diversas vertentes musicais durante as minhas apresentações, o que eu simplesmente amo. Comigo não tem essa, não deixo de tocar nada que faça o meu coração bater, só seleciono o local exato para aquela canção! Rs. Meus sets costumam transitar entre o Rap, R&B, Disco, Funk, Soul, House, Brasilidades, Pop e as vezes até um Drum & Bass! Amo muito! 

O que faz um bom set para você, dentro e fora da cabine?
Feeling musical e ser surpreendida. Eu valorizo demais uma técnica impecável, a própria JAMBOX nasceu e foi pautada no turntablism mas, na minha opinião, nada substitui uma pesquisa musical impecável e o feeling certo para saber onde colocar cada peça desse delicioso quebra-cabeça musical. Eu costumo sair realizada de eventos onde consigo tocar o coração das pessoas de alguma forma, onde sinto aquela troca de energia e conexão única com a pista, sabe? Acho que essa é uma das maiores satisfações do meu trabalho, vivo para isso - dentro e fora da cabine, amo ser surpreendida quando estou na pista também. :)

E, falando em set, qual foi a ideia, o ímpeto ou a intenção por trás deste aqui que preparou para nós? 
Tocar o seu coração! Rs. Brincadeiras a parte, a construção desse set foi muito especial. Eu conheço bem você e a sua exigência musical, o que foi ótimo pois me deixou extremamente desafiada em criar algo que estivesse aos pés de tanta bagagem. Acho que a ideia principal por trás desse set foi literalmente me imaginar no evento abrindo a pista pro Kenny Dope. O que eu tocaria? O que seria surpreendente? Fiquei imaginando e selecionando o que eu julguei compatível no meu imaginário e, em cima disso, criei uma história com todas as preciosidades que a gente tanto ama e que fazem parte da minha trajetória musical. Espero que você goste, fiquei muito feliz com o resultado. 

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Como já abordamos o passado e o presente, só nos resta olhar para o futuro. O que adiante em seu percurso? 
Muitos planos e novidades incríveis. A JAMBOX está a todo vapor, até o final do ano teremos 2 bookings internacionais, produziremos alguns eventos em parceria e muito conteúdo audiovisual e escrito. As artistas do nosso casting também estão em evolução constante, dia 03/08 lançamos o primeiro single com clipe da Stefanie e a DJ Cinara está iniciando suas primeiras produções musicais. Da minha parte, além de dividir meu tempo entre os toca-discos, treinos, pesquisa musical, aulas com Nedu Lopes e a JAMBOX, recentemente lancei um canal no YouTube, meu novo projeto do coração, A Cor do Rolê. Acredito que estarei bem focada nisso nós próximos anos, esse canal é um sonho muito antigo e eu estou extremamente empolgada com a oportunidade de produzir um conteúdo realmente relevante. Meu foco será música, viagem, arte urbana, moda, dicas, entrevistas e a cultura urbana de um modo geral. Ah, em outubro faço minha primeira tour pela Califórnia, com gigs fechadas em Los Angeles, San Diego, San Francisco e Oakland! Eu agradeço muito ao universo por tantas oportunidades maravilhosas, mas trabalho muito duro também para estar apta a recebê-las! Rs. 

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